A via da glória



Depois de ensinar-nos, pela ótica de Marcos, com as lições do desapego e da caridade, o Senhor deseja que combatamos, com o auxílio da Sua graça, em nós a vaidade e a soberba, a tentação de, arrogantemente, querermos estar superiores aos outros (Mc 10,35-45).


Tiago e João parecem, com o pedido que fizeram de sentarem-se um à direita do Senhor e outro à esquerda na glória, não possuir tal anseio por devoção de estarem sempre juntos de Jesus. Na verdade, parecem retratar em si mesmos a realidade da presunção, tão em voga pelas “curtidas”, pelos “likes” e pelos “seguidores” (utilizando-nos de uma linguagem em voga) da cultura digital ora difundida nas redes sociais, onde a aparência conta mais que a essência; onde, muitos medem a sua importância pela popularidade de suas poses, das suas exposições. Tudo isto como sinal sintomático de que a realidade de Cristo, onde “Ele deve crescer e eu diminuir” (cf. Jo 3,30) na dinâmica do Batista, é escondida, sufocada pelo nosso egocentrismo. Perceba, caro leitor, que aqueles irmãos chamam Jesus de Mestre, no entanto, o projeto trazido pelo Senhor e os Seus ensinamentos, que inspiram a humildade, são ameaçados de sufocamento pela vil ambição que aqueles homens possuem.


Embevecidos pelos seus projetos pessoais, os irmãos zebedeus provaram que nada entenderam do plano de salvação apresentado por Jesus, imediatamente antes do rogo que alçaram ao Senhor: “Eis que subimos a Jerusalém e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas; condená-lo-ão à morte e entregá-lo-ão aos gentios. Escarnecerão dele, cuspirão nele, açoitá-lo-ão, e hão de matá-lo; mas ao terceiro dia ele ressurgirá” (Mc 10,33-34). Aquela era a terceira vez que o Senhor lhes revelava a sorte que O esperava para a redenção do mundo. Mas com as suas intenções mesquinhas, os discípulos “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17) provaram que nada aprenderam; e, juntamente com os demais discípulos que, ao tomarem ciência do que aqueles dois pediram, ficaram indignados (pois também este era o desejo interno de todos: a glória concebida de acordo com os caracteres dos favores mundanos), havia uma séria concorrência acerca da superioridade de uns sobre os outros.


A solicitação dos dois irmãos e o desapontamento dos demais discípulos configuram-se um sério problema de consciência. Pois, um homem de consciência vive de fé, estando atento à leitura da linguagem dos planos de Deus; “um homem de consciência – no dizer do então Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI – é alguém que não renuncia à verdade para comprar o bem-estar, o sucesso, a consideração social e a aprovação da opinião dominante” (Elogio da Consciência, abril de 1991, in: Ser Cristão na era neopagã, volume I, p. 97). E entendamos por “comprar” tantos intercâmbios, trocas perigosas de valores certos por duvidosos (designados contravalores), inclusive os de opulência, opressão e exibição.


O Senhor prova-nos o contrário do que pensavam os discípulos e do que pensa o mundo na realidade atual: o caminho de importância aos olhos de Deus é a capacidade de, amando, sujeitar-se ao serviço desinteressado a Deus e aos irmãos. Tiago e João granjearam os lugares de honra no Reino pela atitude de despojamento que tiveram quando, realmente convertidos, tornaram-se servos até as últimas consequências: Tiago, pelo martírio de sangue; João, pela confissão, moral e espiritualmente, sofrida da fé. Por isso, sabendo do futuro realmente glorioso que lhes aguardava de acordo com o querer de Deus, e não com a mentalidade concorrida do mundo, o próprio Senhor lhes revelou: “Vós bebereis o cálice que eu devo beber e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado. Mas, não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado” (Mc 10,39-40).


Esclarecendo-nos ainda mais de que os lugares de honra no Reino de Deus são franqueados pelo serviço, como Mestre – que mais tarde, na hora de maior extremidade deste mundo, cingirá uma toalha, e, numa atitude de servo da humanidade, lavará os pés dos Seus discípulos, porque, depois, revestir-Se-á do Seu próprio Sangue para um esvaziamento completo de Si como magno serviço –, o Senhor Jesus encerra a aula de hoje instruindo, para que Dele aprendam de perto (por isso chamou os Doze para junto de Si): “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro seja o escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos” (Mc 10,42-45). Esta exposição do Salvador, como nos inspira o trecho do Cântico do Servo Sofredor (cf. Is 53,11), justifica-nos porque, pelo serviço, como Jesus, carregamos o fardo uns dos outros.


Que, diante das tentações da aparência e do poder, aprendamos do Divino Mestre a atitude do autêntico serviço cristão: de amando, doar a vida sem poupar-nos de nada. É caminho exigente, é bem verdade. Porém, é via certa de glória eterna.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)