• Pe. Everson Fonseca

Eucaristia: das figuras ao memorial



Ao ter já em mente a cara Solenidade dos Sacratíssimos Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, trago à lume a reflexão do Papa São João Paulo II, que, na sua última Carta Encíclica 'Ecclesia de Eucharistia', afirma: "A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja" (n. 1). E assim como, desde o Antigo Testamento, Deus preparou a Sua Santa Igreja, apontando-a em sinais prefigurativos, mas inaugurando-a em Cristo, por ser o Corpo Místico do Senhor, também na antiga Lei, temos as prefigurações do Sacramento Eucarístico.

Na meditação da breve, porém profunda, passagem que retrata Melquisedec, rei de Salém e sacerdote do Deus vivo, que oferece como sacrifício ao Altíssimo as matérias do pão e do vinho (cf. Gn 14,18-20), a Igreja, desde tempos arcanos, viu o prenúncio dos verdadeiros Sacerdote e Sacrifício, Jesus Cristo. Ao primeiro episódio prefigurativo da Eucaristia presente na Escritura Sagrada, Santo Tomás de Aquino se pronuncia: "O sacramento de Melquisedec, anterior à lei mosaica, se parece mais ao sacramento da nova lei na matéria, já que, como disse o texto, ele ofereceu pão e vinho prefigurando com a oblação do pão e do vinho o sacrifício do Novo Testamento" (Suma Teológica III, Qu.61 a.3).

Como se sabe, Melquisedec aparece como o primeiro sacerdote mencionado pelos textos bíblicos. É um personagem misterioso, que concentra em si a inusitada combinação de sacerdote e rei. Algo similar ocorrerá com Jesus, não como simples figura que aponta para uma realidade, mas como a própria realidade. Em Jesus, temos, majestaticamente, o Sacerdote, o Altar e o Sacrifício.

Temos outros sinais prefigurativos do Antigo Testamento: a ceia pascal feita pelos hebreus no Egito, antes de cruzarem o Mar Vermelho, onde comeram pães sem fermento e cordeiro sacrificado; o maná e as codornizes, que saciaram aquele povo peregrino pelo deserto por quarenta anos; as oblações que se levava ao Templo, animais para o sacrifício e o pão para a proposição; o pão oferecido a Elias pelo anjo para lhe serem restauradas as energias a fim de que continuasse a marcha de quarenta dias até o Horeb, fugindo da perseguição imposta por Jezabel; e ainda os pães servidos pela viúva a este mesmo profeta; a carne e o pão dado pelos corvos a Elias, que se escondia junto à torrente de Carit; a ideia do vinho, já presente, como representação do fruto da terra e do trabalho humano, da obra da criação, como sinal de festa, de dor e de alegria. Enfim, o pão e o vinho podem ser sintetizados nas passagens do Velho Testamento como sinal do festim do Reino de Cristo.

Por estarmos cônscios do mandato do Senhor, é que a Igreja de Cristo celebra a Eucaristia, obediente à ordem mesma de Seu Fundador e Alimento, que disse: "Fazei isto em memória de mim!". Cumprimos este desejo de Cristo celebrando a Santa Missa, memorial de Seu Sacrifício redentor, onde pão e vinho se transubstanciam no divinos Corpo e Sangue de Jesus, misteriosa presença de Deus em meio a nós de maneira real e operante. Sim, confessamos com toda a tenacidade da nossa Fé Católica: a Eucaristia é o memorial da Páscoa de Cristo, a atualização e a oferta sacramental de Seu único Sacrifício, realizado de uma vez para sempre, e perpetuado na Sagrada Liturgia da Santa Igreja Católica. Estamos, por isso, no Calvário! E assim, no Altar, há um vértice para onde se dirige toda a criação e o Criador, pois, no Altar, Cristo está!

No memorial eucarístico, confluem a figura e a realidade, porque o significado do que passou, de toda aquela pedagogia que o Antigo Testamento apresentou, é iluminado pela garantia que temos e recebemos: Cristo Vítima, Cristo Sacerdote, Cristo Altar, Cristo Pão mudado em Corpo, Cristo Vinho transubstanciado em Sangue, Cristo Deus. Em todas as Santas Missas, acontece a verdadeira 'Shekinah', a presença de Deus em nosso meio, como Alimento que sacia a nossa fraqueza, fazendo com que a Santa Missa seja crida como o toque entre o eterno e o temporal, entre o inefável e o dizível, enfim, entre o Céu e a terra.

Padre Everson Fontes Fonseca é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro (Aracaju)

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