O Rei entra na Sua Cidade


A semana em que, com maior afinco, faz-nos relembrar os sofrimentos do Senhor e nos prepara para a Santa Páscoa, é o retrato da peregrinação da Igreja de Cristo neste mundo até que venha a Páscoa perenal. O Corpo Místico do Senhor encontra a sua seiva vital no Mistério Pascal, principalmente na vivência de três solenes dias como num único. E, para tanto, pela Liturgia, atualiza para nós o evento da nossa salvação em Jesus, o Messias e Novo Adão.

Como bons observadores, a pedagogia da Liturgia destes dias abrirá a nossa consciência. No domingo precedente à Ressurreição de Nosso Senhor, celebramos a Sua entrada triunfante como Rei e Messias de Israel. Jesus adentra, sobre o lombo de um potro de jumenta, à Santa Cidade de Jerusalém, lembrando a profecia de Zacarias: “Exulta, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho da jumenta. Ele eliminará os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém; o arco da guerra será eliminado. Ele anunciará a paz às nações. O seu domínio irá de mar a mar e do Rio às extremidades da terra” (Zc 9,9-10).

Os evangelhos sinóticos (a saber: os de Mateus, Marcos e Lucas), na narração do ministério messiânico de Jesus, sempre nos apontam esta subida de Nosso Senhor. Esta ida de Jesus para Jerusalém é constituída pela hora que chegou. A hora da glorificação do Filho de Deus é aproximada quando, por livre e alta vontade, Jesus decide montar num jumentinho para ser pregado na árvore da obediência, a Cruz. Por isso que a Igreja, desde o século V, realiza uma solene procissão com os ramos de palmeira como parte integrante da celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor.

Mas, por que usarmos palmas? Por que adentra Jesus, o Filho de Deus, à Cidade Santa de Jerusalém sobre um jumentinho? Lembremo-nos que os grandes reis entravam às suas cidades no lombo de cavalos, o que era símbolo da supremacia, do domínio e da tirania. Jesus mostra que veio trazer a paz para Jerusalém, o Seu reinado; dissocia-Se do esquema de Herodes e de Pôncio Pilatos. Cristo é Rei e Salvador. Toda a Sua vida terrena estava voltada para o Pai desde o início de Sua missão salvadora, cuja culminância se dará no madeiro da cruz. Os ramos que empunhamos durante a procissão são sinais de que cremos no reinado de Nosso Senhor. Ele é ‘o novo Davi’, cuja lâmpada não se apagará.

“Levado como um inocente cordeiro ao matadouro” (Is 53,7), Jesus de Nazaré, que entra em Jerusalém, não mais sairá! Ele, o ‘Servo Obediente’, sobe à Cidade de Davi, dos profetas, dos justos, dos que esperavam o Messias, para, como ‘primícias’, abrir as portas da Jerusalém do alto, “a Cidade de Deus, a morada do Altíssimo” (Sl 45,5). Jesus vai a Jerusalém para que toda a Escritura, a Lei e os profetas se cumpram.

Na Cidade Santa, ouviremos muitas e profundas palavras do Senhor. Porém, creio que nenhuma delas nos chame mais atenção do que o Seu misterioso grito no alto da Cruz: “Eloi, Eloi lamá sabactâni!” – Deus meu! Deus meu! Por que me abandonastes?! (Mc 15,34). De imediato, teríamos a tentação de pensar que, por este brado, Jesus murmura um abandono de Deus. Não. Aqui, quem grita é a nossa humanidade no Adão-Cristo! Eis porque ela grita: a nossa desobediência, provinda do pecado original, faz Jesus, “feito pecado por nós” (2Cor 5,21), dizer: “Meu Deus, por que me abandonastes?”. De Santo Agostinho, aprendemos: “A cruz não só foi o patíbulo da morte, mas, também, a cátedra do Mestre”, que nos ensina a obediência perfeita.

Jesus, o inocente pregado na cruz, é a vítima de reparação por nossas ofensas. Somente Nele é que somos justificados, porque recapitulou toda a criação. Na Sua oferta de cruz, cujo sinônimo é o de abandono, solidão, desprezo, aniquilamento, nos aponta a condição injusta da nossa humanidade. O Justo, feito injusto por nossas limitações, levou-nos à plenitude; conduziu-nos na estrada da cruz para o horizonte da imortalidade. Louvor e glória sejam-Lhe dadas pelos séculos infindos. Amém!

Padre Everson Fontes Fonseca é pároco da paróquia Nossa Senhora da Conceição, no Mosqueiro.

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