• Pe. João Claudio

O choro de Jesus, o coronavírus e a Ressurreição



Na Sagrada Escritura e particularmente nos Evangelhos é comum encontrar Jesus, no cotidiano da missão, proclamando a Boa Notícia da salvação, curando pessoas, realizando sinais e prodígios. A vida de Jesus no Evangelho é repleta de encontros e um destes desperta atenção pois Jesus está numa situação na qual não é comum vê-lo. Jesus está chorando[1]. O choro é uma das expressões mais presentes na trajetória humana. O choro deriva até dos momentos de conquistas e alegrias, mas o choro revela também o desaponto, a tristeza pela ingratidão, pela ausência. Os pais choram – até escondidos dos filhos – quando estão sempre brigando, tomados pela sede da ganância, da opressão e da dominação que atinge os contornos sociais e econômicos.


A humanidade está enxergando Jesus chorando, desapontado pelos erros cometidos e pelo modo como tem sido tratada a Mãe Terra. No início do Livro do Gênesis, Deus coloca a Terra nas mãos da humanidade para que esta seja cuidada, para que surjam frutos e estes sejam partilhados[2]. Ao longo dos séculos, a Terra tem sido depredada e como os frutos derivam dos processos de dominação são apenas acumulados por poucos. Uma produção desumana tem ferido sistematicamente a finalidade, alma da Terra, ou seja, a hospitalidade. Os processos de produção redesenham uma Terra que não tem sido a Casa de portas abertas para acolher a todos. Há um mecanismo econômico que fere a Terra com as correntes da exclusão e isto faz Jesus chorar, ao ver tanta riqueza nas mãos de poucos e os Lázaros abandonados pelas ruas do Brasil e do mundo inteiro.


A face da terra está passando por uma forte turbulência. Trata-se de uma tempestade sem precedentes. Há a possibilidade de redescobertas que estão em curso e que darão frutos. Existem muitos gestos que ficarão no cotidiano das nações quando o mar se acalmar. Tais gestos abrirão os olhos da humanidade para enxergar e comprometer-se com o outro e banirão expressões conhecidas, como por exemplo: ‘Não é problema meu’. Grandes e ricas nações como China[3], EUA[4], Itália[5], Espanha[6], e outras experimentam o sabor amargo desta expressão. Se houvesse maior compromisso com o outro nos projetos políticos e econômicos, nos cenários nacionais e na comunidade internacional, a sociedade hodierna, no apogeu do desenvolvimento tecnológico não veria a soma de aproximadamente trinta mil pessoas mortas pelo coronavírus considerando somente os territórios chinês, estadunidense, italiano e espanhol. Até o momento cerca de duzentas pessoas[7] morreram vítimas do coronavírus no Brasil. O sangue destas pessoas chega até Jesus, que ouve o grito de Ressurreição.


O mesmo trecho do Evangelho no qual Jesus está chorando a morte de Lázaro mostra Jesus rezando e em seguida exclamando, ‘Lázaro, venha para fora’ (João 11,43). Este é o pedido de Jesus para todas as vítimas do coronavírus e significa que Jesus as convoca para que participem da Luz da Ressurreição. A Páscoa é o sacrifício de Jesus que caminha com toda a humanidade e convida para esta passagem da morte para a vida. Este pedido de Jesus não é feito só no momento da morte corporal, mas sobretudo enquanto a humanidade está empenhada na construção das mais variadas relações. Assim, ouvir o pedido de Jesus, ‘Lázaro, venha para fora’, tem outro significado: sair da escravidão para a liberdade, da indiferença para a fraternidade, do acúmulo vil para a partilha. Estas são passagens de Ressurreição, que exigem a saída da morte para a vida.

[1] “E Jesus chorou”. Evangelho segundo João, capítulo 11, versículo 35. [2] “E Deus os abençoou e disse: Sejam fecundos, multipliquem-se, encham a terra e a submetam”. Gênesis, cap. 1, versículo 28. [3] DIAS, Marina. EUA e França superam a China em número de mortes por coronavírus. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/eua-ultrapassam-3400-mortes-e-superam-china-em-numero-de-vitimas-do-coronavirus.shtml>. Acesso em: 01 abr. 2020. [4] Bem Estar, Por G 1. Últimas notícias de coronavírus de 1º de abril. Disponível em: <https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/04/01/ultimas-noticias-de-coronavirus-de-1o-de-abril.ghtml>. Acesso em: 01 abr. 2020. [5] BALMER, Crispian. Itália tem menos mortes por coronavírus no dia, mas número de novos casos cresce. Disponível em: <https://extra.globo.com/noticias/economia/italia-tem-menos-mortes-por-coronavirus-no-dia-mas-numero-de-novos-casos-cresce-24344010.html>. Acesso em: 01 abr. 2020. [6] CANOSO, Vanessa (CBN Internacional). Número de mortes por coronavírus passa de 43 mil no mundo. Disponível em: <https://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/296748/espanha-registra-novo-recorde-de-mortes-por-corona.htm>. Acesso em: 01 abr. 2020. [7] Nacional Jornal. Governo suspende por 60 dias aumento no preço dos remédios. Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/03/31/governo-suspende-por-60-dias-aumento-no-preco-dos-remedios.ghtml>. Acesso em: 01 abr. 2020. Pe. João Cláudio da Conceição é pároco da paróquia Nossa Senhora Aparecida (bairro Farolândia)

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