A caridade como meio de penitência cristã


A prática da caridade torna a vida do cristão e da cristã mais amena. A partilha é uma das mais belas maneiras de elevar o espírito.

No decorrer do tempo de preparação para a Páscoa podem ser apontadas três grandes práticas quaresmais ou meios da penitência cristã. Antes de tudo, está a vida de oração, condição essencial para o encontro com Deus. Orar é estar em diálogo com Deus. No estado de oração, o cristão ou a cristã deixa-se tocar pela graça, deixa-se tomar por ela, rende-se às maravilhas do Espírito, a exemplo de Maria de Nazaré, entregando-se por completo aos planos de Deus: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua vontade” (Lc 1,38). Na oração, na completa intimidade com Deus, o coração do cristão ou da cristã exulta de alegria com tão onipotente e onipresente companhia.

Em resumo, orar é deixar-se preencher pelo amor de Deus. É nutrir-se da graça que vem do coração do Deus Uno e Trino, que quer ser o nosso Amigo e o nosso Pai.

O jejum ou mortificação, nas condições normais da vida de alguém, é outro meio concreto para viver o espírito quaresmal. O jejum deve estar abraçado com a renúncia. Jejuar é renunciar a algo que se poderia usar como alimento, mortificando moderadamente o corpo para a elevação do espírito. Renunciar é aceitar com humildade uma condição que no dia a dia faz parte da vida. Renunciar é deixar algo para trás, que não serve mais à pessoa nova que emerge da compreensão da Palavra de Deus e do ato de entrega da vida aos preceitos da Palavra. Vale dizer: é a pessoa nova que nasce da conversão. E a conversão deve ser um exercício constante em nossas vidas. “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mateus 16,24).

A vida de cada cristão ou de cada cristã é feita de várias renúncias. Renuncia-se a muitas coisas. Por isso, é costume dizer-se que não é fácil ser cristão. Sim, é difícil fazer-se seguidor ou seguidora de Jesus Cristo. Porém, quando a pessoa encontra Jesus de verdade, quando para Ele abre-se o coração, nada nesta vida é mais gratificante. Conviver com Jesus e viver como Jesus viveu é a experiência mais extraordinária que o ser humano jamais conheceu.

O renunciar a certas coisas legítimas ajuda a viver o desapego e o desprendimento.

Inclusive o fruto dessas renúncias e desprendimentos pode ser traduzido em alguma ajuda para os mais pobres. E, assim, chaga-se à terceira grande prática quaresmal: a caridade. É a caridade no sentido de esmola. E o que é esmola? É uma dádiva caridosa feita aos pobres, aos necessitados de auxílio, de ajuda.

Entre as distintas práticas quaresmais que a Igreja nos propõe, a vivência da caridade ocupa um lugar especial. Diz-nos São Leão Magno: “Esses dias quaresmais nos convidam de maneira premente ao exercício da caridade; se desejamos chegar santificados à Páscoa, devemos pôr um interesse especialíssimo na aquisição desta virtude, que contém em si às demais e cobre multidão de pecados”.

A caridade deve ser vivenciada e, de maneira especial, com aquele ou aquela a que está mais perto de nós, no ambiente concreto em que vivemos. Desta maneira, vamos construindo no outro “o bem mais precioso e efetivo, que é o da coerência com a própria vocação cristã”, como ensina São João Paulo II.

“Há maior felicidade em dar que em receber” (At 20,35). Segundo São João Paulo II, o chamado a dar “não se trata de um simples chamado moral, nem de um mandato que chega ao homem de fora”, mas, sim, “está radicado no mais fundo do coração humano: toda pessoa sente o desejo de ficar em contato com os outros, e se realiza plenamente quando se dá livremente a outros”. O Papa Francisco chama a nossa atenção para a prática da caridade, para o socorro aos pobres, que, certas vezes, além de muitas necessidades materiais, são feridos em sua dignidade e carecem também do amparo espiritual.

A prática da caridade leva a pessoa a debruçar-se sobre o desmedido apego ao dinheiro. Privar-se não só do supérfluo, mas também de algo mais, para distribui-lo a quem vive em necessidade, contribui para a negação de si mesmo, sem a qual não há autêntica prática de vida cristã. Negar-se a si mesmo é fugir do egoísmo, do egocentrismo que asfixia a pessoa, não permitindo o seu crescimento espiritual. O egoísmo é uma forma terrível de pecado. Fechar-se no egoísmo é não abrir-se para o amor a Deus e ao próximo.

A prática da caridade torna a vida do cristão e da cristã mais amena. A partilha é uma das mais belas maneiras de elevar o espírito. Partilhar é doar-se. É entregar-se ao amor que Jesus Cristo veio nos ensinar, vivendo Ele mesmo um amor incontido por todos nós, ao ponto de dar-nos a sua própria vida, para a nossa salvação.

Praticar a caridade não deve ser motivo de júbilo, de grandeza diante dos homens. Precisamos estar atentos ao que diz o Mestre dos mestres, o nosso salvador Jesus Cristo: “Quando der esmola, não mande tocar a trombeta à sua frente, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelas pessoas. Eu lhes garanto: já receberam sua própria recompensa. Mas você, quando der esmola, a sua mão esquerda não saiba o que a direita está fazendo, de modo que a sua esmola seja dada em segredo. E seu Pai, que vê no segredo, recompensará você” (Mt 6,2-4).

Estamos concluindo a nossa preparação para a Páscoa, para a Ressurreição de Jesus Cristo, o Filho amado de Deus. Que a oração, o jejum e a caridade façam parte de nossas vidas. Que a esmola a ser dada não seja apenas a sobra do que temos. Seja, sim, uma forma de partilhar. Partilhar bens materiais, partilhar dons, partilhar amor.

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