O papado sobreviverá?

Pe. Cássio. S. Souza*


Por que ofendem tanto o Papa Francisco nas Redes Sociais?


Quem são esses católicos que em vídeos alarmam antes das decisões papais e após o Papa Francisco manter a doutrina em seus escritos ou fala, elogiam?


O que leva os agressores a ofender o Papa Francisco não é a fé. É a política.


São católicos radicais, liberais e ultraconservadores contra a esquerda e o comunismo. Esses católicos talvez não tendo lido os documentos sociais da Igreja, e observe se leram os documentos do Papa Francisco e até mesmo dos seus antecessores, pensam mais politicamente do que catolicamente!


Lembro ao leitor que estudou história ou quem tem memória histórica que três Papas entre meados do século XX e atual século XXI, receberam os líderes mundiais e personalidades de importância para uma cultura de paz!


João XXIII acolheu Rada Kruschev (filha do ex-líder soviético Nikita Kruschev, no dia 7 de março de 1963).


João Paulo II recebeu Mikhail Gorbachev. (Três meses depois de João Paulo II receber Mikhail Gorbachev no Vaticano, em dezembro de 1989, a Santa Sé estabeleceu relações diplomáticas com a União Soviética. Foi um passo adiante no combate ao comunismo, que contribuiu decisivamente para o fim da Cortina de Ferro).


No cárcere de Rebibbia, em Roma, há exatamente 35 anos, João Paulo II encontrava Mehmet Ali Ağca. Era 27 de dezembro de 1983 quando o terrorista, que cumpria pena na prisão, recebeu o perdão de Karol Wojtyla.


Lembro que três papas se encontraram com o ditador comunista cubano: São João Paulo II, Bento XVI e o Papa Francisco.


  • São João Paulo II, o Papa polonês foi o primeiro a visitar a ilha, a convite do próprio Fidel. Em 19 de novembro de 1996, o Santo Padre, notório detrator de toda ideologia que tente impedir o homem de se aproximar de Deus, tinha recebido Fidel Castro no Vaticano e ouvido dele o convite a visitar a ilha. O então mandatário reconheceu, na ocasião, o compromisso da Igreja católica no âmbito da educação e da assistência social ao povo cubano. “Que Cuba se abra ao mundo com todas as suas magníficas possibilidades, e que o mundo se abra a Cuba”: esta tornou-se a frase-símbolo da histórica visita de São João Paulo II ao país em janeiro de 1998. O Santo Padre foi imparcial: criticou o embargo norte-americano e criticou a repressão imposta pelo regime às liberdades civis. No último discurso do Papa em Cuba, chovia. O Santo Padre, inspirado, declarou: “A chuva nas últimas horas da minha estada em Cuba pode significar um advento. Meu desejo é que esta chuva seja um bom sinal de um novo advento na sua história”.


  • O Papa Bento XVI recebeu Fidel Castro na nunciatura apostólica de Havana, onde ambos falaram sobre um assunto inesperado: Fidel disse ter notado algumas mudanças na liturgia católica em comparação com o rito que conhecera na juventude, e o Santo Padre lhe explicou o sentido dessas alterações, além de abordar a questão da liberdade religiosa, tema ainda espinhoso na ilha. Os dois recordaram também a memória de São João Paulo II, o pontífice que passou mais tempo com o líder cubano. Fidel chegou a agradecer a Bento XVI por ter canonizado o pontífice antecessor.


  • Na visita a Cuba em setembro de 2015, o Papa Francisco se encontrou com Fidel depois de declarar em alto e bom som, na homilia da missa celebrada em plena Plaza de la Revolución: “Não se serve a ideologias. Serve-se a pessoas”. Papa Francisco é apontado como um dos grandes responsáveis pela reaproximação entre Cuba e os Estados Unidos, que visa melhorar a vida da população cubana com a abertura da ilha ao mundo e o consequente aumento da transparência nas políticas de respeito aos direitos humanos, ainda limitados no país comunista, quando não ativamente reprimidos.


Só os que não conhecem a postura de um papa e a história da Igreja estão apavorados (ou demasiado entusiasmados) com o encontro entre Francisco e Lula no Vaticano... Foi uma visita, não uma canonização, nem uma confissão sacramental...


Em um Twitter do dia 14 de fevereiro de 2020, a Santa Sé desmente que Lula tenha recebido uma benção papal: Circula nas redes sociais que o Papa Francisco concedeu uma bênção conhecida como "benedictionem et innocentum" ao ex-presidente Lula. VaticanNews informa que se trata de uma inverdade.


Esses youtubers católicos ou comentaristas de rede social sem credibilidade histórica e teológica para a academia, afirmam que o Papa Francisco está sendo o anticristo da Igreja porque está mudando a Igreja! Anunciam um apocalipse eclesial envoltos por uma teoria da conspiração de jerico. Esses “jornalistas sem relevância para a academia” e youtubers, “alertaram o mundo” de que o papa extinguiria o celibato – como se fosse possível fazer isso numa exortação apostólica! Isso para vocês perceberem o quanto esse pessoal é embasado.


Quero dizer ao leitor católico, que o papado não mudará! O Papado sempre mudou o tempo todo – e muda até hoje. É uma instituição orgânica, profundamente arraigada no passado e capaz de revigorar-se e renovar-se a cada ano que passa.


Lembro que as transformações por ele sofridas desde o pontificado João XXIII, com o Concilio Vaticano II, foram inéditas, e estão ainda sendo absorvidas, adaptadas e modificadas. Promoveram-se mudanças equivalentes sob o atual Papa Francisco, que converteu o pontificado numa grande máquina de solicitude pastoral. Essas mudanças não só irão prosseguir como devem acelerar-se e intensificar-se. O mundo muda, e o mesmo acontece com a Igreja Católica. As maiores áreas de crescimento numérico da Igreja agora são a África, a América Latina e partes da Ásia.


O pontificado vai tornar-se mais internacional. Serão eleitos papas da Ásia, da África e das Américas. E já temos essa internacionalização do papado com Francisco. E os pontífices continuarão a, de tempos em tempos, convocar concílios ecumênicos, que refletirão tais deslocamentos do centro de gravidade da Igreja e introduzirão as mudanças na organização, no culto e na interpretação da doutrina que se fizerem necessárias. O pontificado muda, os papas vêm e vão, mas a fé permanece – tal qual Jesus Cristo confiou a seus apóstolos, encabeçados por Pedro, e este e seus sucessores transmitiram ao mundo por dois mil anos.


*Padre Cássio S. Souza é pároco na Paroquia São José de Anchieta

Graduado em Teologia pela UNICAPE

Arquidiocese 

aracaju

de

Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Aracaju

Praça Olímpio Campos, 228, Centro, Aracaju/SE - CEP: 49010-040

E-mail: comunicacao@arquidiocesedearacaju.org / Telefone: (79) 3216-3000