• Pe. João Claudio

As religiões e o bom samaritano



A pessoa humana é uma realidade composta por raízes de imanência e de transcendência. Há um desejo de horizontalidade que lança bases para concretizar projetos de fraternidade e a pessoa humana também carrega consigo um desejo de verticalidade, com o qual busca uma realidade que a supera e ao mesmo tempo deixa pegadas registradas nas estradas da alma. A religião é a expressão na qual estes desejos se encontram e se mobilizam em prol do aperfeiçoamento humano. A expressão religião deriva do latim religio e implica religar ou seja, os ritos e práticas de cada religião conectam a pessoa com aquilo que há de melhor nela mesma. E ainda, com realidades que superam o natural e remetem ao transcendental.


Os ritos e práticas de cada religião são diferentes e isto não deve causar nenhum espanto, uma vez que cada religião surge num momento histórico e se depara com as situações que moldam o conjunto das expressões rituais, também conhecidas como a liturgia, guiam os primeiros passos e delineiam prioridades buscadas pelas pessoas que se tornarão adeptas. Cada religião elege os elementos norteadores do credo que será aceito livremente por seus adeptos. Por mais distintos que sejam os credos das religiões há algo comum que é capaz de colocá-las todas lado a lado, como membros da grande família humana: a comunhão. As religiões não nascem para competições mas são os espaços privilegiados da esperança.


A religião não pode desprezar o próprio passado, mas também não deve viver nele, pois o presente a desafia sempre aprimorando a capacidade de realizar novos partos no coração dos seguidores. A religião proporciona partos de novos compromissos, revela que o outro não é um alvo a ser abatido, mas alguém que deve ser acolhido com as suas diferenças e inclusive nas diferenças entre as crenças, que na maioria das vezes são diferenças externas e não alcançam os núcleos internos dos credos. Talvez não haja tanta dificuldade para ver esta unidade quando se trata de expressões religiosas que estão abrigadas no cristianismo mas nas religiões há o desejo de aproximar e de fazer o bem como dito pela regra de ouro.


As religiões possuem suas próprias narrações e no cristianismo católico são chamadas de parábolas. Há uma parábola no Evangelho de Lucas que pode ser invocada como modelo de tolerância não só entre religiões, mas entre todas as expressões atuais das sociedades. É a parábola do bom samaritano, segundo a qual uma pessoa foi atacada por assaltantes que além de roubá-la, a deixaram gravemente ferida, prostrada numa estrada, esperando apenas a morte. Algumas pessoas passaram adiante e não ajudaram este moribundo que perdia a vida, abandonado em meio a dor. O samaritano ajuda sem fazer perguntas, não quer saber quais são as escolhas políticas e religiosas da pessoa que passa por esta aflição.


O samaritano cuidou das feridas desta pessoa e a conduziu até um lugar confortável para repousar. As feridas foram cicatrizadas e esta pessoa que foi acudida voltou a caminhar. Este é o papel que as religiões devem exercer na sociedade contemporânea. As religiões devem ser samaritanas, devem ter o mesmo cuidado com seus adeptos e com os membros de quaisquer outras religiões. É assim que cada religião lança as sementes para uma nova humanidade, não mais a humanidade que fere, mas a humanidade que cuida e que ergue. Na sociedade hodierna não há mais espaço para mobilizar aparatos de conversão para os infiéis. Cada pessoa, no exercício da própria liberdade, elabora um conjunto de escolhas no qual a religião também está inserida. As relações entre as religiões e seus respectivos membros, e o diálogo com todas as pessoas que não possuem credo religioso, devem ser inspiradas no bom samaritano, com o respeito, cuidado recíproco, alteridade e compaixão.


Padre João Cláudio da Conceição é pároco da paróquia Nossa Senhora Aparecida (Bairro Farolândia, Aracaju)

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