O caminho pedagógico do ato de amar



Numa realidade como a nossa, na qual se apregoa a concorrência, a rivalidade e a trapaça como frutos de uma mundana esperteza, voltemos o nosso olhar para o capítulo dezoito do Evangelho segundo São Mateus (15-20), no qual Jesus nos oferece um trilhar paulatino no ato de amar, que culmina com a nobreza do perdão e da concórdia. Aproveito para fazer, rapidamente, com o estimado leitor, um voo geral sobre este pedagógico caminho, onde o Senhor dá-nos profundas lições.


O capítulo dezoito começa com a pergunta dos discípulos sobre quem seria o maior no Reino dos Céus (cf. Mt 18,1). É quando o Senhor lhes responde, inserindo no meio deles uma criança, sentenciando: “Todo aquele que se fizer pequeno, como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus” (Mt 18,5). Logo, temos que a verdadeira grandeza é a humildade, a pequenez (cf. 18,1-6).

Em seguida, neste pedagógico percurso, cujo ápice é a caridade, temos a proposta da renúncia a tudo o que desmoraliza o cristão, evitando escândalos: “Por isso, se tua mão ou teu pé te leva a pecar [escandaliza], arranca-o e lança-o fora de ti; melhor te é entrar na vida [eterna] com um pé ou mão ao menos, do que, tendo duas mãos e dois pés, ser lançado no fogo eterno. E, se teu olho te escandaliza, arranca-o e lança-o fora de ti; melhor te é entrar na vida com um olho só, do que, tendo os dois, ser lançado no fogo do inferno” (Mt 18,8-9). Aqui, temos a séria proposta, critério de felicidade eterna, de afastar a nossa vida de tudo o que não é de Deus; que, antes, O contrista.

O Senhor também nos esclarece o objetivo de Sua missão salvadora como fisionomia plena do amor de Deus pela humanidade: “Porque o Filho do homem veio salvar o que tinha perecido” (Mt 18,11). É a partir desta comiseração que, incessantemente, o Senhor tem de ir ao encontro do pecador – inclusive para que O imitemos – que Ele nos conta a parábola da ovelha desgarrada (cf. Mt 18,12-14), concluindo-a: “Assim, não é vontade de vosso Pai que está nos céus, que pereça um só destes pequeninos” (Mt 18,14).

É, pois, com as lições da humildade, da renúncia e do zelo pelos irmãos, que o Senhor nos oferece a tarefa da correção fraterna, e, assim, entramos no cerne do trecho que escolhemos para a nossa reflexão de hoje: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo...” (Mt 18,15). Para esta correção, o grande pressuposto deverá ser sempre a caridade, o amor. Falando em caridade, recordemo-nos do que São Paulo, escrevendo aos Coríntios a sua Primeira Carta, nos diz: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, - pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei [...] O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei (Rm 13,8-10). Inclusive, esta é uma das ordens de Jesus na Última Ceia: “Dou-vos um novo mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12).

Partindo da correção fraterna, nasce o perdão: “Se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,19). E do perdão, chega-se à concórdia: “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,20). Isto faz-nos lembrar dos sentimentos das primeiras comunidades cristãs, onde “a multidão dos que criam tinha um só coração é uma só alma” (At 4,32), bem como da identificação revelada por Jesus acerca dos cristãos, Seus seguidores: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).


O coração e a alma dos cristãos devem ser o próprio Espírito de Cristo, que deseja nos enviar na concórdia que nos anima na superação dos empecilhos de amar. Peçamos a Sua ajuda para correspondermos a Cristo, que, em tão profundo anseio divino, deseja que sempre caminhemos nos Seu amor.

Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da paróquia São João Batista (Conj. João Alves).