A força da caridade na partilha


Sejamos instrumentos de Deus para que todos se saciem dos bens que estão ao nosso dispor, porque foram dados por Ele.

O Senhor, sempre impelido pelo amor aos que são seus, preocupa-se com a carência do seu povo, compadecendo-se de estarem como “ovelhas sem pastor” (Mc 6,34), inclusive nos nossos dias. Assim, brevemente, reflitamos sobre o sexto capítulo do Evangelho segundo São João, em que trata do Pão do Céu a partir do prodígio da multiplicação dos pães.

Neste trecho do Evangelho, temos duas catequeses importantíssimas. Na primeira, o Senhor ensina os discípulos a lição da partilha como proporcionada pelo poder do amor de Deus, de Sua providência. A segunda: a partir do ensinamento da solidariedade, o Senhor instrui os Seus acerca da realidade eucarística, preparando os corações para acolher a realidade instituída no Mistério Pascal. Sim, porque, deixada por Jesus na Última Ceia, o Sacramento do Altar, do Pão do Céu, tem a sua eficácia a partir do Cristo Crucificado, Morto, Imolado no Calvário e Vivo para todo o sempre. Assim, nesta ocasião atual, reflitamos sobre a primeira lição, a do gesto de partilha.

Sensível à fragilidade dos que O seguiam, como pastor que conhece a debilidade de cada ovelha, particularmente, o Senhor percebeu a necessidade do povo que O acompanhava. Aquela multidão seguia Jesus porque “via os sinais que ele operava a favor dos doentes” (Jo 6,2), e tal fato os deixava satisfeitos, quem sabe até tão entusiasmados, que não sentiam quaisquer privações de comida, de bebida, de cansaço. Quando a nossa vida está íntima do Senhor, nada nos aflige, porque Ele é o pastor que nos conduz; não nos faltando coisa alguma (cf. Sl 22,1).

O Senhor, num gesto aparentemente sem importância, deseja falar de uma realidade do alto. Percebam que Se afasta da multidão, subindo a um monte. Se fosse a lição da partilha um gesto de mera filantropia, não teria subido o Senhor para multiplicar os pães; teria feito junto ao povo. E outra: senta-se. Esta atitude designa a autoridade de Deus. Os discípulos sobem com Jesus, mas não se sentam. O que significa isso? A ação de caridade da Igreja, representada pelos Doze, é exercida na Pessoa de Cristo, seu Fundador. A expressão de amor, de socorro aos pobres, aos carentes do mundo é manifestação de um sentimento celeste, do zelo do Bom, Belo e Amável Pastor. Se vidas não forem tocadas pela ação caritativa da Igreja, que acontece nas obras de seus filhos como ação de Seu Deus e Senhor, esvazia-se a sua real intenção. A Igreja sempre atua para levar Cristo aos corações. Repito, sintetizando: a Igreja não faz filantropia; exerce caridade, porque esta é amor de Deus, é ação de Deus, que é Amor (Cf. 1Jo 4,16).

Na pergunta retórica: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” (Jo 6,5), temos a descrição feita por São João sobre a intenção do Senhor, confirmando o que já dissemos sobre a raiz-Cristo da ação caritativa da Igreja: “Disse isso para pô-lo à prova, pois ele mesmo sabia muito bem o que ia fazer” (Jo 6,6).

Temos, agora, a intervenção dos apóstolos Filipe e André, que, pragmática e inocentemente, respondem, cada um a sua vez. Filipe pontua: “Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um” (Jo 6,7); já André observa: “Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes” (Jo 6,9). É bem verdade que muitos significaram, ao longo da história da Igreja, a representação dos cinco pães e dos dois peixes. Entretanto, sem entrar na questão, percebamos como Nosso Senhor faz dos discípulos peregrinos na fé, entrevendo, nas suas constatações, certa profissão de fé, tal como se dissessem: “Não temos tamanha quantia de dinheiro para alimentar numeroso pessoal; e aqui, em nossa posse, temos o insuficiente (referindo-se aos pães e aos peixes). Mas, a Tua compaixão, o Teu amor, tudo pode fazer, ó Jesus! Não temos a mínima idéia de como o farás. Está tudo em Tuas mãos, ao Teu dispor”. Entretanto, poderia alguém dizer que vê apenas a falta de fé dos discípulos, tão imediatistas. Porém, quando a nossa fé vacila nalguns momentos, deveremos olhar para Aquele que nos concede o dom da fé, e implorar a Sua ação, como se Lhe disséssemos: “Creio, Senhor! Mas, ajuda-me na falta de fé!”.

O Senhor, nas Suas ciência e providência, quer utilizar do que eles têm para mostrar o Seu poder. Penso que esta atitude de Jesus inspira-nos a cunhar um conceito de milagre: é uma ação sobrenatural de Deus na naturalidade limitada, fugaz, da vida do homem de fé. Todos estavam esperando em Jesus. E o que fez? Tomou o pão e os peixes, agradeceu e distribuiu, saciando tantos com tão pouco. Que pedagogia! Do que não temos, o Senhor pode saciar a quem deu do seu nada e a outros, de maneira que todos se saciem do que Ele concede. Esta lição se aplica à nossa vida por inteiro, seja na dimensão espiritual, seja no seu âmbito material. Deus Se utiliza do que somos e do que temos para falar do Seu amor. E o que nos cabe? A atenção de colocarmos tudo, absolutamente tudo, ao Seu dispor. Isto é o que se configura a partilha eivada da caridade, do amor de Cristo.

Aprendamos, pois, tamanho ensinamento: sejamos instrumentos de Deus para que todos se saciem dos bens que estão ao nosso dispor, porque foram dados por Ele.

Padre Everson Fontes Fonseca é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição (Mosqueiro)

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