Democracia ou demonocracia?


UM SILÊNCIO ESTRANHO RONDA A PRAÇA DA MATRIZ DA IGREJA SANTO ANTONIO E ALMAS DE ITABAIANA-SE. Alguém provocou o Ministério Público, e ele fez silenciarem os sinos que anunciam um sinal de Deus no meio da comunidade. Não importa se crente ou não, se ateia ou não, se pagã ou não. Mas a voz se faz ouvir em todos os cantos da cidade. Há séculos e décadas, os sinos de uma igreja e, depois mais recentemente com o avanço moderno da tecnologia, também o serviço de som anunciavam, de modo mais claro, um sinal da presença divina.

Quem ainda não se lembra de quando criança como eram preciosos e edificantes os hinos religiosos que embalavam os sonhos e as esperanças da sociedade em conflito, na luta pela sobrevivência. Os sinos chamam e indicam o caminha da igreja, do encontro e da comunhão com Deus; recordam o falecimento de um amigo na cidade, o instante de seu enterro, e elevam o espírito dos pobres mortais à lembrança de que a vida humana é breve, passa num segundo. Uma das expressões mais clássicas da literatura inglesa ensinava: “Não perguntes: por quem tocam os sinos? Eles tocam por ti”. Existem categorias e toques de sinos que são especiais em momentos, sobretudo, fúnebres, quando nosso coração se entristece, e o badalo do campanário nos recorda também que a vida humana não se esgota, aqui, na poeira dessa terra. Os sinos indicam a direção ao alto, da elevação da alma a Deus, e permite à mísera criatura humana, não orgulhosa, mas humilde, recordar-se de que o seu dia também chegará.

Sei que a Igreja possui muitos inimigos, inclusive, dentro dela mesma. Há grupos fascistas, demoníacos, comunistas, eivados de ideologias satânicas, até mesmo com o patrocínio de alguns padres e bispos – disse “alguns” – que, para não terem o seu nome arranhado ou sua imagem desprestigiada, preferem ver ovelhas de seu rebanho caminhando para o inferno sob o olhar pacato e tranquilo de suas conveniências. Isso porque se furtam à Verdade do próprio Evangelho de Cristo, que propõe conversão e mudança de vida. Um amigo me disse que “a omissão é a trincheira dos covardes”. E eu concordo plenamente! Infelizmente é assim que muitas vezes nos comportamos para não cairmos na indisposição dos desafetos. Mas a omissão é um pecado gravíssimo, de modo que, a seu tempo, cada um pagará a sua conta. Li um cardeal muito admirado e amado pela igreja que dizia: “As contas que não pagarmos durante a vida, voltam todas no final [na hora da morte!]”. Que constatação tremenda. Mas Deus não dá em ninguém de corda!

A bem da verdade, o fato é que vivemos tempos difíceis e não me canso de repeti-lo! A humanidade está maluca, e os princípios que, há bem pouco tempo, pareciam reger a vida das pessoas, mesmo a vida daquelas que nunca professaram fé nenhuma, mas possuíam consciência de retidão, sentido de bondade e desejo de viver e fazer o bem. Mas hoje, o mundo está de pernas para o ar. Ninguém sabe mais ou tem noções básicas do que é certo ou errado, bem ou mal. O caos tem se instalado de dia para dia, com uma avalanche de desprezo e ridicularização pelo sagrado impressionante. Basta lembrar o que aconteceu recentemente no carnaval do RJ em que mostraram Cristo vencido pelo diabo. Mera hipocrisia e satanismo humano. Quando alguém imagina coisas desse tipo, com certeza, é porque ela já foi alcançada por satanás, mas, não, NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! E dentro desse universo de desvarios e maluquices, está o problema da educação. Isso mesmo: EDUCAÇÃO! Se ela é considerada o berço da civilização, como conseguimos vislumbrar nos albores da gloriosa Grécia, por certo, já perdemos o rumo há muito tempo. Não por que os homens fossem perfeitos. Não! Não se trata disso. Mas porque nenhuma civilização sobreviveu sem ela. Até os anarquistas precisam dela para atingir seus objetivos, porquanto ela impõe disciplina, aprendizagem, crescimento etc. E olha que estou me referindo a princípios humanos, meramente humanos. Não me refiro a categorias meramente empíricas, afastadas dos ideais de progresso humano. Aludo àquilo que torna o indivíduo senhor de sua pessoa e de sua própria dignidade, lutando para ser, cada vez mais, melhor. Se não somos dotados nem de educação, como poderíamos pretender grimpar a páramos mais elevados? Podemos até pensar que somos educados, mas nos mostramos verdadeiros trogloditas pré-históricos.

