“Fazei o que Ele vos disser”: Maria e a família


No desejo de breve análise, faço-o a lançar luzes de esperança na base dos lares cristãos. Assim, refletiremos o papel da Virgem Santa como ‘Mãe das Famílias Cristãs’.

De antemão, afirmo: para nós, que amamos Nossa Senhora, é inquestionável o seu maternal patrocínio sobre os lares, em especial em dois tipos de família: primeiramente, naquelas que escutam a sua ordem: “Fazei tudo o que Ele [Jesus] vos disser!” (Jo 2,5); e nas famílias em crise, quando ela mesma observa, e diz ao seu Jesus: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). A figura de Maria Santíssima é também inspiradora e educadora, pois ao lado de São José, muito tem a ensinar à ‘proto-sociedade’ humana, denominada família.

O grande e inesquecível Papa São João Paulo II muito afirmou acerca desta divina instituição, corroborando o que já dissera em 1981, com a Exortação Familiaris Consortio. Com a sua forte espiritualidade mariana, o Papa, na perspectiva do Ano da Família, em 1994, não ficou indiferente, escrevendo uma carta aberta destinada à vida familiar. Neste documento, não hesitou em chamar a Virgem como ‘Mãe do Belo Amor’, um sinônimo à maternidade de Maria, que gerou e nos apresenta o Cristo, o ‘Belo Amor’.

Trazendo o Salvador do gênero humano em seu coração e ventre, a pequenina ‘Família de Nazaré’ – a saber: Maria e José – não ficaram indiferentes à pertença que a obra redentora de Cristo os iria configurar. Assim, o ‘Lar de Nazaré’ é a primeira de todas as famílias, seja em primazia, seja em cronologia, a consagrar-se ao Coração de Jesus, que lhe nascia, vindo ao mundo como homem, habitando em companhia daquelas pessoas admiráveis, também pela fé. O exemplo de Maria e José levam a feito em perfeição aquilo que o Patriarca Josué já havia dito milênios antes: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor!” (Js 24,15). Daí a autoridade que a Virgem Santíssima tem de ordenar aos serventes – “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5) –, porque somente de um coração, de uma vida exemplares é que tal imperativo faz sentido e tem a sua autoridade. Maria, na perfeição de sua vida fiel ao Senhor, e José, seguindo o exemplo da fidelidade de Maria, fizeram, constantemente, o que o Senhor sempre quis como resposta afirmativa da consagração dos seus corações e do seu lar.

É a partir deste demonstrativo de Maria e de José que se descortina para aqueles tipos de família a quem catalogamos à audição do “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3) um novo horizonte, um ideal a ser alcançado. Esta esperança não se perde no tempo, mas resplandece como um remédio para as mazelas da família hodierna, combatendo igualmente como um antídoto as pseudo-famílias – instituições meramente humanas, excludentes da vontade de Deus, fadadas à condenação por estarem encarquilhadas no pecado, onde imperam a desordem infértil e o capricho de paixões corrompidas. Para os lares desvalidos de ‘vinho’, porque estão desvalidos de Cristo, a ‘Família de Nazaré’ fulge, na tentativa de despertar famílias esmeradas no bem, na santidade de, em tudo, realizarem o querido por Deus, como colaboradores, em todo o seu potencial, da obra d’Ele de criação e salvação.

Na atualidade, o Sacramento do Matrimônio, base da família autenticamente cristã, parece estar ultrapassado. Diz-nos tal aberração o pensamento relativista que dita as normas do momento, distanciando a sociedade do que o Evangelho instrui. Ainda entre aqueles que contraem o Matrimônio existem aqueles que se esquecem de que a vida que abraçaram é correspondência a um plano de amor delineado e executado por Deus com participação especial daqueles corações que se receberam mutuamente sob o olhar de Deus e de Sua Igreja. Não apostam no amor, o verdadeiro amor, cujo principiar é o próprio Deus-Amor (cf. 1Jo 4,8). Com estes pensamentos, temos desde o utilitarismo Daquele que é o essencial e dá sentido ao amor humano (o que se caracteriza em um escanteio de Deus, buscando-O superficial e descomprometidamente), até o pérfido ateísmo que não vê em Deus, ‘Belo Amor’, o nascedouro e o destino da família, e, portanto, do amor conjugal.

As Bodas de Caná, chamadas também de autorrevelação de Jesus, o Seu “primeiro sinal” (no dizer do Evangelho de São João), nos quer indicar um caminho: somente a partir da ótica de Cristo e do Seu amor manifestado ao mundo, é que o ser humano descobre quem é Deus; descobrindo-O, descobre-se, revelando-se a si mesmo, a outrem e ao ‘Outro’; e tendo a sua própria ciência identitária, é capaz de descobrir e aceitar o ‘outro’, o que inclui as suas fragilidades, naquele mesmo pensamento de renúncia própria, tal como foi pedido por Jesus (cf. Mt 16,24).

Que Maria, Mãe e Educadora das famílias, ensine-nos o caminho do Cristo, e, portanto, do ‘Belo Amor’. Que, imbuídas no espírito da fé de Maria, cultivem no centro de seus lares Deus, em torno de Quem deve gravitar toda a experiência domiciliar, o que comporta também as dificuldades. E, tendo o ‘Belo Amor’ como eixo destas experiências, descubram Nele a fonte inesgotável de onde flui todo bem e toda graça. Que a Virgem Santíssima não cesse de olhar com carinho para todos lares, em especial os que estão em diversos tormentos, inclusive no da separação, da desunião, da crise.

Pe. Everson Fontes Fonseca é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, no Mosqueiro


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