O caminho da nossa cruz, que é de Cristo


A consciência de que a Via-Sacra é o relembrar do caminho de dor de Cristo, Nosso Senhor, já está arraigada em nós. Mas, ao tempo em que esta ‘via’ é marcada pelo sofrimento, é palmilhada pelo Redentor para a nossa Salvação. A piíssima devoção da Via-Sacra faz-nos refletir a imensidão dos nossos pecados que nos fez merecer tão grande Salvador, que, impulsionado pelo amor, não hesitou entregar-Se, vertendo o Seu Divino e Precioso Sangue em nosso resgate.

Entretanto, admira-se o fato de que muitos cristãos possuam em suas casas belos crucifixos, mas, infelizmente, só como ornato: surpreendem-se pela sua perfeição, assim como a expressão da dor que reproduzem; porém, não se comovem (ou somente muito pouco), como se não se tratasse da imagem do Filho de Deus Humanado, mas, sim, de um Homem que lhes é inteiramente desconhecido; expressão de um sofrimento alheio. Sem exageros, Santo Afonso Maria de Ligório nos diz: “Uma única lágrima que se derrame por causa da Paixão de Cristo vale mais do que uma peregrinação a Jerusalém e um ano de jejum a pão e água”. É preciso que vejamos, tal como nos aconselha São Paulo da Cruz, a Paixão do Senhor como “a maior e mais estupenda obra do Divino Amor”, declaração extrema de um ‘Deus apaixonado’ por sua criação.

A devoção à Paixão de Jesus, como a Via-Sacra expressa, é um serviço para a nossa santificação, pois repele de nós toda e qualquer opção pelo pecado. O pecado não pode reinar numa alma que reflete muitas vezes na morte de Jesus; este mesmo Jesus que carrega a minha, a nossa, a cruz da humanidade de todos os tempos. O caminho da Cruz de Jesus é também nosso. É distintivo para o nosso discipulado, é trilha para o Céu: “Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: ‘Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me’” (Mt 16,24). Isto entendeu também São Paulo da Cruz ao dizer: “O caminho da Cruz é a estrada que nos conduz ao Paraíso e a via segura para chegarmos à santidade”.

As catorze estações meditadas como passos do Salvador, que vai à nossa frente, também contemplam as quedas do estafado Jesus. Por três vezes, Ele cai. Qual o significado das Suas caídas? Embora não exista nenhum relato bíblico acerca das quedas do Senhor, a tradição piedosa da Via-Crucis perpetuou o que, antes, era imaginável apenas às criaturas: a queda. Jesus tomba porque a humanidade caiu por primeiro. Na realidade, a Sua queda é nossa: o homem caiu no Éden, e a partir dele. Jesus entra na nossa história numa ideia de queda (em grego: Kénosis, abaixamento), quando da “Plenitude dos tempos” (cf. Gl 4,4), para nos levantar, para nos purificar, para fazer-nos novos. Jesus levanta-se para prosseguir o Seu, o nosso caminho. Que lição para nós que estamos no lodo com o qual os pecados atuais nos encharcam e sufocam!

Quantas vezes pensamos que os sofrimentos da nossa existência são superiores às nossas forças? Temos a tentação de pensar que as dificuldades nos vão esmagar. E ainda damos o nome de ‘cruzes’ a essas provações. Enganamo-nos em pensar que elas não nos servem para beneficiar-nos; é o caminho da ascética, e é por aí que aprendemos a ser tal qual Jesus, santos. O Papa São João Paulo II explicita-nos: “No sofrimento esconde-se uma força particular que aproxima o homem de Cristo, uma graça particular […] Tal é o sentido do sofrimento: verdadeiramente sobrenatural e, ao mesmo tempo, humano; é sobrenatural, porque se radica no mistério divino da Redenção do mundo; e é também profundamente humano, porque nele o homem se aceita a si mesmo, com a sua própria humanidade, com a própria dignidade e a própria missão. O sofrimento faz parte, certamente, do mistério do homem […] Por Cristo e em Cristo se esclarece o enigma da dor e da morte” (Carta Apostólica Salvifici Doloris, 27.31).

No caminho do Calvário, encontramos peitos disponíveis em socorrer o Salvador: Simão de Cirene, Verônica, as mulheres piedosas, João, Maria Madalena, Maria de Cléofas, Dimas, José de Arimateia… Porém, nenhum auxílio foi mais latente ao coração do Senhor do que o de Maria, a Virgem, Sua Mãe. Acudindo o Seu Jesus, não pode ela amparar-nos em nossas cruzes particulares e cotidianas? Claro que sim. Ela é Mãe atentíssima. Nenhum coração na face da terra esteve mais sintonizado ao de Deus como o dela; e, em Deus, ela se liga ao nosso coração. Convidemo-la para fazer jus à nossa outorga de Jesus na Cruz: “Eis o teu filho!” (Jo 19,26).

Padre Everson Fontes Fonseca é Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, no Mosqueiro.

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