• Pe. Everson Fonseca

O acolhimento ao Senhor



Na Sagrada Escritura, famigeradas, ao menos, são duas personagens que inspiram dois exemplos de acolhimento - um mais nobre e fundamental do que outro, é bem verdade: de um lado, o atarefamento de Marta; do outro, a guarida de Maria, sua irmã.

Marta entrou para a literatura e para a espiritualidade bíblicas, inspirando-nos a ideia de ser ela atarefada, portadora de um coração atribulado, cheio; já Maria é lembrada como aquela que descansa nas palavras do Senhor, ou seja, na audição atenta, encontra ela a sua paz. E isto não foi diferente quando, provada na fé, encarou, confiantemente, a morte de seu irmão Lázaro (cf. Jo 11,17-44); e isto porque guardou o que escutou dos lábios do próprio Jesus. Entretanto, notória é a atitude destas duas mulheres em querer acolher Deus da melhor maneira possível.

Maria é acusada por sua irmã, Marta, de insensivelmente desocupada. Na visão do Senhor, Maria lucrou porque escolheu a melhor parte. Percebamos: a melhor. Com este adjetivo, Jesus indica não menosprezar o serviço manual de Marta, muito pelo contrário: ela também estava atendendo o Senhor. Entretanto, a escolha de Maria, que se põe à escuta, é a correspondência justa do que Deus espera de nós: o acolhimento interior. Neste sentido, Santo Agostinho comenta: "Marta, no seu empenho em preparar para o Senhor a refeição, andava ocupada numa multiplicidade de afazeres. Maria, sua irmã, preferiu que fosse o Senhor a dar-lhe de comer. Esqueceu-se de sua irmã e sentou-se aos pés do Senhor, onde, sem nada fazer, escutava as suas palavras".

Maria queria ser abastecida 'de' e 'por' Cristo. Não estava ociosa. Ao tratá-la assim, Marta comete grandíssima injustiça. A sua irmã queria estar cheia de Cristo para, fortificada pelas divinas palavras do Senhor, exercer, retamente, a sua rotina cotidiana. Eis o segredo da vida cristã! E nisto, São Paulo, nos ajuda: "a presença de Cristo em vós [é] esperança da glória. [...] para a todos tornar perfeitos em sua união com Cristo" (Cl 1,27.28b).

O cristão, que se deixa preencher das palavras de Cristo, escutando-as atentamente e no esmero de aplicá-las com a sua vida nas mais diversas atividades cotidianas, é capaz de passar da meditação à ação, nunca abandonando a contemplação. E este é o seu serviço ordinário de discípulo-missionário do Senhor. Esta conjugação é exortada seriamente por São Josemaría Escrivá: [Vocês] "devem compreender agora - com uma nova clareza - que Deus chama a servi-lo 'em' e 'a partir' das tarefas civis, materiais, seculares da vida humana. Deus espera-nos cada dia no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo imenso panorama do trabalho. Não esqueçam nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir. [...] Não há outro caminho [...]: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca" (In: Questões atuais do Cristianismo).

Escutar o Senhor, abastecer-nos de Sua presença divinal, acolhê-Lo na Sagrada Comunhão: eis o que, ao menos aos domingos, fazemos na Casa de Deus. Esta é uma necessidade de nossa alma. E, por sermos alimentados do Corpo e do Sangue de Deus, da Palavra que se faz Comida, somos mais felizardos do que Maria; ela que escolheu a melhor parte. Que atributo utilizaremos, então, para adjetivar a parte que Deus nos reserva? Reflitamos!

Padre Everson Fontes Fonseca é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro (Aracaju).

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