O Pão vivo e os seus frutos



A catequese eucarística, oferecida por Nosso Senhor no capítulo sexto do Evangelho segundo São João, encontra o seu ápice nas palavras emanadas dos lábios admiráveis de Jesus: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo 6,51).

Antes, porém, de mergulharmos, com maior afinco, na afirmação do Senhor, pensemos numa passagem do Antigo Testamento, e que é tida como prefigurativa da Divina Eucaristia: Elias e a sua experiência à sombra do junípero quando estava a caminho do Horeb (cf. 1Rs 19,4-8). Neste episódio, é perceptível uma idealização da Eucaristia, ou pelo menos do seu efeito fortalecedor na vida dos comungantes.


Vemos o profeta Elias que, imediatamente após a manifestação de Deus no monte Carmelo contra os profetas de Baal, está ameaçado de morte por Jezabel, esposa de Acab, rei da Samaria. Entristecido e temeroso, o profeta, no deserto, senta-se debaixo de um junípero. Desejando a sua própria morte, adormece aí. Inesperadamente, Elias é acordado por um anjo que lhe ordena: “Levanta-te e come!” (1Rs 19,5). O tesbita obedece, come pão e torna a deitar-se, ao passo em que o anjo novamente ordena: “Levanta-te e come! Ainda tens um longo caminho a percorrer” (1Rs 19,7). E assim o fez. A partir disto, Elias andou quarenta dias até o Horeb.


Na Eucaristia, isto também acontece conosco. Nas aflições da vida, quando somos ameaçados pela força do mal – que nos aterroriza e ronda, tentando-nos afastar de Deus –, quando acreditamos estar abandonados à nossa própria sorte, somos convidados pelo próprio Senhor a nos alimentarmos por um pão oferecido por Ele mesmo, tal como o anjo fez com o profeta Elias. Mas, ao contrário do alimento servido pelo anjo, é Cristo mesmo quem Se nos dá no misterioso Pão Eucarístico. Se temos a informação de que, nutrido pelo pão dado pelo anjo, o Profeta Elias teve forças para caminhar por quarenta dias e quarenta noites, pelo deserto, até chegar ao monte de Deus, sabemos que o número quarenta, adicionado ao termo deserto, simboliza tanto a provação como a renovação espiritual. E, assim como Elias, interiormente renovado, peregrinou até o Horeb após a provação, nós, que degustamos o Corpo do Senhor, após o vencimento daquilo que obstaculiza e nos quer tornar sujeitos ao mal, peregrinamos nas trilhas da vida rumo à verdadeira montanha do Senhor, o tabernáculo do Altíssimo: o Céu.


Mas, voltemos ao Evangelho. São João, o Teólogo, mostra-nos Jesus a afirmar ser o Pão descido do céu (cf. Jo 6,51), acenando, não a multiplicação dos pães em si, mas um milagre muito maior e mais profundo: o próprio Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que Se faz pão para dar vida. Neste sentido, a Igreja sempre se debruçou e viu, nesta alocução do Senhor, um apontamento direto à Eucaristia. Por isso, sabemos que, pela participação eucarística, antegozamos a Vida sempre nova que brota do Cristo. A Eucaristia gera Vida em nós através desta consciência, pois faz-nos inquietos para uma adesão a uma mudança constante e radical de conduta, divinizando-nos em Cristo. Daí, Bento XVI afirmar na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis: “De fato, comungando o corpo e o sangue de Jesus Cristo, vamo-nos tornando participantes da vida divina de modo sempre mais adulto e consciente” (n. 70).


Aos fiéis comungantes, estão reservadas algumas recompensas. Estas não nos são ofertadas pelos nossos méritos, pois estamos bem aquém de merecer tão inenarrável dom. Estes tesouros da vida divina são dados pela imensa bondade de Deus para com aqueles que são sensíveis, pela fé, ao próprio Senhor, desejando sempre viver unidos ao Ser Divino. A Eucaristia, assim como o Batismo e a Confirmação, faz-nos “saborear os tesouros da vida divina e de progredir até alcançar a perfeita caridade” (Papa São Paulo VI. Constituição Apostólica Divinae consortium naturae, 1).

A Divina Eucaristia aumenta a nossa união com Cristo, nosso Senhor, fazendo com que a nossa vida seja íntima a de Jesus. Aliás, esta é uma promessa dele: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim.” (Jo 6,56-57).


O “Fruto do Altar” produz em nós o aumento da graça batismal. Desde o nosso nascer para a fé, que se dá quando ressurgimos nas águas vivificantes do Batismo, até o momento do nosso último respiro nesta terra, somos chamados a conservar, aumentar e renovar a vida da graça, a vida de Deus embutida em nós. Para o desenvolver da vida cristã se faz mister que o fiel seja alimentado pelo “Pão dos Viandantes” até o momento do nosso ingresso na Pátria Celeste.


A Eucaristia previne-nos do mal, separando-nos do pecado. Esta é outra garantia de Jesus quando afirma textualmente que o cálice do Seu Sangue será “derramado por todos para a remissão dos pecados” (Mt 26,28). A Eucaristia não nos une a Jesus sem que tenhamos nos purificado dos pecados que cometemos e sem, ao mesmo tempo, poupar-nos dos pecados futuros. Porquanto, entendemos o Augustíssimo Sacramento como um remédio que nos garante a pureza, previne-nos e purifica-nos do pecado, pois “se, toda vez que o seu Sangue é derramado, o é para a remissão dos pecados, devo recebê-lo sempre, para que perdoe sempre os meus pecados. Eu que sempre peco, devo ter sempre um remédio” (Santo Ambrósio. Sobre os Sacramentos 4, 28).


Jesus Sacramentado, fortalece-nos na caridade para que não sejamos suscetíveis às tentações. O mesmo Jesus, que é exemplo de misericórdia, vivifica-nos no amor, ao tempo em que apaga os nossos pecados veniais, fazendo-nos repousar em seu Divinal Coração. Este antídoto contra o mal também é eficaz no tocante ao pecado mortal, pois quanto maior for a nossa intimidade com o Senhor, maior dificuldade o Maligno terá para nos separar bruscamente do “Amado de nossa alma”. Sabemos que cada sacramento possui a sua função na vida do cristão. O Sacramento da Penitência é o único que pode perdoar os nossos pecados graves. Logo, a Eucaristia não está destinada ao perdão dos pecados mortais, mas é apropriado para os que estão na comunhão da Igreja.


Unamo-nos, pois, intimamente a Deus pelo Pão Eucarístico. Dele, não somos dignos. Mas, por pura misericórdia divina (derramada imensamente no Sacramento da Penitência), dignificados pelo próprio Deus, que Se nos propõe e nos convida a que O degustemos, não façamos pouco caso de recebê-Lo no alimento de vida e de imortalidade, como se configura o Fruto do Altar.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)