O amor universal de Deus



Na cruz do Ressuscitado, vemos o grande amor de Deus por nós. Aparecendo aos discípulos, já ressuscitado, o Senhor não lhes esconde as chagas, muito pelo contrário: na tarde daquele domingo de Páscoa (e no seguinte, em reprovação a Tomé), o Senhor identifica-Se por Suas chagas (cf. Jo 20,1-31); chagas gloriosas, porque, antes, foram consentidas pelo amor-entrega de Jesus.


Também nas experiências místicas feitas por algumas almas privilegiadas que viram ao Senhor ao longo dos séculos, como foi o caso de Santa Margarida Maria Alacoque, vidente do Sagrado Coração de Jesus, o Senhor apresentou-Se com as chagas do Seu amor por nós, e ainda falou, apontando para o Seu Coração ferido pela lança: “Eis aqui este Coração que amou tanto aos homens que não omitiu nada até esgotar-se e consumir-se para manifestar-lhes Seu amor, e, por todo reconhecimento, não recebe da maior parte mais que ingratidão, desprezo, irreverências e tibieza que tem para mim neste sacramento de amor”. Sim, o Senhor, na Sua natureza humana, esgotou-Se por amor, fazendo justiça à Sua essência, ao Seu Ser de amor: “porque o amor vem de Deus, [porque] Deus é amor” (1Jo 4,7-8).


Nos Atos dos Apóstolos, Pedro diante do pagão Cornélio, manifesta este plano universal do amor de Deus, que deseja a salvação de todos os homens: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10,34). E Deus, confirmando o observado pelo Apóstolo, enquanto este ainda estava falando, derramou o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra (cf. At 10,44). Pedro figura a Igreja, que fala a todos sobre esta universalidade de amor e salvação da parte de Deus para com toda a humanidade. E, sobre os que ouvem o anúncio da misericórdia salvadora, Deus Se derrama no Seu Espírito Santo, a fim de que possam perfeitamente viver, amar e, amando, ser pregoeiros, testemunhas deste amor a tantos e tantos corações que carecem deste anúncio, que estão privados desta experiência.


A humanidade deve conhecer o amor de Deus. Não um conhecimento teórico, mas vivencial. Porque, se assim fosse, não ofenderiam mais Deus, ferindo o Seu Coração terníssimo com ingratidões, desprezos, irreverências e tibieza. Se a humanidade, chamada à salvação, se esmerasse no amor de Deus, pelo impulso do Espírito Santo, que deseja recair sobre os corações de todos, viveria mais facilmente o amor ao próximo, aos outros. Aqui está a lógica do tratado por São João na sua Primeira Carta, como imperativo: “Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus […] Quem não ama, não chegou a conhecer Deus” (1Jo 4,7.8), não mergulhou em Deus, aprendendo Dele a amar sem fingimentos, com incompreensões, sem desistência, com persistência… aniquilando-se sempre até o esgotamento. Isto é permanecer no amor de Cristo. E quem o faz, ainda que nas contrariedades da atitude de amar, estará com a consciência tranquila, estará paz, estará na alegria de Cristo e caminha para a plenitude do amor, que é reservada para quem exercita a caridade, que “cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4,8).


A caridade que demonstramos para com as pessoas tem o seu fim último em Deus. Amando o próximo, amamos a Deus, sendo-Lhe Seus amigos; amando o próximo, também servimos a Deus. O amor é a maior identificação dos frutos permanentes que produzimos por permanecermos em Cristo, porque, pelo amor, seremos reconhecidos (cf. Jo 15,8).


Frutifiquemos no amor! Consolemos o Coração de Deus, que tanto nos ama, e que é tão magoado pelas ofensas da humanidade! Minoremos o sofrimento de todos com a cristã atitude de amar Deus no próximo, ainda que isto muito nos custe! Se, como disse o Pobrezinho de Assis, o Amor não é amado, amemo-Lo, fazendo a nossa parte. Sejamos colaboradores deste amor universal de Deus a partir de pequenos atos, sempre na perspectiva de nosso crescimento heroico nas virtudes à altura de Cristo.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)