Dizem que, no Brasil, vivemos uma democracia! Coisa linda e bonita para engambelar os distraídos. Temos uma Constituição Federal, a chamada Carta Magna do País, que está sendo carcomida pelo STF, os deuses, senhores acima do bem e do mal, que a interpretam como bem a intendem, contanto que a maioria decida o que é certo ou errado, hoje, e, amanhã, mudem de opinião. É isso democracia? Aprendi com um escritor católico que maioria não é sinônimo de verdade. Nunca foi, nunca o será! E ele explicava: se uma caixa com 100 laranjas contiver 90 podres, isso não significa que a maioria é melhor. Parece-me bastante lúcido. E pelo andar da carruagem, estamos longe de atingir o sentido pleno e correto do que chamamos “democracia”. Na minha opinião, vivemos uma “demonocracia”! Sim, pare que o poder emana do demônio e, não, do povo! Tantas aberrações já foram decididas com base no princípio constitucional! Quem for inteligente deve se lembrar de algumas. Enquanto isso, vamos reprimindo, a toque de caixas, a também constitucional “liberdade religiosa”.

“Liberdade religiosa”. Em nome da laicidade, estamos destroçando os valores cristãos, porque dizem que religião é uma coisa interna, da consciência de cada um, e, portanto, deve ser vivida escondido, no silêncio do coração ou da consciência. Mas outros tipos de aberrações, e de imoralidades, e de pornografias, e de comportamentos vis, de desrespeito à presença dos transeuntes – esses, sim – podem ser externados à luz do dia, nas praças das cidades, como prêmio da libertinagem individual e coletiva fomentada pelo Estado de Direito! Quanta hipocrisia! Maldita hipocrisia! Depois, o homem se transforma na besta irracional que devora seus iguais, e ninguém se pergunta por quê. Muitos que intrigam com a igreja e as religiões, vivem como ateus, à toa ou perdidos mesmo, mas quando estão morrendo ainda têm o cinismo de mandar chamar um padre, com medo de ter de atravessar os umbrais do inferno. É como diz Augusto Cury: “Às portas da morte, o ser humano recolhe [todas as] suas máscaras e fala sem disfarce”. Na hora da morte, os que pareciam corajosos na sua descrença, apelam para algum “deus”! E ainda querem missa de corpo presente, de preferência celebrada por um padre famoso, e de sétimo dia. Houve um filosofo francês que, não apenas mandou vir um padre, mas também pediu as credenciais para certificar-se de sua credibilidade.

Em uma cidade da Alemanha, no final de abril de 2019, agora, recentemente, uma grupo de católicos, entre os quais havia muitos padres, bispos, e inúmeros leigos, fizeram uma passeata pacífica, em defesa da vida, contra o aborto, em prol da família cristã e de seus valores. Uma cena tremendamente chocante, dantesca, assustadora! Esse grupo de fiéis católicos, passavam, serenamente, cantando, rezando, flanqueados por barreiras de policiais, que os defendiam dos gritos, das vaias e do desrespeito dos inimigos, que rosnavam como cães raivosos, tentando alcançar suas presas. Uma cena chocante e triste ao mesmo tempo! Como pode o mundo odiar tanto quem só deseja o bem? Os cristãos de verdade sabem a resposta, e tenho certeza de que estamos dispostos a voltar às catacumbas, como acontecia no início do cristianismo, nos três primeiros séculos de sua história. E é isso o que está acontecendo; é o que estamos vivendo! Acuados pela covardia do mundo, os cristãos, cada vez mais uma minoria, estão sendo empurrados para o esconderijo, para as catacumbas.

Lembro-me de um texto terrível, que o Papa Bento XVI escreveu, numa visão profundamente profética, sobre a perseguição crucial e violenta que, ao fio dos anos e dos séculos futuros, os cristãos irão sofrer. Que ninguém se engane: isso já começou! Estamos sentindo na pele. A fumaça de satanás confundido os homens no vendaval da imoralidade, do egoísmo, da indiferença religiosa, do ateísmo prático e doutrinário, do antiteísmo, de ideologias macabras e desconcertantes, que nos conduzem à mais completa obscuridade anticivilizatória. Pena que perdi aquele texto. Talvez, devesse perde-lo! Gostaria de fundamentá-lo melhor. Era, realmente, um texto assombroso, de um tempo sanguinário de perseguição religiosa radical, contra os discípulos de Cristo. Na sua visão, depois de imensos sacrifícios, de mortes e de martírios, de verdadeira purificação, a Igreja do Senhor, como sempre aconteceu após as tormentas levantadas pelo ódio do mundo, renasceria purificada, com um número bem reduzido, mas como EXPRESSÃO VIVA DO SENHORIA DE CRISTO, DE CUJA IGREJA “AS PORTAS DO INFERNO NUNCA PREVALECERÃO CONTRA ELA” (Mt 18,16-20). Não obstante tudo, essa também é a nossa fé, a fé dos cristãos e a sua irrenunciável esperança. O mundo moderno passará, com todas as suas prevaricações e desprezo pela Igreja do Senhor, mas o julgamento também é certo.

Padre Gilvan Rodrigues é vigário da paróquia Santo Antônio e Almas (Itabaiana-SE)

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