ENTREVISTA – Pe. Adilson do Patrocínio: "Nada deve nos impedir de realizar os sonhos de Deus"



Com quase vinte anos de Ordenação Presbiteral, o padre Adilson do Patrocínio exerce o seu ministério como pároco da paróquia Senhor do Bomfim (Bairro Rosa Elze, São Cristóvão-SE) e, também, como vigário forâneo da Forania Rainha do Paz e assistente eclesiástico da Pastoral Familiar da Arquidiocese.


Conte-nos um pouco sobre sua caminhada vocacional?


A minha caminhada vocacional teve início muito cedo. Aos sete anos de idade, eu me sentir despertado para essa vocação diante de uma pergunta do saudoso padre Nestor, pároco da cidade de Pacatuba-SE, minha terra natal. Em sua homilia, em uma das missas mensais na capela do meu povoado, ele dizia: “se alguém sentir o desejo de ser sacerdote fale comigo”. Aquela colocação me inquietou, e, pouco tempo depois, pedi para minha mãe falar com o padre, mas ele mandou que eu crescesse, e esperasse completar os 18 anos para tomar uma decisão madura. Daí em diante eu cresci dividido entre dois pensamentos: ser um sacerdote ou ser um pai de família. Tanto uma vocação como a outra brilharam em sua beleza no meu coração. Eu tive os dois sonhos, mas o sonho de abraçar o sacerdócio prevaleceu com mais força. A decisão de entra no seminário foi tomada aos 21 anos em oração, num retiro de 3 dias do grupo RCC do qual fazia parte. Senti-me incomodado durante todo o retiro pelo chamado que ardia no meu coração. Ao término do retiro, procurei o saudoso padre Arnóbio Patrício de Melo que, com alegria imensa, me encaminhou para o seminário. Cursei filosofia em Aracaju, e teologia em Taubaté-SP, na Faculdade Dehoniana (SCJ). Ordenei-me padre e exerci meu ministério nas paróquias São João Evangelista (Cumbe-SE), e Nossa Senhora do Parto (Itabaiana-SE). Passei dois anos em Roma fazendo uma Licenciatura em Sagrada Teologia para o Matrimônio e a Família, no Instituto João Paulo II, que é ligado a Pontifícia Universidade Lateranense. Hoje, estou na paróquia Senhor do Bomfim (Bairro Rosa Elze), onde exerço com alegria o sagrado ministério, e também acompanho a Pastoral Familiar da Arquidiocese.


Na sua opinião, quais as grandes urgências da ação evangelizadora da Igreja?

Citarei dois pontos: a família, que é “a célula vital da sociedade”, para que se mantenha garantida sua identidade segundo o projeto de Deus. O documento GS do VII inicia no n.47, afirma: “A salvação da pessoa e da sociedade humana está estreitamente ligada ao bem-estar da comunidade conjugal e familiar”. E o outro ponto de urgente evangelização é a catequese das crianças, adolescentes e jovens. É preciso uma catequese de mais experiência de Deus. Acompanho muitos pais que sofrem por perderem seus filhos para o ateísmo, para uma cultura relativista na qual a fé, Deus e a religião se esvaem. Pais que sofrem porque seus argumentos não convencem mais. A urgência de uma evangelização que ofereça a oportunidade da experiência de Deus é gritante.


Fale-nos da missão e da grande importância da Pastoral Familiar


A pastoral Familiar tem a missão de PROMOVER, FORTALECER e EVANGELIZAR as famílias. A Pastoral familiar é a Igreja em ação cuidando das famílias, orientando-as segundo o Evangelho e inserindo nelas uma espiritualidade familiar a partir da vivência da fé em Cristo. Essa missão da Pastoral Familiar é ampla, por isso mesmo é árdua e necessita de mão de obra de agentes pastorais e de toda a comunidade. É uma missão ampla porque objetiva alcançar as famílias nas mais variadas realidades: as famílias dos casados, as famílias dos separados, as famílias das novas uniões (recasados), os viúvos (as), as famílias enlutadas, as famílias necessitadas, apoio aos jovens, crianças e gestantes, acompanhar os casais de namorados, casais de noivos e recém-casados. Veja como é vasta a missão. Para isso, necessita de agentes em quantidade e em qualidade de formação. É uma pastoral necessária em todas as paróquias, para suprir essa necessidade de promover, fortalecer, evangelizar, acompanhar e, em alguns casos, amparar as famílias. Para a formação dos agentes, temos, em primeiro lugar, a Bíblia indispensável a todos, o Catecismo da Igreja Católica, o DIRETÓRIO da Pastoral familiar de conteúdo riquíssimo para a formação, depois os conhecidos documentos: Familiaris Consortio, Amoris Laetitia, Gaudium et Spes e outros.


