A elevação do fiel pela Eucaristia (Parte 2)



Em continuidade ao nosso texto da semana passada, de como o fiel é elevado pela Divina Eucaristia, dizíamos, naquela ocasião, já à luz da Solenidade de Corpus Christi, celebrada na última quinta-feira, da necessidade da participação devota da Santa Missa, na valorização do Sacrifício de Jesus que, nela, é atualizado. Hoje, na reflexão do discurso do Pão da Vida, vejamos como lucramos o Céu pelo mistério da participação eucarística na Páscoa do Senhor.


Na vida pública de Jesus, explicitada pelos quatro evangelhos, temos os episódios da multiplicação dos pães. Estas passagens são também tidas como prefigurações da Eucaristia, que também nos fazem reportar ao povo de Israel que, peregrino no deserto, murmurava contra Moisés, Aarão e até mesmo contra o próprio Deus, querendo pão e carne (cf. Ex 16): o Senhor Deus lhes enviou aquilo que ansiavam. Nas multiplicações dos pães, temos o contrário: um novo povo no deserto que nada desejou a não ser estar com o próprio Deus, o qual mais tarde se autonomeará “Pão” (cf. Jo 6,51), identificação que culminará com outra: “Isto é o meu corpo” (Mc 14,22; Lc 22,19). Este novo povo somos nós, que nada mais carecemos senão estar próximos do Senhor. E muito mais do que próximos: sendo alimentados pelo próprio Corpo de Deus e saciados com o Seu Sangue redentor. Nada mais precisamos: somente isto nos basta, sendo isto o nosso tudo, a nossa maior riqueza.


“Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá para sempre. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo 6, 51). Com esta afirmativa, o Senhor acena que o mérito não está no milagre da multiplicação dos pães em si, mas num milagre muito maior e mais profundo: o próprio Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, faz-se pão para dar a vida eterna, a vida divina. Logo, vale a pena ter tudo na conta de nada para antegozar o Céu pelo mistério da Eucaristia. Vale renunciar tudo para ter a vida divina já dentro de nós, a sustentar-nos, a animar-nos. Em alto e bom tom, afirmamos: a Eucaristia é a riqueza insuperável da Igreja, que sempre o cristão deve ter em primeiríssima importância. Quem não valoriza o mistério do Corpo e do Sangue de Cristo cristão não é.


Jesus deu-Se na Sua Páscoa, entregando-Se para sempre no sacramento do Seus Corpo e Sangue. Revivemos esta entrega em todas as Missas. É o que em Liturgia chamamos de ‘Hoje Teológico’. Pode parecer até redundância, mas o nosso hoje compactua-se com o hoje da época de Jesus, daquela Quinta-Feira bendita, Véspera da Morte do Senhor. Com o termo “hoje”, a Igreja, pela Liturgia, induz-nos a olhar com profunda atenção interior para o mistério pascal revivido todos os anos no Tríduo da Páscoa, e, a partir dela, cotidianamente em nossas Missas. Porém, com esta ideia de hoje não apenas fazemos memória, atualização, como também olhamos para o futuro, e, pela graça de Deus, é-nos apresentada a realidade do que seremos para todo o sempre, pois seremos eternamente mergulhados em Deus de tal maneira que, imersos Nele, não será possível distinguir-nos do Ser Divino, tal como depois da comunhão não se distingue mais a Eucaristia recebida da vida mesma do fiel comungante.


Pela Eucaristia somos arroubados, ainda que instantemente, do tempo para a graça, cujo ecoar deverá se reproduzir em todos os âmbitos da nossa existência, de maneira que, haurindo do único Sacrifício de Cristo, experimentamos o Céu que nos espera. Assim, pelo "fruto do Altar", presente, passado e futuro se encontram e faz-nos, de certa maneira, 'atemporais', ainda que estejamos nesta história, construindo-a, principalmente pela caridade, esperança e fé. Como é isto? Não tem explicação. Apenas é mistério do poder de Deus. Por isso, sempre reverenciemos tão augusto desígnio do memorial da Páscoa do Senhor. Reverenciando-o, seja-nos uma necessidade pessoal celebrá-lo, vivenciá-lo. E sempre repitamos com o ardor da nossa fé católica: “Bendito seja Jesus no Santíssimo Sacramento do Altar!”.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da Paróquia São João Batista (Conjunto João Alves)