Gaudete in Domino



O Terceiro Domingo do Advento é famigerado pelo nome latino “Gaudete”, ou “Domingo da Alegria”. E, aqui, algumas perguntas para fomentar a nossa consciência diante de tal realidade trazida pela reflexão do Tempo do Advento: em que deve consistir a alegria cristã? Quando o cristão deve vivenciá-la? E a indagação fundamental: o que devemos ter por alegria?


De imediato, estimado leitor, respondamos as duas primeiras questões para que nos demoremos um pouco mais naquela que é a principal. Com relação à consistência da alegria, o imperativo de São Paulo à comunidade de Filipos auxiliar-nos-á na resposta: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo, alegrai-vos! O Senhor está perto” (Fl 4,4.5). Já sobre as ocasiões de vivência desta alegria, também do Apóstolo dos Gentios temos a solução: “Estai sempre alegres! Rezai sem cessar. Dai graças em todas as circunstâncias, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo. Não apagueis o Espírito!” (1Ts 5,16-19). Com tais contestações, percebemos que a base da alegria cristã é, necessariamente, espiritual, um dom de Deus para o interior do homem, que sempre se deve deixar guiar pela fé.


Mas, que coisa é a alegria cristã? No que difere do contentamento e das distrações mundanas? O luminoso Papa Bento XVI explica-nos a diferença entre alegria e divertimento quando diz: “O verdadeiro júbilo não é fruto do divertir-se, entendido no sentido etimológico da palavra divertere, ou seja, isentar-se dos compromissos da vida e das suas responsabilidades” (Ângelus, 11.12.2011). E, conceituando a alegria cristã – a genuína porque vem de Deus –, continua: “A verdadeira alegria está ligada a algo de mais profundo. Sem dúvida, nos ritmos diários, muitas vezes frenéticos, é importante encontrar espaços de tempo para o descanso, para a distensão, mas a alegria autêntica está ligada à relação com Deus. Quem encontrou Cristo na própria vida, sente no coração uma serenidade e uma alegria que ninguém e nenhuma situação podem tirar” (Ibidem). O cristão vive nos meandros da verdadeira alegria nas situações da vida, as mais diversas e, por vezes, difíceis porque desafiadoras. Para isto, o Espírito Santo, Doador da alegria aos corações dos fiéis, concede a Sua fortaleza e o discernimento necessários. Aqui, reprisemos o que disse o Apóstolo Paulo: “Não apagueis o Espírito!” (1Ts 5,19).


O Bispo de Hipona e Doutor da Igreja, Santo Agostinho, caracterizará a alegria cristã como quietude, descanso em Deus, vejamos: “Porque nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós” (Confissões I,1). Por esta constatação de Agostinho, sabemos que, se o cristão deseja viver alegre, deve, sempre e sempre, permitir-se ao repouso no coração de Deus, como nos inspira o Salmo 83: “Mesmo o pardal encontra abrigo em vossa casa, e a andorinha ali prepara o seu ninho, para nele seus filhotes colocar” (Sl 83,4). No coração de Deus está a fonte da alegria que o homem tanto busca.


A alegria cristã não é uma mera conveniência do interior humano satisfeito por qualquer coisa ou realidade; é, antes, uma Pessoa: a de Jesus. Isso quer dizer que, por ser a alegria cristã autenticamente Cristo, com a experiência salutar de pertencer a Ele, gera-se em nós a felicidade, que “não é um simples estado de espírito passageiro, nem algo que se alcança com os próprios esforços, mas é um dom, nasce do encontro com a pessoa viva de Jesus, do fazer-lhe espaço em nós, do acolher o Espírito Santo que guia a nossa vida” (Bento XVI, Ângelus, 11.12.2011).


Ser felizes: eis a grande proposta feita por Deus e por Sua Igreja a partir do Tempo do Advento. Sim, porque esperamos um Filho que nos foi dado (cf. Is 9,6), de cuja presença fica desterrada toda a tristeza e desesperança, porque tudo Nele faz sentido, é iluminado; Ele é a nossa luz (cf. Jo 8,12). Em Maria expectante, pela experiência místico-litúrgica, já vemos a Sua aurora. A Virgem Santíssima, a felizarda porque acreditou (cf. Lc 1,45), porque esperou, com o seu exemplo, muito nos inspirará e nos ajudará se, como ela, esperarmos, dignamente, com as “janelas e portas” abertas da nossa alma, o seu Jesus, nossa alegria, que iluminará o interior do homem de fé, dissipando toda a escuridão de pecado, que nos angustia porque entristece os planos de Deus.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da paróquia São João Batista (Conj. João Alves).