O algoz do Senhor



Quero iniciar o artigo de hoje, estimado leitor, com um grande questionamento: por que Jesus morreu?


Analisando, historicamente, a paixão e morte do Senhor sem o fundamental critério da fé, poderíamos dizer que Jesus morreu por ter sido um rebelde agitador de multidões; porque a Sua mensagem incomodava os líderes de Israel e do Império Romano. Entretanto, precisamos ir mais além: embora os aspectos políticos e históricos também o caracterizem, contribuindo para tanto, não foi este o motivo da crucificação e da morte de Jesus, e, portanto, para o mistério da História da Salvação.


São João, em suas zelosas linhas exortativas à santidade dos fiéis, dando-nos, simultaneamente, o consolo quando das nossas recaídas ao pecado, dirá, claramente, que Cristo “é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas pelos pecados do mundo inteiro” (1Jo 2,2). Aqui, temos a grande resposta que procurávamos: se Cristo morreu pelos nossos pecados, não foram somente as autoridades judaicas que o assassinaram, mas, todos nós, com os nossos pecados, pois o Senhor morreu para reconciliar-nos com Deus; logo, morreu movido de amor ao Pai e por nós.


Esta resposta também é corroborada pelos Atos dos Apóstolos: inflamado pelo Espírito Santo, momentos após Pentecostes, Pedro, corajosa e convictamente, fará um grande e belo discurso, do qual destacamos a sua solução ao nosso questionamento sobre a motivação da morte do Senhor. Desta forma, partindo do contexto político-histórico, o Príncipe dos Apóstolos, dirigindo-se ao povo como que a toda humanidade, dirá que todos somos responsáveis pela morte de Cristo, acrescentando o importantíssimo dado da ressurreição: “Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas. E agora, meus irmãos, eu sei que vós agistes assim por ignorância, assim como vossos chefes” (At 3,15.17). Se grandes foram os nossos pecados, que exigiram tão alto preço de redenção, infinitamente maior foi o amor de Deus, que recebeu a vida de Cristo em nosso favor, e Lh’a restituiu gloriosa quando da Sua ressurreição como garantia de vida eterna para nós.


A este plano misericordioso, o Ressuscitado não deixou os Seus discípulos alheios. Sempre o Senhor, pedagogicamente, ao longo de Sua atividade missionária, ia instruindo os Seus seguidores de como o Cristo deveria sofrer e morrer, e ressuscitar ao terceiro dia (cf. Lc 9,22; 18,31-33; Mc 10,33-34; Mt 16,21; 17,21-22; 20,18-19). Também na tarde do Domingo de Páscoa, seja aos discípulos a caminho de Emaús (cf. Lc 24,13-25), seja quando apareceu a todos juntos, abrindo-lhes a inteligência para entenderem a Escritura, disse-lhes: “Assim está escrito: ‘O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém’” (Lc 24,46-47). E ainda concluiu: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (Lc 24,48).


Como permaneceremos indiferentes ao alto preço da nossa salvação: o Sangue de Cristo e a Sua vida imolados por nós? Para que isto não nos aconteça, novamente São João, em sua Primeira Carta, nos ajudará: “Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. […] Para saber que o conhecemos, vejamos se guardamos os seus mandamentos” (1Jo 2,1.3). Logo, recai sobre nós o grave dever de não pecarmos; de, sobretudo, convertermo-nos, não agindo pela ignorância dos instintos da nossa natureza propensa ao mal, mas com a consciência da vida nova, no conhecimento das novas atitudes que a Páscoa do Senhor trouxe para nós, exigindo-nos uma vida na pureza e na verdade (cf. 1Cor 5,8).


Jesus disse que somos testemunhas de tudo isso, do Seu imenso amor imolativo por nós. Provas vivas da força do amor que vivifica porque se entrega a Deus, achando n’Ele o sentido do nosso existir, espalhemos no mundo os caracteres do Ressuscitado. Não endossemos, mais uma vez, em relação a Jesus, o “crucifica-O” da turba e dos maiorais judaicos da Sexta-Feira Santa (cf. Mc 15,13.14; Lc 23,21; Jo 19,6.15). Porém, por uma vida reta, santa, conscientes de quem somos, das nossas fraquezas e da graça do Espírito Santo que sempre nos sustenta, testemunhemos o amor de Deus. Assim (e somente assim), não desperdiçaremos uma gota sequer do preciosíssimo Sangue do Senhor, derramado por amor a nós na Sua cruz.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)