Um "Sim" de amor


Em agosto, o famigerado "Mês Vocacional", a Igreja no Brasil leva-nos a refletir acerca das vocações que movem a vida eclesial. Assim, quero refletir com o estimado leitor sobre a dinâmica “chamado-resposta” que brota do coração de Deus para o interior do homem, ao que este Lhe responde. E o faço na perspectiva do terno Evangelho de João, onde o Senhor Ressuscitado indaga o amor de São Pedro, o “Príncipe dos Apóstolos” (cf. Jo 21,15-19), e com o qual, também, ponderamos acerca de nosso querer à fidelidade de Deus; ou seja, convocados a mensurar a qualidade do nosso “sim”, da nossa adesão Àquele que nos vocaciona para uma vida de santidade nas diversas vocações específicas que enriquecem a Igreja.

O chamado de Deus é inquietante. E o Seu olhar penetrante nos inquire quando da falta de correspondência a Ele, principalmente nos nossos fracassos em respondê-Lo. Antes de ser um olhar que nos reprova, é um incitar a que retomemos o caminho certo, do qual nunca deveríamos ter saído, nos afastado. É um olhar misericordioso, cativante… Logo após a Sua ressurreição, Cristo Jesus, dirigindo-se a Simão - que havia, não há muito, O negado -, revela-lhe o Seu divino plano de amor para a vida daquele frágil homem, perguntando-lhe de seu acatamento.

Na pobreza da simbologia expressiva da Língua Portuguesa, não distinguimos muito bem o sentido das perguntas de Jesus e das respostas de Pedro. À interrogação tríplice do Ressuscitado, “Simão, filho de João, tu me amas?”, não identificamos a carga do projeto de vida demonstrado pelo verbo amar. No grego, porém, o denominado amor possui diversos vocábulos que explanam os variados sentidos de tão nobre sentimento. O que temos por amor nesta indagação de Cristo é apresentado em grego pelo projeto de vida “ágape”. E o que temos por resposta de Pedro: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”, provém do helênico “filia”, como capacidade pequena daquele Apóstolo débil em suas atitudes.

O ágape é o ato de amar na sua ideia mais sublime, marcada pela gratuidade. Em sua primeira Encíclica, “Deus Caritas Est”, o grande Papa Bento XVI, irá pontuar o modelo agápico “como expressão do amor fundado pela fé e por ela plasmado” (n. 7); e mais: o Papa chega a alcunhá-lo de amor descendente, que nos faz descer do nosso ‘eu’ para subir ao amor puro, que é o próprio Deus, inclusive na lida com aqueles que, de certa maneira, nos foram confiados, porque o ágape “transmite o dom recebido” (Ibidem). A filia é um amor típico da conveniência descomprometida, da mera amizade. E ao grande projeto de Jesus, Pedro fazia questão, por hora, de estar aquém, preferindo confiar apenas em si. Ora, o ágape é dom, inclusive na sua correspondência. Caso contrário, nem Pedro, quando do discurso profundo e audaz na casa de Cornélio (cf. At 10), teria testemunhado e anunciado o kerigma, de maneira que, mais tarde, confiantemente, teria sofrido o martírio, nem outro cristão poderia ter chegado à imitação de Cristo no ato de amar em extremo. O ágape é um movimento nascente em Deus que, parabolicamente, passa pelo coração humano, que se compromete, e retorna a Ele como fim.

O Senhor, em derradeiro, se abaixa ao “mais ou menos” de Pedro. E, quando lhe pergunta pela terceira vez, já não o indaga acerca de seu ágape, mas contenta ao Senhor apenas a filia de Pedro. A insistência de Jesus, em suas perguntas desconcertantes, entristece Pedro. E o Senhor tem por resposta uma leitura que o Apóstolo, em sua fragilidade, faz de si: “Senhor, tu sabes tudo…” (Jo 21,17). Mas, por um momento, contando com a mediocridade de Pedro, o Senhor não deixa de dar-lhe uma missão sublime: a de apascentar as ovelhas; as Suas ovelhas, conquistadas com o preço ápice do Seu divino Sangue redentor vertido no altar da Cruz.

Eis aqui a nossa biografia! Mesmo com os bons propósitos que trazemos no coração, a nossa pequenez, a nossa miséria podem ser empecilhos na desafiante correspondência à proposta de amor do Redentor. E mesmo aquém de tão alto sentimento, Ele não nos deixa de confiar os Seus dons, aquilo que tem de mais precioso, para que o zelemos, mesmo com as nossas crises. Mas, não nos esqueçamos: somos capazes de crescimento; somos capazes de atos heroicos, tal como Pedro, que peregrinou no amor, saindo de si, de sua tacanha filia, para Deus, para a meta do ágape.

Padre Everson Fontes Fonseca é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição (Mosqueiro, Aracaju)

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