• Pe. Everson Fonseca

O retrato da Sagrada Família para nós


“Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas. E Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lc 2,51-52). Que bela imagem! Que modelar exemplo o da família de Nazaré! A imagem de uma prole obediente aos seus pais, e, estes, por sua vez, piedosos na interpretação dos fatos concernentes à vida familiar segundo a luz de Deus, achando no que é corriqueiro, inclusive nas preocupações, a vontade do Senhor. Creio que o modelo da Família de Jesus, Maria e José, contrastando com a realidade das nossas famílias, oferece ao lar cristão muitos indicativos para uma salutar vivência familiar, sempre baseada nos valores inspirados pela Sã Doutrina, presente nas Escrituras Sagradas. Acredito ainda que, por mais que elucidemos, muitos e muitos outros exemplos de aplicação desses conselhos não serão comportados por nossa meditação.


Por causa do amor de Deus que nos acompanha, deveremos amar-nos, a começar pelos nossos lares. E a partir das nossas atitudes cotidianas, amemos as pessoas, principalmente aquelas que nos rodeiam, e a quem damos a intimidade de descobrirem quem somos, inclusive nos nossos defeitos e limitações. Estes, por primeiro, deverão sentir este amor de Deus, tendo-nos como canal desta mesma afeição. E mais: eleitos por Deus para a santidade, tomaremos posse desta condição com os bons sentimentos que, no nosso cotidiano, demonstramos como sendo de Deus, que age em nós e por nós. Somente assim, santificados por Deus, seremos capazes de santificar, colaborando com esta obra de Deus também na vida dos outros, e, no caso da família, na vida daqueles aos quais o Senhor nos confiou como filhos, como pais ou ainda como parentes outros. É para eles, principalmente, que se dirigirá o nosso testemunho cristão.


A partir do amor de Deus que nos elege para a santidade, desenvolver-se-ão a sincera misericórdia, a bondade, a humildade, a mansidão, a paciência (cf. Cl 3,12). Tudo isto como elementos propícios ao perdão e à consideração de uns para com os outros. Agora, é interessante perceber: como num movimento de curvatura parabólica, iniciado no amor de Deus, que se encarna à vida e ao recinto familiar, domiciliar, estas atitudes a serem desenvolvidas num exercício diário, principalmente nas provações e dificuldades que as famílias atravessam, deverão retornar para Deus, como amor, numa resposta sempre amorosa. E isto São Paulo pormenoriza, quando diz, exortando e apostando na comunhão familiar: “Esposas, sede solícitas para com os seus maridos, como convém, no Senhor. Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, pois isso é bom e correto no Senhor. Pais, não intimideis os vossos filhos, para que eles não desanimem” (Cl 3,18-21).


Perceba, caro leitor, que Deus, nesta exortação de São Paulo é a medida para todas as relações. Uma medida tipicamente ilimitada, porque faz parte de Sua natureza divina. Logo, é um chamado ousado o da vivência dos valores familiares, que supera as nossas limitações, que, por vezes, são medíocres, tacanhas. E por que muitas famílias se desfazem? Porque tentam apenas uma, duas, dez, vinte vezes, a vivência do amor, e nunca no constante perdão. Já pensaram se Deus desistisse de nós na vigésima vez dos nossos pecados? Esta ousadia é difícil? Com certeza! Mas, não impossível. Se o fosse, o próprio Deus não nos pediria tal ventura.


Deus sempre deverá ser a medida de todos os sentimentos familiares, tal como dissemos. Entretanto, como poderá se sustentar uma família se esta exclui Deus, esquece-se Dele, fundamenta-se em paixões, em prazeres, em objetos que propiciam uma falsa união? E percebam mais: até o próprio Sacramento do Matrimônio, realidade divina que une dois corações humanos que se amam, tende a ser relegado a um momento posterior (quando acontece…), ou mesmo é desprezado numa aventura que se baseia no medo e na desconfiança de um para com o outro, em se tratando dos casais, e numa união meramente carnal para a procriação, e não como uma resposta de amor a Deus; resposta da qual nasce vida: os filhos. E neste pensamento: como, hoje, as famílias se estabelecem no pecado, como se isto fosse uma realidade conatural à nossa existência humana e proporcionadora de verdadeiras paz e felicidade. E, da mera atração, para o pecado pensado, ratificado na vida de tantos que se dizem cristãos, mas não querem viver com a consciência límpida diante dos mandamentos de Deus, dos sacramentos deixados por Jesus.


A Sagrada Família faz-nos pensar em muitas outras querelas. Mas, fiquemos com estas. E que elas nos incomodem bastante. Faço votos, como ministro de Deus, como pastor da Santa Igreja, que os pais cristãos se espelhem em Maria e em José, nos seus silêncios orantes, permeados de Deus. Por vezes, nada entendendo, mas relacionando os seus cotidianos com a vontade do Senhor, inclusive no tocante à comunhão de vida, que independe de uma relação sexual. Que os filhos aprendam de Jesus no desenvolvimento etário, psicológico, mas tudo isto harmônico a um desenvolvimento espiritual, seja diante de Deus, seja, como testemunhas de piedade, diante dos homens.


Padre Everson Fontes Fonseca é pároco da paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro (Aracaju).

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