Como as famílias das nossas comunidades paroquiais poderiam se inserir no trabalho desenvolvido pela Pastoral Familiar?


As famílias das comunidades podem se inserir nessa missão, nas necessidades do dia a dia, por exemplo, nas visitações às famílias a que me referi, como também nos eventos, apoiando os encontros de evangelização para casais, jovens, noivos, etc. Há famílias quem têm um testemunho bonito e edificador que podem iluminar a vida de outras famílias, e assim a comunidade é construída com o dom de todos colocado a serviço. Bonito também é quando as pastorais se juntam pela causa do Evangelho. Aqui na Paróquia Senhor do Bomfim, a Pastoral Familiar está unida à catequese nos encontros da catequese com as crianças, está unida também com a Renovação Carismática nos encontros com casais, nas vigílias com famílias. Todos estão juntos na Semana Nacional da Família. Quando o pároco assume, o evento se torna de todos, e isso é bom e bonito. Por outro lado, a Pastoral Familiar deve abrir portas e janelas para acolher as outras pastorais e a quem chega.


Quais as principais ameaças sofridas pelas famílias cristãs?


Citarei aqui o mundanismo pagão (com seu relativismo, com suas ideologias, com sua cultura desvinculada da verdade de Deus e da fé) que avança desrespeitando e destruindo todos os valores cristãos, vitimando sobretudo os jovens, com um poder avassalador de acabar com a semente do Evangelho que os pais plantaram, construindo uma mentalidade totalmente desvinculada dos princípios evangélicos. Os pais se sentem sozinhos lutando contra mil janelas abertas por onde entram as ameaças.


Qual a importância da família na educação e na formação da sociedade?


A família tem sua altíssima importância, começando pelo valor de si mesma. Primeiro como célula vital da sociedade. Ela é o primeiro bem da sociedade, e cada família é extremamente necessária a cada pessoa. Ela é a primeira comunidade, a primeira escola, a primeira formadora. Por isso quanto mais saudável for a família, mais teremos indivíduos saudáveis e, consequentemente, uma sociedade saudável. Como é importante preparar bem os jovens para formarem famílias! Como é importante um plano de governo que invista na formação da família! Como é importante as famílias cristãs se envolverem no planejamento da educação para, depois, não verem a mentalidade de seus filhos deturpada pelo Estado e pelo dinheiro que eles mesmos pagaram no ensino particular. Para não verem, também, o seu papel de pais eliminado da vida dos filhos. Envolver-se, averiguar que tipo de educação seu filho está recebendo na escola, exigir o bem moral, ético da escola de seu filho, são tarefas que fazem parte da maternidade e paternidade responsável. Afinal, família e escola devem formar parceria para uma boa educação.


Qual o valor do diálogo na família em tempos tecnológicos?


O diálogo possui o seu valor primordial, embora tenha perdido espaço. É importante pelo encontro afetivo, pela presença insubstituível, pela transmissão do estado emocional que somente pela comunicação presencial se pode transparecer. A família, comunidade de vida e de amor, se edifica na abertura de corações que unem os seus membros numa amizade profunda que se designa como amor familiar. Este amor familiar não se realiza quando há fechamento em si, quando não se dispõe a se expressar, escutar ou quando há estupidez. O diálogo possibilita enxergar as razões de cada um e orientar para a verdade. Por isso, exige de todos a arte de estar aberto para ouvir, compreender, saber se expressar, e deixar-se orientar.


Uma mensagem de esperança para as famílias


É preciso acreditar que a família nunca deixará de ser o belíssimo sonho de Deus para a felicidade e realização do ser humano, ainda quando se atravessa muitas noites escuras. O Senhor está sempre a nos olhar e a dizer: “lançai as redes em águas mais profundas” ou “coragem eu venci o mundo”. Portanto, nada nos impedirá de realizar os sonhos de Deus, quando fazemos dos sonhos de Deus os nossos.