ENTREVISTA – Pe. João Claudio: “Não temos lugar, somos peregrinos. O nosso lugar é o céu”



Com quase 20 anos de Ordenação Presbiteral, o padre João Claudio da Conceição exerce o seu ministério como pároco da paróquia Nossa Senhora Aparecida (Farolândia, Aracaju), desde 2017. Sua preparação para o sacerdócio foi construída em Aracaju (Seminário Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus) e em Roma, onde concluiu a graduação em Teologia. A formação acadêmica também é enriquecida com o mestrado em Filosofia, na Pontifícia Universidade Gregoriana, e doutorado em Filosofia, na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, conhecida como Angelicum, onde estudou um jovem chamado Karol Wojtyla, nome de batismo de São João Paulo II.


Em que momento de sua vida houve a decisão de dizer sim quando o Senhor disse “Vem e segue-me!”?


Na verdade todo chamado implica um processo no qual ouvimos a voz envolvente de Jesus. A vocação surge no seio da família que reza e partilha a Palavra em suas várias dimensões. A vida comunitária paroquial exerce papel fundamental num processo de discernimento. No meu caso, tudo foi se tornando claro na medida em que participava da vida paroquial como coroinha, da RCC e do Grupo de Evangelização 2000, muito incentivado pela Arquidiocese e pelo Pe. Rezende (in memoriam), na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, situada no Bairro Siqueira Campos. O compromisso com a Paróquia gerou em meu coração a mesma perspectiva que norteou os passos de Jesus: “Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai” (Lucas 2,49).


Qual a razão da escolha da passagem “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi” como lema sacerdotal?


2) O meu lema sacerdotal é extraído do Evangelho segundo João, capítulo 15, versículo 16, onde Jesus diz: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi”. A referida passagem expõe uma postura de entrega a Jesus que chama. Muitas vezes pensamos que tudo é fruto da nossa engenhosidade, quando é Jesus que prepara os acontecimentos para que o encontremos. Jesus dá o primeiro passo em nossa direção, basta que não nos escondamos e nos deixemos encontrar, para que Ele realize em nós a sua obra redentora.


Fale-nos do seu itinerário sacerdotal na Arquidiocese de Aracaju


Eu sou fascinado pela cidade de Aracaju. A minha infância se deu no Bairro Siqueira Campos, portanto a minha caminhada religiosa começou na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, na qual recebi os sacramentos da Eucaristia, Crisma e Ordem. Fiz o Seminário Menor e a Filosofia no Bairro Industrial, Seminário Sagrado Coração de Jesus. Logo após, fui para Roma, onde concluí a Teologia, no Pontifício Seminário Mater Ecclesiae, mestrado em Filosofia, na Pontifícia Universidade Gregoriana, e doutorado em Filosofia, na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, conhecida como Angelicum, onde estudou um jovem chamado Karol Wojtyla, ou seja, São João Paulo II.


Qual a experiência mais marcante vivenciada em seu ministério?


Existem muitos momentos que marcam a caminhada sacerdotal, mas aqui gostaria de acentuar o período transcorrido no Santuário de Fátima, em Portugal. Um lugar especial, cheio de oração, visitado por Maria Santíssima e ainda hoje permanece o perfume suave da Mãe de Jesus. No Santuário de Fátima, além da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde estão os santos Francisco e Jacinta, que viram a Virgem Maria, juntamente com Lúcia, há uma pequena capela construída no local onde havia a oliveira sobre a qual aparecia a Mãe de Jesus, convidando os pastorinhos para rezar o Terço. Celebrar nesta capela é de fato algo sobrenatural. É tão simples e ao mesmo tempo cheio da graça. É uma experiência que renova o coração cristão e suscita a beleza do sacerdócio mariano.


Como tem sido o desafio de ensinar a buscar as coisas do alto em um mundo cada vez mais voltado para os bens e valores terrenos?


A evangelização tem os seus desafios, basta olhar o livro dos Atos dos apóstolos e perceber que desde o início há um caminho cheio de obstáculos internos e externos. De um lado, há uma situação de bem-estar econômico que pode endurecer o coração e torná-lo insensível. Como também, há uma precariedade econômica que pode gerar uma espécie de assistencialismo. É preciso tomar cuidado com ambos os extremos e procurar o equilíbrio que deriva do Evangelho de Jesus, que convida a partilhar e aponta para a construção da cidadania através do trabalho, como no caso dos amigos de Jesus, que eram pescadores, tinha cobrador de impostos, médico e até fabricante de redes, como o apóstolo Paulo. Ao interno das comunidades urge aprimorar a acolhida, receber bem as pessoas que se aproximam, não enxergá-las como rivais que tomaram o meu lugar, o papel que exerço há anos. Não temos lugar, somos peregrinos. O nosso lugar é o céu. E o nosso papel consiste em amar a Deus e ao próximo, como diz Jesus no Evangelho.


O senhor tem colhido bons resultados no esforço para buscar o retorno dos fiéis que se afastaram da vida paroquial por causa da pandemia?


Colher os frutos é uma atividade posterior. Antes da colheita há um árduo trabalho. A terra precisa ser arada, as sementes são lançadas. As intempéries do tempo exercem um papel importante na colheita. Penso que a pandemia não pode ser mais utilizada como um argumento para não participar da Missa. Ainda são necessárias precauções, como o uso de máscara, distanciamento, limpeza das mãos e outros. Todo católico que tomar os devidos cuidados pode participar da Missa e assumir as tarefas da comunidade paroquial.


Como Nossa Senhora nos ensina a amar o Coração de Jesus?


Maria Santíssima é Mãe e discípula, gerou Jesus no ventre, mas também no coração. Maria é plenamente revestida da Palavra, o Verbo que é seu Filho Jesus. Assim, a Mãe nos recoloca nos caminhos da Palavra, do seu Filho, Luz e Redenção. O próprio Jesus nos torna filhos da sua Mãe, Maria. Na cruz, Jesus declara: “Mulher, eis aí o teu filho. Filho, eis aí tua Mãe”. Sob os cuidados de Maria, seguimos os passos de Jesus. Com a Mãe, aprendemos a amar o Filho com a entrega total de nós mesmos, dizendo sempre: “Eis aqui o servo do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua vontade”. Maria ensina a amar servindo, a amar colocando-nos à inteira disposição de Jesus e da sua Santa Igreja (Lucas 1,38; João 19, 26-27).