Está conosco o Senhor



Qual a origem do mal? Por que Deus nos permite passar por diversos momentos de provações? Qual o sentido do sofrimento humano? Indagações como estas sempre estiveram presentes na vida da humanidade, e, consequentemente, por vezes, tais questionamentos também nos assaltam, apelando a que busquemos respostas; e, estas, convincentes.


Após São Marcos nos oferecer o seu relato das parábolas do Reino (cf. Mc 4,1-34), vemos novamente Jesus na barca que lhe serviu de púlpito para o anúncio e explicação dos mistérios do Reino, figurando a Santa Igreja Católica (cf. Mc 4,36). Com a Sua frágil embarcação, o Senhor deseja, singrando os mares do mundo, chegar a todos, manifestando, universalmente, as maravilhas de Deus. Neste anúncio, Ele deseja abrir-nos o coração para o acolhimento da fé, para que, diante das aparentes desventuras que enfrentamos (as mais diversas nas sucessões dos nossos dias), vejamos tudo sob o prisma do abandono em Deus, conscientes de que a resposta oferecida pela fé não é o esvaziamento dos mistérios de Deus e da vida por nós, mas um conformar-nos aos planos divinos, que sempre concorrem para a nossa salvação, verdadeira e única felicidade que devemos esperar.


Diante da procela do vento que agitava a pobre barquinha e perturbava a confiança dos discípulos, o Senhor aparenta dormir; o que, na verdade, é um apelativo ao ato de crer daqueles homens medrosos. O Senhor não nos deseja o mal. O mal não é criação de Deus e nem pode estar com Ele. Pois, na Sua essência, Deus é suma bondade, fonte inexaurível de eterna misericórdia (cf. Sl 106,1b). Logo, não Se alia ao que é uma extrema perversão de Sua obra amorosíssima.


No ápice da nossa agonia, como aquela tripulação de Jesus, não raras vezes, perguntamos a Deus na sinceridade da nossa oração: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” (Mc 4,38). Ao fazer isto, não Lhe estamos sendo irreverentes. Mas, imediatamente ao nosso clamor, o Senhor responde-nos sempre, acalmando, de antemão, à nossa percepção do nosso perecer nos mares revoltos dos desafios que nos circundam: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé” (Mc 4,40). Com isto, quer-nos dizer: “Acalma-te! Não estou a dormir: 'Não dorme e nem cochila aquele que é o guarda de Israel' (Sl 121,4). Estou contigo! Antes que percebesses a tormenta, eu já cuidava de ti. Ordeno, e tudo me obedece. Eu silencio a borrasca e a repreendo para que, em mim, repouses. Vê quanta mansidão há no meu coração! Repousa, pois, em mim!”.


Como respondeu a Jó no meio da tempestade (Jó 38,1), Deus não está inerte ou indiferente quando das nossas provações. Enfrentamos as tempestades porque Ele nos concede a Sua força como meio para que as superemos, pois nada vem de nós. O Senhor nos “tempera” e purifica pelas provações para que cresça sempre a fé em nosso interior.


Voltemos, numa vez mais o nosso olhar para o justo Jó. Diante de tudo o que perdeu, Jó jamais elevou a sua voz para maldizer a Deus, como queriam a sua esposa e seus amigos. A sua conformação aos planos divinos foi sempre a sua profissão de fé. A figura do personagem Jó resplandece para nós como sinal ao nosso ato de crer.


Enfrentar os mares do mundo, instruídos pelas lições “náuticas” da Igreja-barca, também deve ser motivo de júbilo, já que o Senhor nunca nos abandona à nossa própria sorte. Incessantemente, agradeçamos ao Senhor por seu amor e por suas maravilhas entre nós (cf. Sl 106,1). E se o mar, na alegoria bíblica, é símbolo do mal, sabemos que Deus é infinitamente poderoso e já o venceu por nós - e conosco - pela cruz de Cristo Jesus, cujo sofrimento atualiza-se nas dificuldades enfrentadas, diariamente, pela humanidade.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)