Catedral metropolitana 

“Imaculada, Maria de Deus, Coração pobre acolhendo Jesus. Imaculada, Maria do Povo, Mãe dos aflitos que estão junto à Cruz...” Há mais de 150 anos, eis o hino entoado pelos fiéis católicos na imponente Catedral Metropolitana de Aracaju, monumento tangível, que não somente retrata em seu ambiente as manifestações de fé do povo católico, como também evoca na memória, uma história local. Criando assim, uma identidade cultural precisa e despertando para a consciência que preservar, conservar, manter, é salvaguardar nosso patrimônio espiritual e político-cultural para as futuras gerações.  Em mais de um século de história, muitas foram as significações em que a Igreja de Aracaju teve a oferecer para a sociedade sergipana, visto que Sergipe nasceu e cresceu com a presença da mesma.

Em pleno século XXI, em que as informações nos chegam rapidamente ao mesmo tempo em que se vão, evocar o passado, realidade de ausências, nada mais é do que tornar presente e perpetuar para as futuras gerações a realidade da centenária catedral, como patrimônio ofertado a todo Sergipe. Patrimônio na Antiguidade, precisamente na Grécia Antiga, denotava herança deixada pelo pai. Hoje em dia, possui carga semântica similar que, empregado aos bens culturais e em especial à Catedral Metropolitana é um legado, uma dádiva de Deus Pai deixado para os católicos e para a população sergipana.

 

 A história da Catedral de Aracaju se confunde com a realidade das demais construções religiosas inseridas no surgimento das cidades. O insuspeito escritor Viriato Correia diz que: “não há, talvez, país que tenha, como o Brasil, a sua vida intimamente ligada às batinas e aos hábitos. A formação da nossa nacionalidade, começa à sombra das virtudes cristãs dos padres, primeiros pedreiros do monumento da vida nacional”. De fato assim é.  Há um tal, entrelaçamento entre a história da sociedade e a história da Igreja, que não se pode separar uma da outra sem mutilação. Quando não foram as primeiras casas que se levantaram ao lado das capelinhas, foram estas que se levantaram ao lado daquelas. Esta é a história de quase todas as cidades brasileiras, muitas das quais cresceram e se desenvolveram como São Paulo, que cada dia se levanta por entre esplendores das suas vitórias e da grandeza do seu progresso, numa demonstração inequívoca do maior trinfo cultural e econômico do Brasil, senão da América do Sul. Do mesmo modo, não poderia ter sido diferente com a próspera “terra dos cajueiros”.

Para júbilo dos cristãos católicos, no dia 22 de maio de 1856 foi festivamente batida a primeira pedra da futura matriz da nova capital sergipana, cuja obra esteve a cargo do engenheiro Coronel Francisco Pereira da Silva. Relatos revelam que, em virtude da urgência no levantamento da referida igreja, foi alterada a sua primeira planta, admitindo-se um plano mais leve e rápido para atender às necessidades religiosas e urgentes da população da nova Capital, “até que as circunstâncias permitissem edificar-se uma matriz correspondente à importância que breve teria a capital da Província”.

 

A Catedral Metropolitana de Aracaju localizada no Parque Teófilo Dantas, no centro da cidade, é um dos mais significativos monumentos da arquitetura religiosa de Aracaju.  A Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição foi construída em 1862, mas só foi inaugurada em 22 de dezembro de 1875. Sendo que, teve sua obra interrompida por algum tempo, devido a morte do fundador da nova capital, Ignácio Joaquim Barbosa, e pela epidemia de cólera que dizimou centenas de cidadãos na mesma época. Tornou-se Catedral em três de janeiro de 1910, quando foi elevada à categoria de Diocese. (Pois, esmiuçando a palavra catedral deriva do latim cátedra, que significa sede do bispo, cadeira de onde é assistido o culto religioso e de onde é governada a diocese.) Para facilitar as necessidades pastorais e melhor exercer o aprimoramento do trabalho de evangelização católica e de formação humana que já vinha sendo feito em Sergipe, o Papa Pio X, através da bula Divina Disponente Clementia, de 03 de janeiro de 1910, desmembrou da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, a Igreja que estava na província de Sergipe Del’Rei, transformando-a em Diocese que abrangia todo o Estado de Sergipe. Sua instalação se deu no dia 04 de dezembro de 1911, com a posse solene do seu 1º bispo, Dom José Thomaz Gomes da Silva. De fato, com a instalação da Diocese e posse do 1º bispo de Aracaju, a presença da Igreja na história de Aracaju e de Sergipe tornou-se cada vez mais efetiva. Sendo que, é importante ressaltar que a Igreja Católica local teve grande contribuição para o desenvolvimento da capital sergipana nos aspectos culturais, sociais, intelectuais etc. Cinquenta anos mais tarde, a mesma passara à categoria de Arquidiocese, com a criação e em sintonia com as Dioceses de Estância e Propriá.

