A água do Espírito



Diante da desordem causada pelo pecado, cuja imagem também a temos no episódio da construção da Torre de Babel, naquela inventiva de querer o homem alçar os céus com as suas próprias forças, com a sua própria capacidade, em tentativa fadada ao insucesso, temos a grande necessidade de ter o Espírito Santo ao nosso lado para, numa iniciativa primariamente divina, alcançarmos a meta da nossa esperança: a salvação.


Na sua Carta aos Romanos, o Apóstolo São Paulo apresenta-nos esta carência de sermos assistidos pelo Paráclito com a imagem do gemer dores de parto por parte de toda a criação (cf. Rm 8,22). Depois do pecado original causado pela infidelidade humana, todo o criado, inclusive a natureza, ficou à deriva, começou a carecer na desordem. Tudo, absolutamente, espera, por uma sua necessidade interior, ser recapitulado em Cristo, Autor da nova Criação e seu princípio.


Todos possuímos esta sede espiritual insaciável a ser satisfeita unicamente pelo próprio Deus. Por isso, no último dia da Festa da Tendas, no Templo de Jerusalém, o Senhor Se propor a nós como fonte viva e infindável, cuja água brotará do Seu próprio peito: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Aquele que crê em mim, conforme diz a Escritura, rios de água viva jorrarão do seu interior” (Jo 7,37-38). E o evangelista São João ainda precisa: “Jesus falava do Espírito, que deviam receber os que tivessem fé nele” (Jo 7,39).


É interessante vislumbrar esta imagem do Espírito Santo como água. Este símbolo - a água - nalguns momentos da Escritura possui uma figura de morte (recordemo-nos da passagem da travessia de Israel pelo Mar Vermelho, de como os egípcios foram afogados pelo mar; ou ainda o que nos diz São João, no Apocalipse: “[...] o mar já não existe”, Ap 21,1; ou mesmo outras passagens). Porém, muitas também são as referências da água como vida, seja no Antigo como no Novo testamentos (cf. Is 55,1.3; Ez 47,1-12; Zc 14,8; Jo 4.19,33-37 e Ap 22,1). Sim, o Espírito Santo é a vida de Deus que vem a nós. Ansiosos, deveremos nos esmerar sempre para não nos furtarmos a satisfação que somente o Espírito Santo de Deus nos dá. Assim, afirma o Catecismo da Igreja Católica sobre o Espírito Santo, Fonte de água viva: “É Ele que nos ensina a haurir essa água na própria fonte [...]. Ora, existem na vida cristã fontes em que Cristo nos espera para nós dessedentar com o Espírito Santo” (n. 2652), elencando a Palavra de Deus, a Liturgia da Igreja e as virtudes teologais (nn. 2653-2658).


Disse-nos São Paulo que “também o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. Pois nós não sabemos o que pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Rm 8,26). Às nossas necessidades, o Espírito Santo vem a nos socorrer. Ele, que reza em nós, bem melhor do que as nossas pobres e limitadas condição e ciência, fazendo-nos reconhecer Deus (cf. 1Cor 12,3) e, pelo movimento da fé, abandonar-nos Nele; e o Espírito Criador sabe do que, realmente, temos necessidade. E a nossa mais premente carência - insaciável, diga-se - é a de termos Deus e de sermos possuídos inteiramente por Ele: “Pois é sempre segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos Santos” (Rm 8,27).


Com toda a Igreja, digamos, incansavelmente: “Vinde, Espírito Divino, e enchei com vossos dons os corações dos fiéis, e acendei neles o amor, como um fogo abrasador!”. E, sempre cheios e sedentos deste Espírito que nos refrigera e faz viver, também sejamos movidos pela fluidez do Alto.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru).