O assunto é vocação

Raymundinho Mello



Todos os anos, a Igreja Católica dedica o mês de agosto à reflexão sobre o tema “Vocações” – é o chamado mês vocacional. Assim, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com a Pastoral Vocacional, propôs para o ‘Mês Vocacional - 2020' o tema “Amados e Chamados por Deus” e o lema “És precioso a meus olhos... Eu te amo” (Is 43,4), objetivando motivar a oração pelas vocações nas comunidades, paróquias e dioceses, além de conscientizar adolescentes e jovens ao chamado de servir à Igreja. O bonito cartaz ilustrativo estampa a frase emblemática “Rezemos pelas vocações!”, nos recordando, em entrelinhas, o que nos instrui a Igreja, pelo documento de Puebla: “A vocação é a resposta de Deus à comunidade orante”.


Portanto, ouçamos atentamente qual é essa resposta. O que devo seguir como pessoa que quer abraçar, assumir uma vocação, ou aderir, com atitudes e gestos, apoiando a quem quer ser Padre, religioso(a) – irmão ou freira, consagrado(a), fiel cristão(ã) casado(a) ou leigo(a) engajado(a) nos diversos serviços na comunidade – essa última, uma das opções mais necessárias, sempre abastecida por muitas orações e estudos. Vê-se, assim, que o mês vocacional é algo de grande importância para a vida da Igreja como um todo ou para o 'ser Igreja'.


Objetivamente, a cada domingo – e estendendo-se a reflexão por toda a semana – um destaque vocacional especial: dia 2 – Dia do Padre, que, a rigor, é no dia 4 de agosto, dia em que se celebra a memória de São João Maria Vianney (vocação para o ministério ordenado: Diáconos, Padres e Bispos); dia 9 – Dia dos Pais (vocação para a vida em família – atenção especial aos pais); dia 16 – Assunção de Nossa Senhora (vocação para a vida consagrada: religiosos(as) e consagrados(as) seculares); dia 23 – vocação para os ministérios e serviços na comunidade. Tudo bem distribuído, com registros especiais para cada vocação, como citamos – ministérios ordenados, família, vida consagrada e cristãos leigos e leigas.


Assim, sem nos descuidarmos, em hipótese alguma, da Palavra de Deus que a Liturgia de cada dia nos apresenta, a Igreja nos convida, neste mês de agosto à reflexão e aos trabalhos vocacionais, especialmente àqueles mais intimamente a ela ligados, por obediência à Fé que comunga e promove. É um mês rico em celebrações destacadas por exemplos de vidas e obras, quer no campo espiritual, quer no campo moral e material.


Santos e santas marcam dias especiais, e aqui destacamos, entre outros, Santo Afonso Maria de Ligório, São João Maria Vianney, São Domingos de Gusmão, São Lourenço, Santa Clara, Santa Dulce dos Pobres, São Maximiliano Maria Kolbe, São João Bosco (nascimento), São João Eudes, São Bernardo, São Pio X, Nossa Senhora Rainha, São Bartolomeu, Santa Rosa de Lima, Santa Mônica, Santo Agostinho, e, também, datas especiais de celebrações, como Dedicação da Basílica de Santa Maria Maior, Transfiguração do Senhor, Assunção de Nossa Senhora e Martírio de São João Batista.


Aqui, uma questão crucial se nos impõe: independente de qualquer evento que se possa promover como parte da celebração destas datas tão especiais para os cristãos-católicos, especialmente no âmbito espiritual, o ponto central, e comum a todas elas, é, sem dúvida alguma, a Celebração Eucarística, a Missa. E Missa só existe com a presença do Padre para presidi-la. Só ele – o Padre – e mais ninguém, pode consagrar o pão e o vinho no Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aí se encontra a razão de ser da sublimidade e da sacralidade do Sacerdócio Católico. É como tão bem define a Carta aos Hebreus (Hb 5,1): “escolhido entre os homens e constituído a favor dos homens como mediador nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados”.


Quão belo e de tão altíssima profundidade espiritual é o convite que o Padre dirige aos fiéis para rezarem com ele, preparando a Oração Eucarística, e que se completa com a oração sobre as oferendas: “Orai, irmãos e irmãs, para que o nosso sacrifício seja aceito por Deus, Pai todo-poderoso”. No que a assembleia a ele se une com as palavras: “Receba o Senhor por tuas mãos este sacrifício, para glória do seu nome, para nosso bem e de toda a santa Igreja”.


É uma pena que, excetuando-se os Padres – claro, pois conhecem a importância desta oração e o que ela representa no contexto do que se está a celebrar –, grande maioria dos fiéis dá pouca atenção a tão sublime momento da Liturgia da Missa. Ressalto um ponto notável na resposta da assembleia: “por tuas mãos”. Mãos consagradas, mãos ungidas.


Cito aqui palavras extraídas do livro “A Liturgia da Missa segundo Bento XVI”, que, na página 158, referindo-se a este momento, assim expressa: “O sacerdote sabe que deverá se apresentar diante de Deus e em nome da comunidade, com as oferendas trazidas por ela. Destacado da comunidade por força do 'Sacramento da Ordem' por ele recebido, pede oração para o próprio sacrifício, no desejo que ele seja agradável a Deus. Ele pede à assembleia que o apoie com sua oração, que o ajude a realizar tão grande e pesado encargo, associando-se ao sacrifício que ele vai realizar, fazendo-o seu, pelo seu sacerdócio batismal. Assim, tanto o sacerdote quanto a assembleia estão conscientes da grandeza do que será realizado sobre o altar”.


Continuo pontuando, com alguma adaptação livre, as palavras do livro: Dada a gravidade e a sinceridade do pedido, certa vez, Bento XVI proferindo a homilia nas primícias de um neo-sacerdote alemão, explicava o sentido do “Orate, fratres” (Orai, irmãos): “Não tomeis o pedido como um clichê, como uma frase que está no Missal e que, por isso, o sacerdote deve dizê-la, mas tomai-o como um verdadeiro pedido que ele vos dirige. Pois talvez o que mais o sacerdote necessita hoje é que se reze muito por ele, e para ele é infinitamente reconfortante saber que a comunidade se preocupa por ele diante de Deus, que reza por ele. (...) E sempre que no futuro alguém vá à Missa e ouça estas palavras, “Orai, irmãos”, tomai-o como uma exortação e como um autêntico e fervoroso pedido que vos é feito: Orai, irmãos, para que a oferenda de vida deste e de todos os sacerdotes seja agradável diante de Deus, nosso Senhor. O “Orai, irmãos”, portanto, não ilumina só o Ofertório, mas, com uma evidência cristalina, por meio dele a Liturgia lembra ao sacerdote a exigência fundamental de seu ministério sacerdotal: na Missa, em todos os sacramentos, nos momentos de êxito ou de insucesso, ele deve sempre se identificar com o Cristo”.


Como tão bem cita o nosso caríssimo Dom Henrique Soares da Costa – que recentemente fez a sua Páscoa definitiva – numa palestra para seminaristas (e alguns Padres), recordando as palavras que dissera uma senhora a um Padre da Diocese de Palmeira dos Índios, o momento mais importante na vida de um Padre, é quando, na Missa, após a Consagração, ele se ajoelha atrás do altar e desaparece... e todos os olhares se voltam para Cristo, após o grande milagre acontecido e que ele próprio anuncia: “Eis o mistério da fé!”. Neste mistério se inclui toda a grandeza e razão de ser do seu sacerdócio.


Concluo, emocionado, lembrando as palavras do Padre Jadilson Andrade, neste sábado, 1.º/08/2020, no seu programa na Rádio Cultura: “Eu amo ser Padre! Sou feliz por ser Padre”. Isso resume tudo: a beleza inexprimível – por vezes incompreendida – da vocação presbiteral. Todas as palavras são poucas, mas, ao mesmo tempo, poucas palavras são suficientes para expressar quão belo é ser Padre, quando se desejou um dia ser um Padre.


Rezemos pelos nossos Padres. Rezemos, igualmente, por nossos Seminaristas, para que, como diz a nossa tão estimada “Oração pelas vocações e pelos sacerdotes”, “sejam, mais tarde, dignos Ministros do Altar, santos e dedicados pastores do povo cristão”.

Que assim seja!


Raymundinho Mello (Raymundo de Mattos Mello), consagrado secular, é membro do Movimento Vocacional Serra e do SAV – Serviço de Animação Vocacional da Arquidiocese de Aracaju e Professor do Seminário Maior Nossa Senhora da Conceição. instagram.com/raymundinhomello

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