A sede católica dos fiéis de Aracaju, o velho templo, a antiga matriz da Imaculada Conceição, elevada à categoria de Catedral com a criação e instalação da Diocese de Aracaju, não estava condizente com o progresso da cidade, tampouco com o título de catedral, com isto, a comunidade católica de local desejava vê-la adaptada às novas condições da Capital. Seria necessário adaptá-la aos novos tempos da época. Era necessário reformá-la em um imponente templo, aprimorando sua beleza arquitetônica e artística remetida em seu estilo gótico.  Historiadores encontraram em documentações precisas a informação de que a edificação, que é símbolo histórico da capital e de bela arquitetura, é falha. Como foi atestada segundo o relatório do Dr. José Bento apresentado em setembro de 1872, à assembléia provincial, onde encontra-se a seguinte referência: “A matriz da capital nunca será um templo perfeito, a sua planta é de mau gosto, contém defeitos de arquitetura que não se podem mais corrigir, faltando-lhe sobretudo as acomodações exigidas pelas necessidades de culto, são defeitos tão salientes  que não escapam ao olho menos observador”. A necessidade de melhor embelezá-la se fez mister tanto pelo seu significado, como para constituir-se o centro das atenções de quantos visitam a bela e acolhedora capital, aderindo a uma fascinante impressão do povo aracajuano. E eis que, dentre os “Padres de Dom José”, como assim eram conhecidos, surge o culto e corajoso Mons. Carlos Camélio Costa, membro do Cabido Diocesano, da Academia Sergipana de Letras e um dos seus fundadores. Tendo sido nomeado Pároco da Catedral, recebe a permissão, a bênção e a confiança de seu bispo, Dom José Thomaz, para iniciar as obras de restauração, ou melhor, quase reconstrução da igreja. Foram 10 anos interruptos de trabalhos.

Sua cúpula é ornada de belíssimas pinturas do século passado, pois o imponente edifício com seu estilo neo-gótico, como conhecemos hoje, nem sempre foi deste modo. Foi no início do século XX que artistas italianos vieram da Bahia para reformá-la e dar o aspecto que atualmente é apresentada, dentre eles estava Orestes Gatti (artista italiano, nascido em 1840, chegou a Aracaju como integrante da “missão italiana” em 1918, no governo de Pereira Lobo, para a programação das comemorações do Centenário da Independência de Sergipe em 1920. Foi responsável pela pintura do interior da Catedral Metropolitana de Aracaju e da Catedral de Estância-SE). Internamente, precisamente na nave central, para fascínio dos frequentadores da mesma, a sua pintura é em estilo “trompe l’oeil” que dá um efeito de relevo ao jogar com perspectivas luz e sombra. Acima do altar principal, havia uma pintura do sergipano Horácio Hora, dedicada à Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Aracaju, e a quem a igreja está consagrada, ainda a mesma pintura já esteve no teto e hoje, se encontra exposta na sacristia do templo, foi considerada pela crítica artística do pintor como a pior de todas as suas obras, mas mesmo assim possui uma peculiar beleza. No seu interior, precisamente no coro, há o órgão de tubos, que hoje está desativado, o seu som era algo indescritível. A cúpula das torres é revestida de pedrinhas e conchas do mar, para remeter à regionalidade local, visto que Aracaju é uma cidade litorânea. Em São Paulo, há uma cidade cuja igreja reproduz a nossa catedral, inclusive com as conchas na torre. Ainda a capela lateral, conhecida como capela do Santíssimo, possui um lindo trabalho em ferro na grade. Sem mencionar os sinos que com o passar do tempo foram substituídos por som eletrônico que também funciona como relógio, causando entre as pessoas que convivem e trabalham nas mediações do templo fundamental importância para a demarcação do horário.

 

Atualmente, é considerada um dos mais belos pontos turísticos de Aracaju. Os turistas católicos e até não católicos, que visitam Aracaju, têm como referencial da fé da gente aracajuana a adequada localização e a imponência da bela Igreja Catedral. Foi tombada pelo decreto de número 6819, de 28 de janeiro de 1985 pelo Patrimônio Histórico Estadual. Na época, a seleção e necessidade de proteção do bem patrimonial do prédio da Catedral Metropolitana de Aracaju se deu, mediante a importância da ação da Igreja Católica para o desenvolvimento direto e eficaz da capital sergipana, no que diz respeito ao campo não só religioso, como também as demais contribuições da mesma. Vale a pena destacar em síntese, algumas das contribuições da Igreja para a História de Aracaju e por que não dizer, do povo sergipano. São elas: fundação da Academia Sergipana de Letras; os beneméritos padres salesianos fundaram o Colégio Salesiano Nª. Srª. Auxiliadora; foi construído e instalado na Praça Tobias Barreto em Aracaju, o Colégio Patrocínio de São José; instalação do Seminário, o grande precursor do ensino superior em Sergipe; criação do Colégio Arquidiocesano e do Instituto Dom Fernando Gomes; fundação do SAME (asilo dos idosos carentes); Instalação da faculdade de Filosofia e Serviço Social, posteriormente, foi decisiva para a criação da Universidade Federal de Sergipe; fundação do Hospital São José; construção da Casa da Doméstica, Creche Dom Távora e Rádio Cultura de Sergipe; criação do Museu de Arte Sacra de Sergipe, entre outros mais variados contributos.

 

A Catedral de Aracaju é local de grandes manifestações artísticas e culturais, além de conservar as obras do renomado artista sergipano Horácio Hora, também serviu de espaço para as apresentações do coral da Sofise e até hoje, outros grupos musicais apresentam seus concertos, a exemplo da orquestra Sinfônica de Sergipe. Atualmente propõe-se a execução de uma restauração para a mesma, a fim de que, o imponente prédio histórico, artístico e religioso, seja preservado para as futuras gerações e continue servindo como atrativo cultural e turístico na capital sergipana.

 

Hoje, passados todos estes anos, somos testemunhas do progresso da Igreja Católica em Sergipe e herdeiros de uma maravilhosa construção arquitetônica, que é o prédio da Catedral. É preciso salvaguardar não somente o prédio de “pedra e cal” revestido de bela arquitetura e pintura, mas pela sua importância que teve e ainda tem para a história dos aracajuanos. 

 

Texto escrito por Dhiego Guimarães

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