• Pe. Everson Fonseca

Na “escola” do sofrimento e da alegria

Atualizado: 21 de Set de 2019



Diante de certas situações difíceis da existência humana que provam a nossa fé (e a robustece), os sofrimentos são momentos singulares para uma maior conformação nossa ao Cristo Sofredor, que padece em nós, por nós e para nós, naquela estreiteza que existe entre a Sua Cruz redentora e as nossas cruzes diárias, participantes da Sua. Convenientes são as palavras de São Paulo que, escrevendo aos Colossenses, se rejubila de tudo quanto padece na carne, e, quem sabe, até no espírito, ao dizer: “Alegro-me de tudo o que já sofri por vós e procuro completar na minha carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a Igreja” (Cl 1,24).


Quantas dores, quantas cruzes, quantos sofrimentos, problemas, o nosso povo enfrenta! E diria até mais: sempre enfrentou. Sim, a vida do cristão sobre a terra é passível de ocasiões tantas vezes adversas, enfadonhas. Seriam estas agruras motivos de vivermos cabisbaixos, entristecidos? Não. A alegria cristã não se fundamenta nos sucessos temporais e materiais, mas nos bens espirituais. Sendo mais claro e direto, a alegria cristã se baseia em Jesus Cristo, “Alegria dos homens”, como proclama em sua peça musical, consagrada em todo o mundo, Johann Sebastian Bach.


Porém, o sofrimento humano, em relação com a alegria cristã, deve possuir um sentido, pois não sofremos porque gostamos. Mas podemos dar-lhe um sentido nobre: a alegria de, em mim, completar o que faltou ao sofrimento de Cristo. As fraquezas dos nossos corpos, as suas limitações, as vicissitudes deste mundo, tantas situações que exigem de nós, devem ser vividas à luz da fé. Esta dinâmica constante na vida do cristão é a fortaleza vivida na fraqueza (cf. 2Cor 12,10).


O desejo do Apóstolo dos Gentios é, mediante uma intimidade profunda com Cristo, por meio da Igreja, que os seus sofrimentos pessoais sejam o da comunidade cristã e vice-versa. Esta consciência não deve ser aplicada somente a São Paulo, mas a todos os cristãos. O meu sofrimento pessoal o é de toda a Igreja; enquanto que o sofrimento dela é o meu. Isto é o que, em latim, a Sagrada Teologia denomina Sentire cum Ecclesia, sentir com a Igreja. As doenças físicas, psicológicas, espirituais, a fome, o desemprego, o vício, a perseguição, a injustiça e tantas outras mazelas humanas, individualmente vividas, é sofrimento da Igreja como um todo; as incompreensões no anúncio do Evangelho, a perseguição à fé católica, as profanações, a intolerância, os êxodos, enfim, tudo quanto a Igreja padece mundo a fora, deve constituir-se sofrimento individual para mim, porque devo comiserar-me disto também.


O apostolado de Paulo aqui pode ser chamado de apostolado do sofrimento. Ele não sofre ‘com’, mas, também, ‘pela’ Igreja, vivendo simultaneamente o ‘sentire cum Ecclesia’ e o ‘sentire per Ecclesiam’. Isto lhe constitui motivo de alegria porque vê que os seus sofrimentos não são em vão, já que produzem frutos: as privações de Paulo evangelizam e fortalecem-no (cf. Cl 1,29); consola e une a Igreja (cf. Cl 2,1-2).


São João Paulo II, na Carta Apostólica “Salvifici Doloris”, exprime: “O sofrimento deve servir à conversão, isto é, à reconstrução do bem no sujeito, que pode reconhecer a misericórdia divina neste chamamento à penitência. A penitência tem como finalidade superar o mal que, sob diversas formas, se encontra latente no homem, e consolidar o bem, tanto no mesmo homem, como nas relações com os outros e, sobretudo, com Deus” (n. 12). Assim, a finalidade do sofrimento é, em parvíssimas palavras, encontrar-se com Deus; esta também será a sua aplicabilidade. Podemos implorar a Deus, pela ferramenta do nosso sofrimento, por tantos outros. Dessa maneira, a nossa dor vivida com alegria será um incenso perfumoso que subirá ao Senhor, na intercessão de outros que se encontram desviados da verdade do Evangelho, inclusive por uma vida de degrado no mal.


O sofrimento encarado na alegria de Cristo é também meio de evangelização: eis mais uma aplicação que poderemos fazer. Por meio da temperança no seu encarar, na esperança de viver em Jesus, poderemos levar pela via da paciência tantos outros à fé. Por aí, muitos propagam a ideia de que o sofrimento e a mensagem cristã são incompatíveis, e chegam até a pregar uma vida de “vitórias”. Infelizmente, estas pessoas ou seitas, esquecem-se ou desprezam que a nossa vitória não está neste mundo, mas no que virá; para o Céu é que fomos criados (cf. Rm 8,18). O ‘pare de sofrer’ ofusca a coragem cristã, tornando-nos covardes na fé. O sofrimento é escola; e, como tal, é aprendizado para a minha santificação e de tantos que me circundam.


Creio que a missão de batizados acontece ordinariamente a pari passu com a vida cristã. Se assim não fosse, a missão se constituiria algo acessório, a ser praticado somente nas benesses da vida, ocasionalmente. A missão de quem sofre por amor e, portanto, vive a alegria cristã, está justamente nisso: no desenterrar-se das preocupações individualistas e aproveitar tudo quanto for útil para tornar Jesus mais conhecido e amado por mim e por tantos outros, ainda que seja no púlpito da missão do sofrimento, encarado com fé, com alegria, com testemunho.


O padre Everson Fontes Fonseca é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição (Mosqueiro, Aracaju)

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