O misterioso caminho da cruz

Padre Everson Fontes Fonseca,

Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)


Quais os pensamentos de Deus? Em que consiste a Sua sábia lógica? Como esta vontade divina deve ser abraçada por nós, que desejamos fazer com que ela seja intensamente vivida?


Escrevendo à Igreja de Cristo que está em Roma, o grande São Paulo, absorto diante da sabedoria de Deus, louva-a: “Ó abismo de riqueza, de sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos! Quem pode compreender o pensamento do Senhor? Quem jamais foi o seu conselheiro? Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído? Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém” (Rm 11,33-36). Com esta homenagem feita pelo Apóstolo, abstraímos, não somente os atributos da ciência do Senhor, como também as respostas para as indagações que fazíamos há pouco.


Os pensamentos divinos são, como figura Paulo, um abismo de riqueza, de profundidade infinita, no qual somos convidados a, como critério de fé e satisfação interior, nos lançarmos; juízos impenetráveis, caminhos inexploráveis dos quais se o homem extrai uma mínima quantia da sua infinita medida, destaca-se igualmente sábio, porque foi bonificado pelo próprio Senhor com tamanho dom. Ser sábio diante de Deus – e, diante dos homens, com a sabedoria divina – é lançar-se, sem reservas ou temores, no insondável pensamento do Senhor, naquela mesma estupefação do salmista: “É um saber maravilhoso, e me ultrapassa, é alto demais: não posso atingi-lo! […] Mas, a mim, que difíceis são teus projetos, Deus meu, como sua soma é grande! Se os conto… são mais numerosos que areia! Se pudesse terminar, seria ainda com vossa ajuda” (Sl 139,6.17-18).


Diante da Sabedoria, Jesus Cristo, que expõe aos Seus discípulos como haveria de salvar-nos, pelo mistério da dor, do sofrimento, da cruz e da ressurreição (cf. Mc 8,27-35), temos Pedro, excedendo-se em estupor, sendo uma espécie de porta-voz dos outros todos assustados discípulos, que toma Jesus à parte para repreendê-Lo. E, censurando aquele que – não há muito – havia reconhecido o Cristo-Deus, é que Jesus também se dirige a nós, que tememos a Sua ação sapiente e providente na condução da nossa vida para a salvação: “Vai para longe de mim, satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens” (Mc 8,33). Assim, quando não estamos dispostos a mergulhar de cabeça, confiantemente, nos insondáveis desígnios do Senhor, que perpassam a nossa existência, agimos como subversores da ação divina, tal como o diabo. Se aceitássemos as dificuldades consentidas por Deus na nossa vida como participação nos Seus insondáveis pensamentos… Não nos iludamos: é pela fé irrestrita que abraçamos a misteriosa vontade de Deus.




Sofrendo dificuldades e humilhações, porque estava aberto aos planos de Deus pela escuta atenta à Palavra, assentindo à fidelidade do Senhor, aquele "servo sofredor" (cf. Is 50,5-9) - a quem tradição cristã entrevê como relacionado ao Cristo padecente - não retira do seu coração a confiança incondicional, mesmo sabendo que muitos não o entenderão. O caminho da provação é ocasião a que nos desarmemos de nós mesmos, dos nossos conceitos, falsos respeitos humanos e dos nossos interesses mesquinhos e sem Deus; do amor-próprio e do orgulho que, tantas vezes, cultivamos em nosso coração, que estimamos. Por isso, Jesus, para fazer a proposta do desapego de si, precisar, chamando a todos, inclusive os discípulos: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho vai salvá-la” (Mc 8,34-35).


É nobre desgastar-se por algo que vale a pena. Assim, não existe nobreza maior do que se desgastar, se anular por Deus, vivendo, com entusiasmo, coragem e alegria a Sua sabedoria em nós. Carregando a nossa cruz, imitando o Senhor, tendo-O à nossa frente… “Se morremos com Cristo, cremos que viveremos também com ele” (Rm 6,6). Isto é ganhar, salvar a vida, porque, como afirma São Paulo: “os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rm 8,18); ou ainda: “A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável” (2Cor 4,17).


Somos conscientes de que a fé é uma prática de vida, porque é virtude, força, e não mero sentimento. Viver de fé e viver a fé é praticar as boas obras, inclusive auxiliando os irmãos a carregarem as suas cruzes pessoais de cada dia. A fé é um serviço à comunidade, e não somente um evento subjetivo de sentir Deus, num soberbo desenvolvimento de si, porque “a fé, se não se traduz em obras, por si só está morta” (Tg 2,17).


Frutifiquemos na sabedoria divina pelo mergulho sem receio da fé. Fazendo sempre a vontade de Deus, sem reservas, confiantes, desapegados de nós mesmos, aprendemos a amar mais e a servir melhor a Cristo sofredor nos irmãos que, com Ele, sofrem.