Feliz quem respeita o Senhor



Quando tomamos em mãos o texto das Bem-Aventuranças, oferecido pelo Evangelho segundo São Mateus, temos, do Senhor, o seguinte imperativo: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48).


Sabemos que as Bem-Aventuranças são a carta magna para a vida cristã. Fico a pensar na atitude de maestria do Senhor que, sentado sobre o monte, com autoridade, como Deus, propõe-Se como modelo e caminho de perfeição; perfeição que é uma possibilidade para nós pelo agir da graça divina unida ao nosso esforço pessoal.


No Antigo Testamento, temos também esta mesma ordem destinada a Moisés e ao povo de Israel, proveniente do próprio Deus: “Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo” (Lv 19,2). E, a partir deste preceito, temos o conjunto de leis que orientaram a caminhada pedagógica do povo eleito, não apenas à Terra Prometida, como até Cristo, o Salvador, no decorrer da História da Salvação.


Santidade e perfeição: sinônimos de quem quer imitar Deus. À primeira vista, parece ser uma atitude ousada: querer imitar Aquele que é suma perfeição, suma santidade. Entretanto, ao mesmo tempo em que Deus se caracteriza como sumas perfeição e santidade, Ele também se nos apresenta como fonte desta mesma perfeição, desta mesma santidade. Logo, se é fonte, o Seu manancial deve correr em nossa direção, para que dele bebamos e nos satisfaçamos. Imitar Deus é ser consciente de que a perfeição, de que a santidade é algo possível; e, mais do que isso: uma necessidade. Ser santo, ser perfeito é critério inequívoco de felicidade, que se dá no fazer em tudo a vontade do Senhor.


No Sermão das Bem-Aventuranças ainda, vemos que o Senhor nos ordena à perfeição após ter-nos legado a lição do amor. É justamente aqui que se funda a santidade: em amar Deus, amando-o, inclusive, no irmão. Os Salmos chamam de feliz, de bem-aventurado, de santo, de perfeito, a quem “respeita o Senhor e que ama com carinho a sua lei” (Sl 111,1). Quem ama de verdade não escolhe o objeto do amor; ama a todos, a começar pelo princípio do amor, Deus. E a lei de Deus, no seu cumprimento, é lição de amor para a santidade, pois “Ele reparte com os pobres os seus bens, permanece para sempre o bem que fez” (Sl 111,8). Desta forma, se Deus nos ama (como de fato acontece), amemos como Ele; se Deus é perfeito (como o é verdadeiramente), sejamos como Ele, aperfeiçoando-nos Nele; se Deus é santo (pois este é o Seu Ser), imitemo-lo, e permitamo-nos à santificação que Cristo nos operou em Sua Cruz redentora.


Quem imita Deus na santidade exercita tal reprodução na fé, na confiança. Ainda que nos momentos de dificuldades, neste caminho rumo ao Céu chamado vida, a tristeza tente nos abater, bem como o desânimo, o santo é aquele que é feliz, não com um contentamento que vem do que é banal, passageiro, mundano, mas com a efusão do Espírito Santo em seu coração; Espírito este cujo um dos Seus frutos é a alegria. E isto é estampado, ainda, pelo salmo, quando sublinha que o homem que respeita o Senhor “não teme receber notícias más: confiando em Deus, seu coração está seguro. Seu coração está tranquilo e nada teme” (Sl 111,7b). Esta alegria interior, a verdadeira, típica dos santos, é um incomodo para o mundo que apregoa, tentado sempre por satanás, pelo contentamento dos prazeres, dos desejos, da fugacidade, que derrocam a alma num vazio sempre e sempre mais profundo. O júbilo dos santos está no que procede de Deus; logo, no que é justo e reto. Até mesmo as suas distrações se caracterizam pela honestidade e pela inocência. Os santos sorriem daquilo que faria Jesus sorrir.


Quem imita Deus vive neste mundo atento à distinção do que é dele e do que é de Deus; ou melhor: faz as coisas neste mundo, sempre olhando para Deus, sendo-Lhe, em tudo, agradável. O santo é marcado pela mendicância do céu em tudo o que faz. É um desinstalado das coisas passageiras estando ainda nelas, operando nelas, nunca se esquivando de transformar, pelo testemunho cristão, o seu derredor. Santo é aquele que não se apega à transitória glória e ao falido poder temporal, mas deseja, em meio às coisas perecíveis, buscar o Reino de Cristo para, numa eternidade que já começa aqui e agora, no presente como vivemos, co-reinar com Cristo, no poder de Sua glória bendita. Quem imita Deus deseja crescer na glória e no poder (cf. Sl 111,9) imperecíveis, que nem a traça e nem a ferrugem destroem ou corroem, juntando, para tanto, tesouros no Céu (cf. Mt 6,19-20), como Jesus aconselhou no Sermão das Bem-Aventuranças.


Os santos que conhecemos foram sensíveis à ordem, ao apelo de Deus, buscando a santidade e a perfeição de Deus mesmas. Não mediram esforços para esta tão alta façanha. Olhando para eles, vivamos os sérios propósitos de santidade! Caso contrário, bela poderá ser a nossa devoção, mas poderá não ser tão frutuosa em nosso interior, como desejam o Senhor e aqueles que O imitaram.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da Paróquia São João Batista (Conj. João Alves)