A estrada e o ferido, na nossa escrita, samaritana e bela... uma constelação!



Jesus, em Nazaré, abre o Seu Livro, a Sua Vida. Ele é a Palavra Viva do Pai (Jo 14,6). O Mestre da Lei (Lc 10,25) está diante do Ungido. “O Espírito do Senhor está sobre mim”, disse Jesus em Nazaré (Lc 4,18). Todos ficaram interiormente estremecidos, na Sinagoga. O Mestre sabe lê superficialmente, apenas. Ele decorou a Lei e vive fechando a vida das pessoas - ele atrofia o ser e a alma do próximo - usando sua vida fechada, seu coração que não respira.


Mas Jesus vai enfaixar as feridas do seu coração (Sl 147,3). Jesus é o Bom Samaritano, vive sem rumo. O seu rumo é nos salvar. Seu ombro é a nossa hospedaria, imagem da Igreja e do nosso coração.


Agora, diante da Lei, o Amor, e do Profeta dos profetas - Jesus -, ele deverá não só lê. Deverá reconhecer (ver, tocar, reconhecer) Cristo Palavra, que abre Sua Vida e quer ajudar ao mestre a escrever a sua carta.


Lembram de Paulo, em Damasco? (At 9, 3-6); do cego, em Jericó? (Mc 10, 46); do pobre em sua rua ou esquina? “Eu não vim abolir a lei” (Mt 5, 17-19). Ele é a fundação de tudo no Pai e com o Pai na força do Seu Espírito que se derrama em nós (Jo 1).


O que faço para ganhar a vida eterna, Jesus de Nazaré? O que está escrito, na Lei? O que você lê? A vida do Mestre da Lei está fechada, está velha, ele tem uma alma presa, é refém de uma religião que mata. Sem Amor, inóspita.


A religião é misericórdia, diz o Padre José Tolentino. O mestre da Lei sabe lê, mas não deixa a Palavra ler-lhe. Curar-lhe. “Povo do coração duro. Me honra com os lábios...” (Mt 13,15) “e o Coração atrofiou, está distante de Mim, Manso e Humilde” (Mt 11,29). Mas para Jesus não há caso ou vida perdida. Não há nunca uma vida que ele não se perca para ganhar. Ele vai enfaixar as entranhas do coração daquele homem, indo na profundidade da sua existência, da sua pergunta mais sepulcral: Jesus, quem sou eu? Ajuda-me a me encontrar. Jesus está querendo tirar aquele homem do estágio em que ele se encontra. A sua alma está em estágio de isquemia. Diante de Jesus só há um movimento: vida doada, respiro de ressurreição. E Jesus, que não censura o Mestre da lei, diz num diálogo honesto e salvífico: “você respondeu bem! Está tudo claro! Suas citações estão de acordo com a Torá. Mas e o seu coração? Você se escuta? Se não se escuta, nunca me escutará”. E Jesus diz em seguida: “havia um Homem (Sua autonarração) que descia de Jerusalém a Jericó. Caiu nas mãos de ladrões. Foi espancado. Caluniado. Incompreendido. Passou o sacerdote (especialista no culto), o levita (um adorador de Deus) e um samaritano (provavelmente uma pessoa que não estava na linhagem do culto 'ortodoxo' da época), que pegou o homem”. Esse estava morto e viveu. Cristo Vive (Papa Francisco). Viu, tocou, sentiu compaixão.


Aqui não queremos colocar os personagens para brigar ou dizer quem foi melhor ou não. Não se trata disso. A Palavra de Deus não nos ensina a marginalizar ninguém. A Palavra de Deus é Carta de Amor que narra a nossa vida, nossos potenciais e nossas tentações. O pecado do sacerdote e do levita (o nosso) não é ver e não tocar e não ajudar, e, sim, a indiferença. O que mata o amor, a vida é a indiferença. Aqui está a raiz da minha reza samaritana. Aqui está meu ponto de encontro e convergência: encontro profundo com Jesus, na dimensão profunda do caminho espiritual. E Jesus termina: “Qual dos três foi o próximo do Homem?”.


Entenda (reze): Jesus está próximo do Mestre da Lei. Ele é próximo de todos nós. Todos, todos, todos (Papa Francisco). Ah, meus amigos, entro noite a fora na Noite do Samaritano, abrindo a hospedaria do meu coração, cheio de letras de Amor e Vida. Como bem diz o padre José Tolentino: “o segredo desta parábola é a Noite. Jesus, próximo a nós, passa a noite cuidando de nós”. Ele não tem medidas para nos salvar. Não faz conta do óleo. Não faz conta do frio. Nas faz cálculos, como nós.


Entro na noite, tempo humano e místico, para apenas dizer que o meu Cristo, no meu Eu, numa distinção das Pessoas, que numa Eterna Alteridade e numa comunhão profunda de Alma e Ser, nos diz: “Vá e faça você o mesmo. Essa é minha autonarração, Igreja. O nome da Igreja é Nós”. Vade Et Tu Fac Similiter (Lc 10,37). A quem interessar essas letras, digo com humildade, abra o livro da Vida, como Jesus faz em nossas vidas, em cada Eucaristia, no templo e na rua e narre sua história para Ele. Nossa narração está inscrita e escrita na Palma de Sua Mão. És uma constelação bela: Ver. Tocar. Sentir. E lembre, meu amigo, a indiferença mata! Pare um pouquinho e reze com seu livro, sua vida. Lhe fará bem.


Uma semana abençoada!


Vosso, Pe. Anderson Gomes (pároco da paróquia São Pedro Pescador).


Foto: Canção Nova