A elevação do fiel pela Eucaristia (parte I)



A Igreja, Esposa de Cristo, no próprio Senhor, encontra a sua feliz razão de ser, bem como uma jovialidade que lhe é peculiar, pois ela é governada pelo Espírito Santo, que a conduz por caminhos inéditos do seu patrimônio de fé que ultrapassa dois milênios. Esta é a mesma Igreja que, celebrando a Santa Memória de Jesus, prepara a sua vinda: “Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos Senhor a vossa morte, enquanto esperamos vossa vinda”


A Eucaristia é mistério. Por isso a Igreja proclama, diariamente: “Eis o mistério da fé”. Não raramente, temos o pensamento de que a Eucaristia é mistério porque o milagre eucarístico, em si, é inexplicável à razão humana. Quem possui tal ideia, de per si, não está errado, já que, absolutamente, ninguém saberia dizer o que está por trás das mãos do sacerdote que, com as divinas palavras da consagração, transubstancia as matérias do pão e do vinho, no Corpo e Sangue de Jesus Cristo, nosso Senhor. A Eucaristia é mistério, não porque se pauta em uma ação humanamente incompreensível e divinamente possível, mas por causa da profundidade que tais palavras, gestos e atitudes, deixados por Jesus e celebrados na Missa, possuem.


Rumar aos Divinos Mistérios, tal como fazemos na Santa Missa, é obedecer a voz de Deus pelo Anjo, que, aparecendo às mulheres após a Ressurreição do Salvador, ordena-lhes que transmitam o seguinte recado aos Apóstolos, e, neles, à toda Igreja: “Ide... Ele vos espera” (cf. Mt 28,10). Esta ordem é ao mesmo tempo um envio missionário (explicitado pelo 'ide') e um prêmio (expresso pela garantia 'Ele vos espera'). É uma emissão missionária porque, continuamente, somos chamados a dar razão de nossa fé (cf. 1Pd 3, 15) a fim de irmos ao encontro Daquele que “nos escolheu para si antes da criação do mundo” (Ef 1, 4), não sozinhos, mas atraindo para Ele, por meio de um testemunho de vida autêntico de união com Ele, os que se acham insensíveis à Boa Nova. É, ainda, uma esperança porque na Eucaristia encontramos Aquele que nunca se enfastia de nos esperar, e, assim, sempre nos atrai ao seu Coração. É no Pão e Vinho transubstanciados que contemplamos Jesus em toda a sua glória: a Missa é a concretização do Apocalipse, onde vemos o Cordeiro Imolado no Altar, cercado por uma multidão incontável de anjos e homens. Logo, podemos concluir fielmente, ancorados na fé da Igreja, que, quando Jesus vier novamente no fim dos tempos, Ele não terá uma só gota de glória a mais do que neste momento, nos altares e nos sacrários de nossas igrejas. Deus habita entre a humanidade agora mesmo: o Céu nos espera, a Missa nos espera, Jesus nos espera, pois a Missa é o céu na terra.


Por tal motivo, para reforçar esta fé eucarística no coração dos seus filhos, a Mãe Igreja, além de, ininterruptamente, celebrar o Santo Sacrifício da Missa, solenemente, uma vez por ano, festeja os Sacratíssimos Corpo e Sangue do Senhor, numa data especialmente específica, tal como se configura Corpus Christi. Assim, na próxima quinta-feira, sessenta dias após a Páscoa (fundamento de toda ação eucarística), desde o século XIII, acentuamos, por esta festividade, a presença real de Cristo na Eucaristia e, portanto, a sua adoração. E isto por vontade do próprio Jesus que, conforme as Escrituras, pediu que não cessássemos de celebrar a Sua memória (cf. Lc 22,20; 1Cor 11,24) ou mesmo as visões e os pensamentos de alguns santos, tal como Santa Juliana de Cornillon, monja agostiniana de Liège (na França), que, num arroubamento místico, influiu decisivamente na introdução desta festividade na Diocese de Liège em 1247, ao que, posteriormente, em 1264, o Papa Urbano IV, outrora clérigo de Liège e confessor de Santa Juliana, prescreveu a comemoração no calendário universal da Santa Igreja Católica.


Desde já, como pastor, conclamo os nossos leitores para que não sejam indiferentes à celebração de tão radiosa festa, ainda que em tempos difíceis, marcados pela situação pandêmica. Através da participação devota da Santa Missa, não seja um expectador distraído do Santo Sacrifício de Cristo, atualizado nos altares de nossas igrejas, mas um fiel comungante do fruto adorável de tão augusta mesa, como se configura a eucarística. Claro que não olvidando-se da necessária preparação sacramental que se dá no Sacramento da Penitência! Assim, juntos na frequência dos sacramentos, alcançaremos o que já prelibamos no tempo e no espaço: o céu de Deus, a vida da imortalidade, onde nos saciaremos Daquele a quem recebemos na Divina Hóstia.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da Paróquia São João Batista (Conj. João Alves, Socorro-SE)