A recordação da nossa fugacidade para um espírito de fortaleza


Na próxima quarta-feira, abrindo a vivência quaresmal, haveremos de receber as cinzas em nossa cabeça, escutando da Igreja a recordação da nossa brevidade: “Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar” (Gn 3,19). Creio que, após os excessos destes dias de Carnaval, ou mesmo da cultura do egoísmo, da soberba e da vaidade, onde o que é perecível - como é o caso do corpo e dos seus prazeres - são fortemente cultuados, esta recordação da Igreja deverá ser extremamente desconcertante em nossos ouvidos e em nossa consciência.

Mas por que das cinzas? Como já nos disse o Gênesis, elas dizem respeito ao nosso futuro, porque lembram ao cristão, que haverá de deixar este mundo e as suas ilusões, o que ele é, fazendo com que cuide de sua eternidade, buscando, pela oração, pela caridade e pela penitência, esmerar-se na sua santificação, já trazida por Jesus. Logo, o Tempo da Quaresma será o representativo de nossa vida de passagem por este mundo; enquanto que a Páscoa do Senhor deverá sê-lo de nossa própria páscoa, quando, encerrada a nossa peregrinação terrena, desfeitos os laços de nosso corpo, ressuscitaremos ‘com’ e ‘em’ Cristo.

O grande Santo Afonso Maria de Ligório, em sua pregação sobre “A lembrança da morte e o jejum quaresmal”, referindo-se à imposição das cinzas e à recordação que a Igreja nos fará, exorta-nos: “Eis aí o que é o homem, considerado como criatura mortal. Eis aí o estado a que tu também, meu irmão, serás, talvez em breve, reduzido: um punhado de pó fedorento. Nada importa ser alguém moço ou velho, são ou enfermo: a todos caberá a mesma sorte, o que a Igreja recorda pondo as cinzas bentas indistintamente sobre a cabeça de todos”.

As intenções da Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas para toda a Igreja não são outras, mas um franco pedido a Deus de que a Quaresma nos seja proveitosa, repelindo as tentações e sugestões do nosso ‘eu’ e do Diabo. Por isso, na “Oração sobre as Oferendas” daquele dia, seguindo o mesmo desejo das orações de Coleta e de Pós-Comunhão, pediremos a Deus: “[...] nós vos suplicamos, ó Deus, a graça de dominar nossos maus desejos e pelas obras de penitência e caridade, para que, purificados de nossas faltas, celebremos com fervor a paixão do vosso Filho”.

Ninguém imagine que será fácil a experiência quaresmal: após o soar da trombeta do jejum sagrado, iniciará um tempo de desconforto: seremos - e muito - provados pelo Senhor e tentados pelo demônio. Pelo ‘rasgar do nosso coração’, voltando-nos, inteiramente, para o Senhor nosso Deus, “benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Jl 2,13), venceremos pela perseverança os maus instintos e sugestões, nutridos pela privação dos alimentos graças ao jejum e à penitência, porque, como nos diz o Papa São Leão Magno: “Sem proveito se subtrai o alimento ao corpo, se o espírito não se afasta mais da iniquidade”. Triunfaremos sobre as infidelidades ao Senhor nosso Deus pelos desapegos em dar a quem precisa o que renunciamos pelo jejum com a força da caridade. E assim, sóbrios e afastados de toda a culpa, estaremos em maior comunhão com Deus por meio de uma vida recolhida, consagrada à oração.

Eis as nossas armas: o jejum, a caridade e a oração. Lutemos, então, com os armamentos da fé, entregues a nós por Jesus, sempre providente para com os Seus, de maneira especial, quando da inauguração do tempo propício para a preparação do nosso coração para a Santa Páscoa.

Padre Everson Fontes Fonseca é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, no Mosqueiro

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