Frutificar em Cristo



Disse de Si o Senhor: “Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Eis o mistério do crescimento da Igreja: a união com o seu Deus. Como cristãos, somos convidados a nos voltarmos para o mistério da Igreja, para o mistério de nossa vida; somos invitados para um olhar avaliativo da nossa caminhada e a questionarmo-nos acerca do nosso fundamento vital que deve ser o próprio Cristo Senhor.


Videira e ramos. Ao utilizar tal alusão da ligação existente entre esses dois elementos, Jesus nos incomoda, pois aparenta estar apelando para uma lógica infantil. Como se desenvolve um ramo? Como tem vida, se não está ligado a um tronco, a uma matriz? Somente a partir daí é que ele se desenvolve, gera frutos, é canal de nutrientes para encher de sabor aquilo que produz e que vai alimentar e saciar a um outrem, às vezes até a um estranho. E, consequentemente, como produzirá vida um ramo que está cortado de sua raiz? Em um sentido não mais alegórico, mas real, o estar ligado a raiz, ao tronco, significa estar atento ao Cristo na escuta da Palavra e na frequência devota dos Sacramentos. As Divinas Escrituras e os Sacramentos são promotores da união profunda com Jesus, pois somente eles podem nos levar a Deus de uma forma ordinária e seguramente correta porque partem da fé da Igreja, Esposa de Cristo. O “sentir com a Igreja” é um elemento imprescindível para a nossa união com o Senhor. Se estivermos em suas fileiras, fazendo-o não por conveniência, mas de modo convicto e condigno, estaremos estreitamente unidos ao Salvador que, Nela, nos fala e nos alimenta, doando-nos, continuamente, a vida divina.


“Eu sou a videira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa para que dê mais fruto ainda” (Jo 15,1-2). Sabemos que para o desenvolvimento de certas culturas, como é o caso da vinícola, faz-se necessária a dispensa de um cuidado especial, inclusive de podas. Logicamente, o desbaste nunca é feito na raiz, mas nas ramagens. Em que consistiria esta limpeza na vida prática da Igreja, do cristão? Ao apresentar-nos o Pai, associando-O nesta alegoria como agricultor, Jesus demonstra-nos o cuidado que Ele tem para com aqueles que estão de alguma forma unidos ao Cristo, Verdadeira Videira. O Divino Agricultor limpa quem produz fruto. Quer dizer, procura os que portam em si frutos abundantes. Percebamos que ele não trata da raiz, que é indefectível, pois é o próprio Jesus, mas somente dos sarmentos, acenando que os discípulos é que necessitam de grandes cuidados.


O que significa a atitude do agricultor de limpar os ramos? Não é vontade de Deus que se abata o sofrimento no coração e na vida das pessoas. Porém, Deus assim o permite para que seja provada a sua fé. As dificuldades da existência humana, se encaradas com fé Naquele que já venceu por nós, são ocasião especial de crescimento na graça diante de Deus, “pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho” (Hb 12,6). Somos filhos bem-queridos de Deus no Filho eternamente amado. Ante as provações que a vida nos reserva, mesmo sem entendê-las, somos convidados a dar ‘um passo adiante’ na nossa experiência de fé. Isto é produção de frutos! E, como no caso da videira, os frutos nunca são para ela mesma, mas são entregues a fim de que sacie e leve o ‘vinho da alegria’ a outrem. Se o mundo necessita de sinais para achegar-se a Deus, esses devem ser a nossa vida pautada no evangelho da luta cotidiana, fundamentada primariamente no próprio Senhor Ressuscitado, razão do nosso existir e para quem rumam os nossos passos nas vias da existência terrena. Somente Jesus nos fortalece nas agruras de nossa condição, principalmente se as sofremos por amor ao Evangelho: “Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei” (Jo 15,3).


Se formos sinais de vida e alegria saudáveis para o mundo, seremos cônscios de que a nossa vida está regrada corretamente e, a partir do meu viver, Deus será glorificado: “Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vos será dado. Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos” (Jo 15,7-8). A vida humana somente tem sentido se for uma contínua aspiração de agradar e glorificar a Deus. Neste sentido, peçamos sempre ao Senhor apenas as virtudes necessárias para manifestarmo-Lo ao mundo com a nossa paupérrima existência. Interessante: quando o fruto é aprazível ao olhar de quem o vê e saboroso ao paladar de quem o degusta, nunca o elogio é direcionado ao fruto apenas, tampouco à ramagem na qual aquele foi desenvolvido, mas dirige-se, sobretudo, à árvore que o produziu. Assim devemos ser também: é nossa obrigação, devendo ser nossa satisfação, encher o mundo dos frutos de Deus colhidos em nós. Daí, Jesus afirmar: “Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados” (Jo 15,6). Não somos ignorantes ao que significa ser lançado ao fogo, pois o que leva uma vida fútil, separada do Cristo, está absorto numa existência fugaz, abandonado ao léu da sua própria sorte. A estes está reservada a destruição eterna.


Que, inteiramente abertos ao Cristo Senhor, Videira Verdadeira, deixemos que a Sua suave e fortificante linfa nos preencha para que, como ramos que não temos vida em nós mesmos, mas Nele, possamos produzir frutos abundantes para o bem do mundo, tal como a Virgem Maria que, dando o seu sim, concebeu em seu coração e em seu ventre o Bendito Fruto, Jesus Cristo, Senhor Nosso.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru).