Com Pedro e Paulo



“Ó Roma feliz, adornada de púrpura pelo sangue precioso de príncipes tão excelsos. Tu ultrapassas toda a beleza do mundo”. Iniciamos a nossa reflexão, rememorando a frase acima, atribuída a Paulino de Aquileia (+806). Mas, por que a Cidade Eterna possui o atributo de felicidade?


Depressa, respondemos: Roma é feliz porque, em uma nova fase de sua história, mesmo sem saber que iriam inaugurar uma era inédita e durável para esta civilização, acolhe as duas principais colunas da Construção de Deus, a Santa Igreja de uma divindade que lhe era estranha até então; Roma é felizarda porque em seu seio Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, e Paulo, o Doutor dos gentios, expiraram violentamente para este mundo e adentraram para a glória do Céu que tanto ansiavam; Roma é feliz ainda porque é contagiada e vencida pelo avesso ao seu nome – AMOR – que estes dois corajosos homens lhe implantaram como consequência do Evangelho anunciado e testemunhado por eles até as suas mortes. Ó Roma feliz!


Pedro, de simples pescador galileu, ganha, graças à missão recebida do próprio Senhor, uma cidadania que nunca imaginara para si: a universal. Paulo, de fabricante de tendas e judeu zeloso, reseta toda a sua vida, renuncia todo o seu ‘pseudo-prestígio’ e lança-se numa aventura sem precedentes para si: a de ser perseguido. Se foram distantes em vida, como alguns maldosamente aludem, o martírio os irmanou. No entanto, preferimos ficar com o pensamento de Santo Agostinho: “Um só dia é consagrado à festa dos dois apóstolos. Mas também eles eram um só. Embora tenham sido martirizados em dias diferentes, eram um só. Pedro precedeu, Paulo seguiu. [...] Celebremos, pois, este dia de festa, consagrado a nós pelo sangue dos apóstolos” (Discurso 295, 7.8). Ambos os Apóstolos tinham consciência da importância da missão do outro: “Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação” (Prefácio da Missa da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos).


Uma antiga tradição, proveniente da era apostólica, conta que, onde atualmente se ergue a majestosa Basílica de São Paulo Fora dos Muros, aconteceu o último encontro entre os dois corifeus, naturalmente antes do martírio. Naquela feita, teriam se abraçado demoradamente, abençoando-se reciprocamente. Neste sentido, São Leão Magno comenta: “Dos seus méritos e das suas virtudes, superiores a quanto se possa dizer, nada se deve pensar que os oponha, nada que os divida, porque a eleição os tornou semelhantes, a fadiga e o final, iguais” (In natali apostolorum, 69, 6-7).


Pedro é o homem da profissão (cf. Mt 16,16; Jo 6,68-69; At 2,14-36), mas, também, o da negação (cf. Jo 18,15-18); é um homem cabeça dura (cf. Mt 14,22-33; 16,21-23), como é o homem do arrependimento (cf. Mt 27,69-75; Jo 21,15-19). Pedro é um ser de múltiplas facetas; é um homem surpreendente. À proporção da crença acerca da revelação da identidade de Jesus por parte de Pedro para os seus, o Cristo publica uma nova face de Pedro, até então inédita para todos, inclusive para o próprio Pedro. Primeiro, atribui-lhe o título de “feliz” (cf. Mt 16,17); depois, de sensível ao próprio Deus – “porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está nos céus” (Ibidem); ainda outorga-lhe o designativo matriz “Pedra”, que implica, dentre tantos outros atributos, a função de guardião contra os poderes adversos à Igreja de Cristo, resguardando-a do maligno (cf. Mt 16,18); e, por fim, a titulação de “despenseiro” entre os céus e a terra: “Tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19).


Homem íntegro, Paulo sabe do valor do seu trabalho. Não se ufana quando diz em relação aos outros apóstolos: “Trabalhei mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (1Cor 15,10), mas é cônscio do papel único e eficaz que assumiu ao anunciar o Evangelho. Ao se apresentar como pronto “para ser derramado em sacrifício” (2Tm 4,6), não se apresenta como vítima, mas como libação. Utilizando uma linguagem típica da cultura religiosa da época, Paulo afirma que as vítimas (hóstias) são as almas que ele conquistou para Cristo, enquanto ele mesmo seria como que o vinho, a água, ou mesmo o óleo derramado sobre elas, significando que, pelo bem delas, ele derramou a sua vida, tal como o Servo Sofredor, Cristo, que Se consumiu de amor (cf. Is 53,12). Paulo lutou, combatendo pela fé, para que o Evangelho chegasse aos pontos mais distantes da terra. Lutou, inclusive, contra si mesmo (cf. Rm 7,19), contra os espinhos da carne (cf. 2Cor 12,7); lutou com esperança (cf. Rm 5,5), por isso espera a “coroa da justiça” (2Tm 4,8), que lhe está reservada pelo “Justo Juiz”. Por ter certeza disto, é que reconhece o auxílio do Senhor em sua missão, porque a obra é de Deus. Daí, saber que é apenas um “embaixador de Cristo” (cf. 2Cor 5,20), que está levando a cabo o que lhe foi confiado pelo próprio Senhor.


Que os ensinamentos dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, transmitidos fielmente pela Igreja, sejam para nós uma regra de vida testemunhal do próprio Senhor.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da Paróquia São João Batista (Conj. João Alves)