Desocupados? Nunca



O Senhor conhece-nos inteiramente, inclusive quais são as nossas limitações e deficiências. Não porque estas imperfeições sejam obras de suas mãos. Não, elas não o são! Ele nos conhece, nos ama e nos chama. Com nossos defeitos, com as nossas infidelidades, Ele nos chama para estarmos com Ele, mesmo com muita gente mais capacitada e mais santa do que nós. Em sua providência, o Senhor nos quer. Ao atendê-lo, Ele nos capacita, nos forma, nos molda. Atendendo-O, adentramos na escola de conversão, de volta para Ele. Só com esta pedagogia paulatina, somos denominados “operários de sua vinha”.


O Senhor, que nos chama para a Sua vinha (cf. Mt 20.1-16a), é introduzido pelo Evangelho como um patrão que, saindo de casa em diversos momentos do dia, pretende contratar trabalhadores para as suas terras ao preço de uma moeda por jornada, sem levar em consideração pré-requisito algum. Poderíamos pensar acerca da medida estranha que este homem utilizou para pagar aos seus lavradores: não pensou nem na produção de cada um e nem mediu, pela quantidade de tempo, o trabalho de cada operário. O que ele levou em consideração? Em resposta, Santa Catarina de Sena obteve a seguinte contestação do próprio Jesus: “A cada um será dado o preço segundo a medida do amor e não segundo a operação nem a medida do tempo” (Diálogo, 165).


Quantas vezes estamos desocupados, inertes na ação da lavoura divina, nas praças da vida? Jesus nos vem e nos invita: “Ide também vós para a minha vida! E eu vos pagarei o que for justo” (Mt 20,4). E qual será o nosso justo pagamento? A resposta é simples: a mesma recompensa dada a quem primariamente foi chamado. É claro que esta moeda de prata é simbólica; receberemos o valioso céu, não como um direito, mas como uma imensa honra de trabalhar em tal ocupação, mesmo com os desafios e perseguições.


Como é que atenderemos ao Seu convite? Achegar-nos-emos a Ele por meio de uma conversão interior: “Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto. Abandone o ímpio o seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações; volte para o Senhor, que terá piedade dele, volte para o nosso Deus, que é generoso no perdão” (Is 55,6-7). Deus passa pelas praças do nosso mundo de pecado: “A praça é tudo o que está fora da vinha, isto é, da Igreja de Cristo” (Orígenes, Homilia 10 in Matthaeum); vê-nos à mercê de uma vida fútil e desocupada; faz-nos uma séria e empenhativa invitação: “Ide também vós para a minha vida” (Mt 20,7). Para quem é sensível ao chamado, o chamamento é sedutor e irrecusável. Quantos, mais pecadores do que nós, suscetíveis à voz do Senhor, largaram as luzes incandescentes, o movimento fustigante, o som alienante e ensurdecedor das praças do mundo e abraçaram a vinha do Senhor, empregando todas as suas energias neste valoroso intento, encontrando-se a si mesmos? Pensemos em alguns santos da nossa Igreja, inclusive, São Francisco de Assis, Santo Agostinho, São Cipriano...


É complicado deixarmos as praças do mundo. Infelizmente, muitos de nós criamos raízes nelas. O Senhor é exigente: quer que não tenhamos outra ocupação senão a da vinha do Reino, o que implica uma aplicação inteira de uma vida devota. Quando esta ação é tomada devidamente por nós, os chamados por Ele na undécima hora, principalmente se os veteranos da vinha já nos conheciam da praça, e nós, por nossa vez, tardarmos no ofuscamento em que a praça nos promoveu, somos, muitas vezes, tratados com preconceito e indiferença por aqueles. Jesus, ao dizer esta parábola, já nos quer atentar para este perigo que embute em si a pretensão de pensar que aos neoconvertidos será concedida uma recompensa inferior se comparada a que está reservada para os que foram chamados por primeiro. Nós, os ‘vétero-convertidos’, devemos ser cônscios da justiça do Senhor: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos. [...] Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra” (Is 55,8-9). Se estivermos incomodados com esta prática igualitária do Senhor, o próprio Jesus nos dirá: “Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?” (Mt 20,13-15).


Ouvir o chamado de Cristo é querer viver e morrer Nele, em todas as instâncias da vida. Se assim procedermos, teremos produzido um grande serviço na Vinha, uma grande manifestação de Jesus em nós para a vida do mundo.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da paróquia São João Batista (Conj. João Alves).