• Pe. João Claudio

Cristianismo, Democracia e Vulnerabilidades



Diante dos relatos acerca da livre expressão carnavalesca há sempre o perigo de unilateralizar questões bem mais amplas. Não é possível acusar simplesmente o cristianismo de abandonar os indefesos. Existem muitos cristãos que deram e dão a vida “para que todos tenham vida” cumprindo o pedido de Jesus expresso no Evangelho de João (10, 10). A irmã Dorothy Stang deu a vida por todos os que vivem da Terra sem reduzi-la a um objeto de exploração, mas respeitando-a e preservando-a. Esta mulher cristã foi vítima da ganância dos latifundiários exploradores e foi assassinada em 2005. Ainda existem homens e mulheres assim, capazes de dar a vida quando visitam os encarcerados em busca de melhorias nas prisões deste imenso Brasil percorrido pelos integrantes da Pastoral Carcerária, de Norte a Sul e do Oiapoque ao Chuí.


É possível recordar o belo trabalho realizado pela Pastoral da Criança, que salvou a vida de tantas crianças vítimas da fome, da desnutrição e dos maus tratos. Muitas pessoas vítimas das drogas foram salvas graças ao trabalho incansável realizado por todos os que constituem a Fazenda Esperança em muitos estados deste Brasil. Neste imenso nordeste brasileiro é preciso lembrar o trabalho realizado pela Irmã Dulce, canonizada pelo Papa Francisco em 2019. As obras sociais da Santa Dulce dos pobres acolhem as pessoas da Bahia e do Brasil, vítimas de tantas doenças e oferecem tratamento médico de qualidade, acolhendo com estima, respeito e com dignidade, sanando vulnerabilidades que impedem o pleno desenvolvimento humano.


Muitas expressões da Cáritas Brasileira se mobilizaram para acolher os haitianos vítimas do terremoto que devastou o país em 2010 e se lançam hoje para acolher os venezuelanos vítimas da perseguição política que buscam dias melhores no Brasil. Significa que tudo foi feito por completo? Ainda não, mas existem tentativas através de pequenos gestos que não devem obter os espaços midiáticos (Mateus 6, 3). A solidariedade não dispõe de muito tempo. Qualquer segundo é precioso para resgatar pessoas que precisam de um ombro amigo, de um sorriso e de uma mão estendida para retirá-las das situações de vulnerabilidade.


Numa sociedade democrática não há valores absolutos de modo que a harmonia das relações sociais deriva do equilíbrio entre os valores compartilhados por todos os cidadãos. Em nome da liberdade de expressão está em curso uma série de agressões contra os símbolos religiosos do cristianismo. Colocar em cheque a vida de Maria, de José, de Jesus e dos discípulos é sinal de criticidade, ao passo que mantê-los como transmitidos pelo cristianismo é apontado como ultrapassado e privo de lugar na sociedade contemporânea.


Acaso não há mais lugar para o antigo nesta nova sociedade? Há realmente lugar para todos na sociedade atual? Buscando respeito, alguns setores artísticos desrespeitam as expressões basilares do cristianismo. Na sociedade democrática há também a liberdade de respeitar as ideias divergentes, os pressupostos políticos e até mesmo os vários credos religiosos.


Na sociedade democrática ninguém é obrigado a nada, ao menos no amplo teor da expressão. Deste modo, o respeito é o fio precioso em defesa dos espaços reservados para as expressões das diversidades culturais, políticas e religiosas. Ninguém é obrigado a torcer para um dado time de futebol, mas é salutar respeitar a história e os altos e baixos enfrentados pelos clubes esportivos nos momentos de maior vulnerabilidade. Ninguém é obrigado a professar uma fé, mas é útil para a sociedade brasileira respeitar os objetos, os símbolos e o credo de todas as expressões religiosas, sob o risco de enfraquecer as raízes culturais e democráticas do Brasil.


Jesus Cristo não é uma propriedade privada de ninguém, nem mesmo dos grupos artísticos que deturpam o legado deixado pelo homem de Nazaré. Ninguém é obrigado a segui-lo e não é redesenhando a sua imagem e a sua palavra, por meio de modelos alheios ao cristianismo, que serão fortalecidos os aguardados laços de fraternidade, coesão social e promoção humana.


O que acontece nos sambódromos brasileiros é mesmo uma Evangelização? Não se pode trair a identidade semântica dos termos para manobrá-los de acordo com certas finalidades. Ao término dos desfiles carnavalescos, cessem o uso das armas físicas, culturais e ideológicas, para que os cidadãos brasileiros se descubram como membros da única família humana. E irmanados por valores comuns façamos ao outro o que queremos que façam conosco. Eis o alicerce sociocultural de toda religião que está empenhada especialmente com os vulneráveis, vítimas dos processos de despersonalização que ainda hoje agridem a dignidade de inúmeras pessoas no Brasil e além-fronteiras.


Pe. João Claudio da Conceição é pároco da paróquia Nossa Senhora Aparecida (bairro Farolândia, Aracaju)

Arquidiocese 

aracaju

de

Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Aracaju

Praça Olímpio Campos, 228, Centro, Aracaju/SE - CEP: 49010-040

E-mail: comunicacao@arquidiocesedearacaju.org / Telefone: (79) 3216-3000