• Pe. Everson Fonseca

A Sabedoria e a renúncia



Deus, na Sua imensa sabedoria, tem propósitos insondáveis de amor quando consente para nós alguma agrura, alguma dificuldade, quando exige de nós a heroica vivência da renúncia. Mas, o que podemos entender por renúncia?


O caminho da renúncia e, portanto, da cruz, é ignorável a uma mentalidade meramente humana, porque, para compreendê-la, é preciso ser assistido pela Sabedoria do Alto, que é “primeiramente pura, depois pacífica, condescendente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, nem fingimento” (Tg 3,17).


De maneira cristã, tal como o Senhor nos inspira no Evangelho, renúncia é aquela intenção sobrenatural de fazer a vontade de Deus, demonstrando-Lhe, assim, o nosso amor mais autêntico. Dizemos ainda: o ato de renunciar é uma pureza de intenção que norteia a alma para um plano de vida, fazendo com que as nossas obras sejam atos de obediência e de amor a Deus, dando a elas um valor verdadeiro. Renunciar é um recolhimento interior, de maneira que a ponderação seja uma constante antes de qualquer atitude pessoal nossa por um pensamento, uma avaliação de acordo com o querido por Deus para uma posterior ação, numa conformidade que Lhe agrade, vivendo, continuamente, para Ele.


Porém, o renunciar quase nunca é fácil; é luta que se trava contra nós mesmos e a lógica do mundo. E Nosso Senhor o compara à Sua figura de tomar a cruz. Não uma figura distante a nós. Antes: uma participação nossa na Sua misericórdia, porque, tomando a nossa cruz, por amor ao Cristo, seguimos-Lhe os passos; Ele que vai à nossa frente, precedendo-nos, carregando a Sua Cruz redentora. E, desta forma, há uma associação espiritual da nossa alma, que renuncia, com Jesus, que Se sujeitou também à renúncia. Carregamos, pelo abandono de nós mesmos, uma cruz que, necessariamente não é nossa, mas, ao mesmo tempo o é. Explico-me melhor: pela renúncia, abraçamos os sofrimentos (os nossos sofrimentos particulares) como participação das dores mesmas de Cristo, naquela mesma perspectiva de São Paulo, que diz: “O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24). Ao que Cristo, como Deus, insujeitável, permite-Se à Cruz, como sinal de abnegação, para padecer, dignificando-nos.


A via do desapego de si exige saber pensar as coisas, e pontuá-las, com a lógica de Deus. E, para isto, é necessário o dom da Sabedoria, que consiste no entendimento das coisas, conformando a nossa humana vontade ao plano de santidade de Deus. Para tanto, a Sabedoria divina, derramada sobre nós, aperfeiçoa os afetos meramente humanos, fazendo-os transmutar à virtude da caridade, iluminando os nossos querer e ações. Não renunciamos o que desgostamos; antes, o que nos apetece, fazendo com que, pela leveza de alma, alcemos à elevação da eternidade o que ainda experimentamos neste mundo de prazeres, de soberbo poderio e de aparências falastronas e falsas. Se há a exigência do dom da Sabedoria para um desapego perfeito, igualmente se faz necessária a insistência na humildade como consequência da ação da Sabedoria em nós. Vemos que poucos, querendo ser amigos da Sabedoria, detendo-a em seus corações, desejam humilhar-se como sinal de renúncia interior. Infelizmente, a maioria não entende o que diz São Paulo: “Mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria” (Cl 3,5).


A perseverança na renúncia será auxiliada pela radicalidade com a qual conformamos todas as nossas ações e desejos à vida e ao querer de Deus. Vigilantes e pontuais, inspirados pela Sabedoria que nos assiste, façamos morrer em nós as falsas seguranças deste mundo para, com o essencial, seguirmos o “Mestre da Cruz”.


Padre Everson Fontes Fonseca é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro.

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