Alimento Celestial



Aprendemos, desde a nossa catequese, que na Páscoa Eucarística recebemos o Pão-Cristo, o alimento mais puro que nunca fora visto. De maneira real, não simbólica como os pães ázimos dos judeus, nosso Pão-Jesus não é conspurcado pelo fermento do mundo porque ele é plenamente imaculado, já que desceu do céu para, alimentando-nos, salvar.


No livro do Êxodo, no episódio do envio do maná (cf. Ex 16,2-4.12-15), localizamos uma das figurações da Eucaristia no Antigo Testamento. Neste trecho, vemos que, estando no deserto, poucos dias depois da miraculosa intervenção do Senhor e consequente abertura e passagem pelo Mar Vermelho, os hebreus, libertos dos egípcios, começaram a sentir fome e murmuram contra o Senhor, falando contra Moisés e Aarão: “Quem dera tivéssemos morrido pela mão do Senhor no Egito, quando nos sentávamos junto às panelas de carne e comíamos pão com fartura! Por que nos trouxestes a este deserto para matar de fome toda esta gente?” (Ex 16,3). O povo, mergulhado na ingratidão de ter sido libertado da escravidão com a mão poderosa do Senhor, é capaz de trocar a sua liberdade por uma panela de carne e por uma fatia de pão. Logo, verdadeiramente, não reconhecem no Senhor o seu libertador e providente Deus. Será que o Senhor, que, estupendamente, tirou da opressão dos egípcios os israelitas, iria deixá-los minguar de fome no deserto? Este pensamento só poderia habitar no coração endurecido daqueles homens fracos na fé em seu único Libertador. Quantas vezes caímos na presunção de pensar que o mesmo Deus, que nos libertou do poderio do pecado e da morte, está a deixar-nos à mercê de nossa própria sorte nos desertos da nossa existência humana? Quando nos debatemos nesta imaginação não seria porque estamos com os olhos vendados e o coração entorpecido pelos nossos caprichos e meras razões humanas? Nunca iria nos acontecer tal desventura: Deus sempre está conosco, pois ele é o Emanuel (em hebraico, Shekinah).


Mesmo com as ingratidões do povo eleito, Deus promete a Moisés: “Eis que farei chover para vós o pão do céu” (Ex 16,4). Assim, fala que, em Seu amor, mesmo sendo retribuído com a indiferença do povo, Deus alimentará Israel com um alimento celeste. O atributo celeste designa a proveniência daquele alimento, não a sua natureza. Tal certeza, encontramos no discurso de Jesus sobre o Pão da Vida: “Eles perguntaram: ‘Que sinal realizas, para que possamos ver e crer em ti? Que obras fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está na Escritura: ‘Pão do céu deu-lhes a comer’ (Sl 77,24)'. Jesus respondeu: Em verdade, em verdade vos digo, não foi Moisés quem vou deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo” (Jo 6,30-33). Portanto, concluímos que o ‘Pão de Deus’ não é designado pela proveniência, mas pela proeminência: é o próprio Deus que se dá em alimento. Dessa forma, a Eucaristia, com toda justeza, é, segundo a Tradição da Igreja, bem como no dizer de Santo Tomás de Aquino: Panis angelicus: Pão angélico, Pão dos Anjos; Pão Celeste. E o Aquinate ainda escreve: “[O maná] é dito pão do céu enquanto era figura do verdadeiro Pão do Céu, Nosso Senhor Jesus Cristo” (Thomas Aq. s Johannis 43); enquanto o maná possui um sentido material – já que apenas saciou a fome estomacal dos hebreus transeuntes pelo deserto – por isso, é figura, a Eucaristia possui um sentido verdadeiro, espiritual porque alimenta o Povo da Nova e Eterna Aliança na pré-degustação do céu; ou seja, enquanto viandantes neste mundo, somos nutridos verdadeiramente pelo Pão que nos saciará na eternidade.


O providentíssimo Deus, não achando suficiente saciar os hebreus apenas com pão chovido do céu, envia-lhes a tão ambicionada carne. Mas o que seria este alimento senão também uma prefiguração da Eucaristia? Vale recordar: “Eu ouvi as murmurações dos filhos de Israel. Dize-lhes, pois: ‘Ao anoitecer, comereis carne e, pela manhã, vos fartareis de pão. Assim sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus” (Ex 16,12); mais valor ainda se compararmos com a seguinte passagem: “Ao declinar da tarde, pôs-se Jesus à mesa com os doze discípulos [...] Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo” (Mt 26,20.26). Deus nos alimenta; não com carne de animais (como as codornizes), mas com a Sua própria carne. É na experiência com a carne de Jesus - a mesma que foi crucificada - que contemplamos, antecipadamente, a Sua glória: esplendor que se inicia na cruz, com Seu divino corpo dilacerado, pregado no madeiro, e culmina com a Sua ressurreição e ascensão, e que, para nós, já é prevista na Eucaristia: corpo sacramental de Jesus.


No episódio do maná, temos Moisés que ainda diz: “Esta tarde, sabereis que foi o Senhor quem vos tirou do Egito [...] Isso acontecerá quando o Senhor vos der, esta tarde, carne para comerdes” (Ex 16, 6. 8a). É pela doação da carne do Senhor como alimento a partir da cruz que temos a garantia de que o Cristo nos redimiu, resgatando-nos do poder do maligno.


Alimentando-nos do pão feito carne do Senhor, recebemos a vida de Deus para ser vivida em nossa humana existência. Que jamais desprezemos as oportunidades de celebrarmos e recebermos a Eucaristia, Pão-Cristo que contém todo sabor (cf. Sb 16,20), carne do Senhor que nos sacia infindamente.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)