A força da lei do amor


Quando tomamos a Sagrada Escritura, mais exatamente a Profecia de Jeremias, temos: “Esta será a minha aliança que concluirei com a casa de Israel, depois desses dias, - diz o Senhor: imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-lo em seu coração; serei seu Deus e eles serão o meu povo” (Jr 31,33).

No Antigo Testamento, não poucas foram as iniciativas de Deus para estar com o Seu povo, fazendo com ele alianças, sempre obtendo como respostas o ‘não’ dos destinatários de Sua inventiva. Não obstante a negativa que recebe, o Senhor não deixa de lado a aplicação de Seu amor constante pela humanidade. Entretanto, a plenitude do amor de Deus encontra-se estendido na Cruz, no ápice do Novo Testamento, tal como se constitui o Mistério Pascal.

A Nova e Eterna Aliança, estabelecida no Sangue do Senhor, que Se imolou, é a ‘Lei do Amor’, porque é a lógica da oferta de vida para aqueles que, outrora, eram inimigos de Deus pelo pecado. É daí que parte o juramento do Senhor: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto” (Jo 12,24).

Temos a ilustração da semente que explode para germinar. Este ‘explodir’ não poderia ser classificado como um prorromper de amor para vivificar? Se a semente tivesse vida própria, dotada de psicologia capaz de exprimir sentimentos, ela não seria livre? Esta imagem, logicamente aquém, reflete a conduta de Cristo e o que Ele espera de cada cristão. Com relação ao afã de Jesus: “Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora!? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim” (Jo 12,27). Que hora é essa? A hora do amor latente da Cruz. E com relação aos seus seguidores: “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca de sua vida neste mundo, conserva-la-á para a vida eterna. Se alguém quer me servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve o meu Pai o honrará” (Jo 12,25-26). A dinâmica do amor é o caminho da renúncia, da anulação de si, da violência contra si mesmo, que nos faz morrer para que Cristo viva, inclusive no irmão. Isso é serviço. E o prêmio desta ‘morte’ pelo amor é a ‘vida’ do Amor, a vida de Deus, no cristão.

O autor da Carta aos Hebreus nos falará da obediência do Cristo, o Filho, ao Pai. Não o fez a Seu contra-gosto, mas numa atitude de amor a Deus e a humanidade; na liberdade de quem ama, independente de ser amado (como é o caso da não-correspondência da humanidade): “Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu. Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,8-9). Sendo obediente, inspira-nos à obediência que prescinde de uma liberdade interior, capaz de dizer: “Eis que venho fazer com prazer a vossa vontade, Senhor!” (cf. Sl 39,8a.9a). Somente é capaz de dar tal passo decidido os que têm um coração puro, como cantam os Salmos: “Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido” (Sl 50,12).

Pelo amor imolado de Jesus, deixamos a lei da escravidão e fomos feitos filhos. São Bernardo de Claraval, na sua obra “Tratado sobre o amor de Deus”, nos diz: “É preciso saber que há uma lei promulgada no espírito de servidão, que não imprime senão o medo; e outra ditada pelo espírito de liberdade, que não inspira senão a doçura. Os filhos não são constrangidos a seguir a primeira, mas estão sempre sob a autoridade da segunda”.

A lei do amor é ordem de Jesus. E, de Legislador, Ele é também Modelo e Exemplo, que nos inspira à possibilidade, à aventura desafiante do amar. Ele nos dá os meios necessários para esta ação. Então, cabe-nos aproveitá-los na aplicação, sempre conscientes da fidelidade e da constância do Seu amor e da Sua graça.

O Padre Everson Fontes Fonseca é administrador da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro.


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