• Pe. João Claudio

A mulher e a soberania do amor



Dulce não é apenas o nome de uma Mulher brasileira, nordestina e guerreira, mas é uma correta tradução de tudo aquilo que todas e cada uma das Mulheres são na face da Terra. Cada Mulher é expressão viva da doçura sem a qual é impossível a caminhada de toda a humanidade. A mulher recebe das mãos de Deus o inestimável dom de transmitir a vida. A vida humana, na multiplicidade de pessoas que povoam o mundo, e a vida divina, nos abraços, nos sorrisos e nas alegrias com as quais somente a Mulher é capaz de acolher a vida que se renova e se transforma. A mulher ocupa um lugar tão especial no coração de Deus, que até Ele mesmo veio encontrar a humanidade através de uma mulher, chamada Maria, fonte inesgotável de toda doçura, e todas as graças e virtudes humanas e divinas.


As raízes etimológicas do nome Maria tomam as seguintes direções: soberania e amor. O mundo conta com a presença de tantas Marias que encantam as estradas da vida. É a doçura da Mulher/Maria que remove os obstáculos e revela muitas paisagens até então desconhecidas. A soberania da Mulher/Maria consiste no amor e graças a esta presença, a humanidade consegue acreditar, mesmo percorrendo muitas vias dolorosas nestes dias. A Mulher/Maria extrai o melhor do coração humano, faz compreender que as lágrimas preparam largos sorrisos, a dureza do plantio prepara fartas colheitas, e todas as cruzes anunciam ressurreição. Com a soberania do amor, a Mulher/Maria destrói o mal pessoal e social, e aponta os valores de uma nova humanidade mais comprometida com o outro.


A soberania do amor está estampada no rosto da Mulher/Filha/Irmã/Mãe que ainda hoje transforma rumos de morte em caminhos de vida. A Mãe/Maria encoraja Jesus na via da cruz. A Dulce/Mãe de muitos filhos e filhas jogados pelas periferias de São Salvador da Bahia é o sinal vivo da soberania do amor, capaz de transformar a dor de tantas pessoas restituindo a dignidade. Sem a soberania do amor não se compreende como uma Mulher de saúde frágil revoluciona a Bahia do século XX. A voz suave da Irmã Dulce/Mãe é o grito que mobiliza tantos corações dos mais diferentes credos e classes sociais, em prol de uma causa comum, ajudar quem precisa e ser bom samaritano ao menos uma vez na vida. A Irmã Dulce/Mãe foi a boa samaritana das pessoas encontradas nas ruas da Bahia e toda Mulher/Maria exerce o papel de curar feridas e recolocar sobre os trilhos da vida.


Hoje a Bahia não conta mais com a presença física da Irmã Dulce/Mãe, mas a soberania do amor jamais se acaba e, portanto, a presença espiritual da Irmã Dulce/Mãe continua fazendo o bem que sempre fez na Terra. Um dos sinais realizados pela Irmã Dulce/Mãe aconteceu em Sergipe, como se estivesse agradecendo a hospitalidade recebida durante o período vivido entre o povo sergipano. Uma Mulher/Mãe na cidade de Itabaiana está em dores de parto, mas está desenganada pelos médicos que não sabem reagir diante das complicações do parto. É impossível mantê-los em vida. Os médicos devem fazer uma opção pela Mulher/Mãe ou pelo filho. Um sacerdote católico, chamado Padre José Almi de Menezes, visita esta Mulher/Mãe, e pedem o auxílio da Irmã Dulce/Mãe e a oração é atendida não só com o nascimento deste filho, mas com a preservação destas duas vidas. A medicina silenciou diante da soberania do amor e da bela oração da Irmã Dulce/Mãe.


Outro sinal realizado através da oração da Irmã Dulce/Mãe aconteceu em São Salvador da Bahia, como uma prece especial por toda esta cidade na qual foi a boa samaritana de tantas pessoas que a acolheram como Mãe especialmente dos filhos e das filhas sem voz e sem vez. Um homem que não enxergava, sentia dores de cabeça que atormentavam há muito tempo. As fortes dores o impediam de ter uma boa noite de sono. Assim recorre a intercessão da Irmã Dulce/Mãe que durante anos dormiu sentada numa cadeira. A noite foi bem dormida e de manhã o homem enxergava e experimentava a soberania do amor.


Estes sinais aconteceram pela oração da Irmã Dulce/Mãe, respectivamente nos anos de 2003 e de 2014. Muitos sinais acontecem dia e noite através da presença da Mulher/Mãe capaz de orientar os filhos e guiar a família pelas estradas de uma sociedade com tantas mazelas, como o desemprego, a falta de moradia, saneamento básico, a precariedade da educação, da saúde, o flagelo das drogas, a insegurança e as várias faces da violência. E ainda existem cenários de violência contra a Mulher que ameaçam a soberania do amor e desequilibram o conjunto das relações sociais. A agressão contra a Mulher mostra uma escalada da soberania do ódio, que viu a morte de cerca de três mulheres por dia durante o ano de 2019. Cada Mulher assassinada é uma flor retirada deste jardim que é o Brasil.


O sangue da Mulher é sagrado e não pode continuar sendo derramado por todo território brasileiro, sem que se escute o grito de tantas mulheres que clamam pela defesa da vida, como Maria em Jerusalém, como Dulce em Salvador, como Elaine no Rio de Janeiro, e como tantas mulheres neste imenso Brasil que precisam de ulteriores redes de proteções contra os algozes ceifadores da vida. A sociedade que protege a mulher é um espaço que cultiva a vida. Sem proteger a mulher, a sociedade se torna espaço que extermina a vida. A sociedade deve dar as bases para o desenvolvimento das aspirações pessoais e sociais da Mulher. A sociedade brasileira não pode ser o matadouro no qual a Mulher é abatida, mas a sementeira na qual nasce, cresce e resplandece com toda beleza e com segurança. O mundo precisa da doçura destas flores de vários nomes, Mulher/Maria/Dulce, enfim. As mulheres são flores que vencem o ódio com a soberania do amor. As flores nascem e renascem, e nada pode silenciá-las, pois são a voz da própria vida.


Padre João Cláudio Conceição é pároco da paróquia Nossa Senhora Aparecida (Farolândia, Aracaju)

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