Na firmeza do Pastor



Na leitura do capítulo décimo do Evangelho segundo São João, característica é a afirmativa que o Senhor faz de Si: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11).


Ser bom; dar a vida: eis duas atitudes virtuosas. Este adjetivo, virtuoso, procedente do termo virtude, designa força no seu significado; firmeza, portanto. Ser bom e ser virtuoso são atitudes necessárias para quem dá a vida. À força do amor de Deus, o Pastor, nas Suas bondade e firmeza, confessa, decididamente: “É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho o poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a ordem que recebi do meu Pai” (Jo 10,17-18). Aqui, vemos como a fortaleza misericordiosa do Pastor vivifica, em Si mesmo, o rebanho. Esta é a dinâmica de celebrarmos, no Tempo Pascal, o Domingo do Bom Pastor, que, por amor, morre a nossa morte para que vivamos a Sua vida ressuscitada, doada a nós por Ele.


Por Sua fortaleza, para dar a Sua vida, o Bom Pastor, ao contrário dos mercenários, não foge quando chega o lobo para atacar o rebanho. E, assim, dentro da História da Salvação, percebemos que o Cristo, não simplesmente para defender o Seu rebanho, a Santa Igreja, mas, sobretudo, para vivificá-la com a Sua própria vida divina, enfrentou, pela Sua Cruz, satanás, saindo vitorioso no grande combate. Por ser forte, por ser firme, não temeu. E, nós, desejosos da fortaleza do nosso Pastor, que duelou por nós ferrenha luta, também deveremos resistir a fera que sempre se avizinha e ruge pelas tentações, e que deseja devorar-nos pelo pecado. Daí é que São Pedro dirá: “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé. Vós sabeis que os vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós” (1Pd 5,8). E o rebanho, que deve querer a fortaleza do Seu Pastor já aqui, nesta terra, como expectativa de um porvir eterno, é alentado, a conhecer Deus (1Jo 3,1-2), numa experiência de amor, querendo copiar-Lhe as virtudes, a Sua bondade.


Outra ideia trazida pelo Cristo-Pastor é aquela da firmeza do anúncio: “Tenho outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,17-18). Imaginemos a potência da voz de Deus a chamar, na urgência do Seu amor, a tantos e tantos que não estão no Seu curral, na Sua Igreja, seja porque nunca nela ingressaram, seja porque, dela, se afastaram. A sujeição de anunciar a boa-nova da salvação, missão que impera sobre nós pelo Santo Batismo, prescinde do emprego de nossos esforços, naquela mesma perspectiva do Apóstolo Paulo, que sentiu tal exigência: “Ai de mim se não pregar o Evangelho” (1Cor 9,16). Anunciar não é fácil; pede-nos coragem, valentia. Por isso, lemos acerca da ousadia de Pedro, imbuído do Espírito Santo em seu anúncio: “Jesus é a pedra, que vós, os construtores, desprezastes, e que se tornou a pedra angular. Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos” (At 4,11-12).


Notemos que, firmemente, Pedro utilizará a firmeza da pedra, associando-a a Cristo, como realização daquilo que o livro dos Salmos já profetizava (cf. Sl 117,22). Para ser pedra angular, a rocha não pode ser qualquer uma; não pode ser frágil, justamente porque é ela quem sustenta as demais, num processo de alinhamento e de apoio, que exige a sutileza no critério da sua escolha. A pedra angular, se interpondo entre as demais, impulsiona-lhes à justeza. E é isto que temos em Cristo-Pastor, em Cristo-Rocha: Ele é a nossa base; é Ele quem nos justifica; é Dele que nos vem a solidez. E assim como a pedra angular é o sustento das demais rochas, o Bom Pastor, como Cordeiro de Deus, põe-nos aos ombros e nos carrega em nossas debilidades, em nossas fraquezas e cansaços (cf. Lc 15,4-7).


Na fortaleza do Pastor-Rocha, fortaleçamo-nos! Não sejamos medíocres em querer viver com as nossas tacanhas forças (se é que temos em nós mesmos alguma virtude, que sempre nos vem do Senhor). Desta forma, percorrendo os caminhos deste mundo no amparo de Deus, sempre na pertença ao Seu redil, seremos, de uma vez para sempre, congregados no coração infinito do bondosíssimo, do belíssimo, do virtuosíssimo Pastor, que, na força do Seu amor, Se imolou e ressurgiu.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)