Anúncio e escândalo


Padre Everson Fontes Fonseca,

Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)


Ao percorrermos o Evangelho de Marcos, percebemos uma catequese de Jesus acerca da díspar relação entre anúncio e escândalo por parte do apóstolo, ou seja, daquele que se ocupa das coisas do Reino (cf. Mc 9,38-43.45.47-48).


Diante da observação feita por João acerca do encontro de um homem que agia em nome de Jesus, mas que não estava com o Senhor, e a consequente proibição por parte do Apóstolo para que não agisse assim, temos, por parte de Cristo, a constatação: “Quem não é contra nós é a nosso favor” (Mc 9,40). Mas, no que consiste estar a favor ou mesmo contra Jesus?


Logicamente, estar favorável ao Senhor é, mesmo na vocação específica a que Ele nos chamou ou nos consagrou, estarmos interessados em anunciá-Lo com a inteireza da nossa vida abalizada na Palavra de Deus; ou seja: evangelizar com a linguagem do nosso viver. Neste sentido, trago à tona o que disse São Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, na conceituação do que é evangelizar e da sua importância: “[…] para a Igreja não se trata tanto de pregar o Evangelho a espaços geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores em dimensões de massas, mas de chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesses, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação” (n. 19).


Assim, evangelizar é tornar tudo favorável ao Senhor, recapitulando sob os Seus pés todas as coisas (cf. Ef 1,22). Não recorrendo ao proselitismo de empurrar a fé, “a ferro e fogo”, aos outros; mas, com a nossa vida, espalhá-la com um poder de proposta e de convencimento irresistíveis, de maneira que, a santidade expressada pela nossa vivência à Palavra seja admirada por todos, e o bem que fazemos, sempre em nome de Cristo, copiado (cf. 1Cor 11,1). Pois, “todos os cristãos são chamados a dar este testemunho e podem ser, sob este aspecto, verdadeiros evangelizadores” (Evangelii Nuntiandi, 21).


Evangelizar, na prática de vida de cada cristão, é fazer justiça à verdade da fé pela qual fomos conquistados. “Se somos cristãos verdadeiros, embora às vezes sejamos muito diferentes uns dos outros, sentir-nos-emos comprometidos a levar para Deus a sociedade em que vivemos e da qual fazemos parte. E ser-nos-á fácil aceitar modos de ser e de atuar bem diferentes dos nossos. Como nos alegraremos de que o Senhor seja anunciado de formas tão diversas! Isto é o que realmente importa: que Cristo seja conhecido e amado” (CARVAJAL, Francisco F. Falar com Deus, vol. 5. São Paulo: Quadrante, 1991. p. 103). Se assim procedemos, ganharemos, conforme a promessa do Senhor, a nossa recompensa, que está nos céus (cf. Mc 9,41).


Mas, por outro lado, o Senhor também fala sobre o escândalo dos pequeninos. E no que isto consiste? Acontece quando nos julgamos, e mesmo nos passamos por seguidores de Cristo, por interessados na Sua obra de redenção do mundo, mas, na realidade, estamos afim mesmo é de manifestar outras realidades, e não a do Senhor: os nossos caprichos, a nossa vaidade, as frivolidades… Em grego, o termo skándalon indica uma pedra que faz tropeçar os passos de um viajante. Vítimas deste atentado à segurança e à serenidade são os “pequeninos”, símbolo daqueles que tem uma fé frágil, insegura. Quantos homens religiosos – talvez até ministros ordenados –, infelizmente, agem de forma tão nefasta, comprometendo ou mesmo extinguido a fé dos débeis, daqueles que ainda precisam de pedagogos para chegar à fé absoluta em Cristo, e que não os encontram suficientemente fiéis?!


Qual a recompensa dos que são pedras de tropeço, objetos de queda para si e para os outros? O Senhor, ainda se utilizando da imagem da pedra, dirá: “E, se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço” (Mc 9,42). Moviam as pedras de moinho amarradas a si, aos seus gargalos, os asnos, os burros; logo, os que agem falsamente em nome de um propósito de evangelização, mas, com o contratestemunho, nesciamente erram e levam os outros ao erro. Portanto, amargarão pesadamente duras penas infernais, onde serão castigados por terem desperdiçado a oportunidade de ter feito o bem, e não o fizeram, arrastando outros, postos sob a autoridade de seus testemunhos para a mesma perdição, mergulhando-os, profundamente, consigo, no caminho sem volta do inferno.


Se estamos na cegueira de, tão somente, uma vida de aparência à Palavra de Deus, permitamo-nos, iluminados por esta mesma Palavra de vida e de salvação, à autenticidade de vivenciá-la. Vivendo-a fielmente, tragamos outros conosco, de maneira que, amantes da verdade, por ela sejam realmente livres (cf. Jo 8,32). Pois, isto é evangelizar! E assim, todos, chegaremos à consumação eterna do Reino do amor e da vida.