Há um barco esquecido na praia

Atualizado: Abr 22



Ir à praia e deitar na areia. Correr, pular, brincar. Depois de uma longa viagem do Fernando Collor até a Atalaia. O ônibus lotado. E era tão bom. Tinha farofa preparada em casa. Tinha coração, tinha rebeldia. Cresci assim. Nossa vida tinha sabor e não sabíamos. Tinha pimbarra, tinha pelada no chão de paralelepípedo, tinha ´queimado´, tinha monareta, tinha pipa, tinha ´pirulito que bate-bate´, etc. Tinha festa de 15 anos. Lembro a da minha irmã, que foi simples e na garagem da nossa casa. O coral Fanuel cantou. E ela debutou e tinha abraço.


Parece que tudo passou, parece que o mundo ficou estranho. Esqueceu das lições de casa, esqueceu de comer na panela, tudo se tornou "fast food", pensávamos nós que a vida nos EUA ou na Europa era melhor do que a nossa. Queríamos aprender inglês, francês para viajar e ter o mundo nas mãos. E, talvez, a felicidade. Depois de alguns anos descobrimos que tudo isso era ilusão. E descobrimos que a melhor pátria é aquela que tem "coração", justiça, honestidade e valores.


Outro dia, li um texto informando que numa grande potência se criou um ministério da solidão, pessoas doentes, solitárias sem querer estabelecer vínculos. Eis o preço da "pós-modernidade". Tínhamos tudo num click, ainda temos. Porém, a tecnologia, seja qual for, para além dos benefícios que ela pode nos dar, não concede indulgência, afeto, abraço e redenção.


Eu queria ser um super-herói, anos atrás, esse era meu sonho. Deixei de viver algumas fantasias. A vida tem me ensinado, nestes tempos, que sempre fui super-herói e não sabia. Voei, abracei, recomecei. Fui de Aracaju a Natal, a Vitória, a São Paulo, ao Rio na JMJ de 2013 com papa Francisco, a Roma. Ralei tanto, passei por tantos revezes. E cheguei a não acreditar em mim, adoeci, disse não posso, não tenho condições, não sou digno. Era meu pesadelo me despertando para vida.


Sabe, quando te disserem que você não pode, que você não é capaz, que você não é bonito (a), que você é um erro, eu não acredito! Se não te amarem, ame. Perdoe. O meu coração tem sede de vínculos, de encontros, de abraços, de beijos plenos... E, se você não pode ir a praia, abra a janela da sua casa e beije o sol, e sinta o beijo, de Vida. Meu Beijo, meu Cristo. Vosso, Pe. Anderson Gomes (Pároco da paróquia São Pedro Pescador, Bairro Industrial).