Deus tudo sabe e em tudo age



A sabedoria popular tem um ditado que afirma: “Deus escreve certo por linhas tortas”. Penso nisso nas muitíssimas vezes em que me deparo com a ação surpreendente de Deus, seja nas páginas das Escrituras, seja nas laudas da nossa vida.


Vem-me à mente, como exemplo, o episódio bíblico do Rei persa Ciro para falar de que o dito popular acima explanado faz sentido. Quem foi Ciro? O maior dentre os monarcas da Pérsia; aquele que, conforme as Escrituras, mesmo sem conhecer o Senhor Deus, foi utilizado como instrumento Seu para a restauração de Israel e das suas instituições, como o Templo, quando, em 538 a.C., trouxe o povo judeu, outrora humilhado da sua segunda grande escravidão, a babilônica, para a terra de Israel. O Rei persa foi objeto de profecia e de reverência no Antigo Testamento por seu edito (cf. Is 45,1-6); e não somente: mas porque autorizou e patrocinou a reconstrução do Templo de Jerusalém (cf. 2Cr 36,22-23; Livro de Esdras) como parte de sua tática de política expansionista.


A ação da providência de Deus age, de maneira discreta e operosa, como uma determinação misteriosa com a qual o Senhor conduz a nossa vida pessoal e a história da humanidade, sem depender de influências ou de conselhos alheios (cf. Mt 22,16), pelas situações que Ele consente, nas circunstâncias por vezes desafiadoras e calamitosas. Tudo a Sua sabedoria sempiterna conduz à perfeição, de acordo com a Sua vontade. Por isso, extasiado diante deste fato, São Paulo, assim louvará: “Ó abismo de riqueza, de sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos! Quem pode compreender o pensamento do Senhor? Quem jamais foi o seu conselheiro? Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído? Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém” (Rm 11,33-36).


A Igreja, como boníssima Mãe e Mestra, no seu Catecismo, ensina-nos: “[…] é possível descobrir que Deus, na sua oni­potente Providência, pode tirar um bem das consequências dum mal (mesmo moral), causado pelas criaturas” (n. 312). E, elencando esta sua verdade com o pensamento dos santos, continua: “Assim, Santa Catarina de Sena diz aos ‘que se escandalizam e se revoltam contra o que lhes acontece’: ‘Tudo procede do amor, tudo está ordenado para a salvação do homem, e não com nenhum outro fim’. E São Tomás Moro, pouco antes do seu martírio, consola a filha com estas palavras: ‘Nada pode acontecer-me que Deus não queira. E tudo o que Ele quer, por muito mau que nos pareça, é, na verdade, muito bom’. E Juliana de Norwich: ‘Compreendi, pois, pela graça de Deus, que era necessário ater-me firmemente à fé […] e crer, com não menos firmeza, que todas as coisas serão para bem’” (n. 313). E conclui este ensinamento do Catecismo: “Nós cremos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história. Muitas vezes, porém, os caminhos da sua Providência são-nos desconhecidos. Só no fim, quando acabar o nosso conhecimento parcial e virmos Deus ‘face a face’ (1 Cor 13,12), é que nos serão plenamente conhecidos os caminhos pelos quais, mesmo através do mal e do pecado, Deus terá conduzido a criação ao repouso desse ‘Sábado’ (cf. Gn2,2) definitivo, em vista do qual criou o céu e a terra” (n. 314).


Sim, Deus escreve certo por linhas sinuosas. E quando contemplamos os dissabores imorais, relativistas e ateus que assolam a política, a economia, as famílias, as relações interpessoais, a sexualidade humana, enfim, a sociedade como um todo, somos chamados a uma fé convicta, que embute em si o desejo de conversão e de penitência, que nos faz interrogar, confiantemente: - O que Deus quer de nós, Ele que tudo sabe e governa? Ou um grito prenhe de fé, como aquele do Santo Padre Bento XVI, quando, em 2006, visitou o campo de concentração de Auschiwitz, onde morreram mais de um milhão e cem mil pessoas: “Em um lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado, um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isso?”.


A fé, a esperança e a caridade, como virtudes teologais doadas por Deus a nós, permitem-nos estar, docilmente, sob a vontade amorosa e sapiente do Senhor, sabendo que o Reino de Deus acontece também e misteriosamente no “reino de César” (cf. Mt 22,21), ou seja, no mundo, e que a ação da Divina Providência tudo rege. Seja esta mesma Providência infalível a nossa convicção e o nosso consolo.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da paróquia São João Batista (Conj. João Alves).