O “grito” do perdão



De que tipo é o olhar de Deus? De imediato, já na introdução desta nossa reflexão, respondemos: a mirada do Senhor penetra o âmago do nosso coração, o mais profundo do nosso ser; Ele “que não vê como homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração” (1Sm 16,7); Ele que “não despreza um coração arrependido” (Sl 50,17).


Nunca nos esqueçamos: a ação do amor de Deus é enfatizada em Sua misericórdia, que nos dá a paz, a única verdadeira; que, vinda do Alto, é duradoura e nos faz viver na graça divina. É justamente isto que a Igreja, pelo sacerdote, diz quando absolve os pecados, distribuindo o Sacramento da Penitência: “Deus Pai de misericórdia, que, pela Paixão e Morte do Vosso Filho, quis reconciliar o mundo Consigo, e enviou o Espírito Santo para a remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz”.


O serviço que dispensamos a Deus é o do amor a Ele e aos irmãos, que contempla, inclusive, o perdão; um perdão, quiçá, imolativo: “Não há maior prova de amor que dá a vida pelos amigos” (Jo 15,13); um amor doado, que nos beneficia grandemente, a nós que granjeamos sempre e em profusão a misericórdia divina: “Se não tem compaixão do seu semelhante, como poderá pedir perdão dos seus pecados?” (Eclo 27,4).


Falando em perdão, no Evangelho de São Mateus, temos dois grandes gritos de misericórdia: o “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,12), presente no Pai-nosso, ensinado por Jesus no Sermão das Bem-Aventuranças, e os gritos presentes na célebre parábola do Servo sem entranhas (cf. Mt 18,23-35): “Dá-me um prazo, e eu te pagarei!” (Mt 18,26.29). Deus escuta todos os gritos de misericórdia que Lhe elevamos. A Sua onipotência não é indiferente à nossa humilhante situação pecadora. E, assim, as repetidas circunstâncias do “setenta vezes sete” nunca esgota a infinitude do amor divino por nós. Deus tudo perdoa ao arrependido porque tudo pode Ele fazer.


Em mais uma vez, Jesus, para retratar a altura dos Seus mistérios, conta-nos uma parábola, iniciando-a: “O Reino de Deus é como...” (Mt 28,23). Este comparativo estabelecido por Nosso Senhor tem como intenção afirmar que o Reino é do Autor do perdão, cuja essência é ser amor (cf. 1Jo 4,16); Daquele que é a nossa paz e nossa união (cf. Ef 2,4). Esta realidade de Reino tem destinatário: somos nós, porque é “para” os redimidos; é, portanto, nosso. Justamente para nós e nosso, que alvejamos, após a grande tribulação, as vestes da nossa alma no sangue do Cordeiro, que nos reconcilia com Deus (cf. Ap 7,14).


Porém, percebemos na parábola apontada acima uma forte incongruência no homem que implorou a misericórdia do seu rei perante a sua enorme dívida, mas não foi capaz de perdoar o seu companheiro, que lhe devia uma mixaria. Por vezes temos esse paradoxo perigoso em nós: mendigamos o perdão de Deus, mas somos mesquinhos em amar diante de uma simples mágoa; somos lentos no ato de “misericordiar”, conforme a expressão alcunhada pelo Papa Francisco. Quando isto acontecer, quando os ecos do rancor ressoarem em nós, tenhamos aos olhos: “Lembra-te do teu fim e deixa de odiar; pensa na destruição e na morte, e persevera nos mandamentos. Pensa nos mandamentos, e não guardes rancor ao teu próximo. Pensa na aliança do Altíssimo, e não leves em conta a falta alheia!” (Eclo 28,9). E, com tais meditações, perfuraremos a rocha duríssima do nosso egoísmo.


Que o Senhor das misericórdias nos auxilie sempre em atitudes amoráveis e misercordiosas!


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da Paróquia São João Batista (Conj. João Alves).