O sacrificar-se em Cristo



Na cultura do confortável, do prático e do facilmente solucionável, percebe-se certa aversão a determinados termos, o que não difere da palavra “sacrifício”.


Bem anima-nos São Paulo: “Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12,1). Assim, elucidemos o significado do vocábulo sacrifício: proveniente do latim, traz-nos a ideia de tornar sagrado. E outras palavras se associam a ela como hóstia, vítima, oblação, imolação…


Muitas são-nos as ocasiões de sacrifício: doenças, contrariedades, dissabores... A mensagem cristã não se dissocia disto porque o próprio Jesus nos deixou tal imperativo: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (Mt 16,24-25). Por sua vez, São Josemaría Escrivá escreve, como forte exortação: “Bebamos até a última gota o cálice da dor na vida presente. -Que importa padecer dez, vinte, cinquenta anos..., se depois vem o Céu para sempre? [...] Que importa padecer, se se padece para dar gosto a Deus Nosso Senhor, com espírito de reparação, unido a Ele na Sua Cruz..., numa palavra: se se padece por amor” (Caminho, 182).


O mundo, com a sua lógica falida, ojeriza o ato de sacrificar-se. Isto é retratado pela repreensão de Pedro a Jesus, do Mestre pelo discípulo: “Deus não te permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça! (Mt 16,22). Pela reprovação, aquele que havia sido denominado pedra de edificação da Igreja de Deus (cf. Mt 16,18) é chamado de satanás e de pedra de tropeço (cf. Mt 16,23). O cristão que rejeita alguma modalidade de sacrificar-se na vida torna-se isto: atrapalhação dos planos de santificação de si mesmo proporcionado por Deus e Seus desígnios.


Até da Missa, querem dispensar a dimensão sacrifical, que lhe participa à essência. Quando isto acontece, esvazia-a de seu sentido mais profundo e elevado, num vão intuito de fazer dela uma mera convivência, onde, sob aplausos, ovações e agitações, todos devem se sentir confortavelmente bem, como se estivessem numa convenção ou num clube. Não nos esqueçamos nunca: a Missa é o sacrifício de Cristo, escondido e silencioso; continuidade do Calvário; sua atualização. Não se pode fazer o quer no Sacrifício do Senhor, profanando-O, ainda que o mundo admire somente o sacrifício com espetáculo.


E uma pergunta poderá nos vir: como não me acovardar na minha atitude pessoal de sacrificar-me com Cristo? A resposta é simples: amar Deus e deixar-se amar por Ele. E isto confessou já Jeremias, no Antigo Testamento: “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder. [...] Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem forças para suportar” (Jr 20,7.9).


Seja o amor, também em nossos corações - por vezes comodistas e convenientes -, combustível para inflamar-nos em imolação a Deus nos vários e misteriosos momentos da nossa existência, participando, desta forma, do sacrifício de Cristo, único e perfeito. Tomando parte, ativa e consciente, da Sua oferta perfeita ao Pai no Espírito Santo, teremos em Cristo Jesus a nossa única satisfação de viver.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da Paróquia São João Batista (Conj. João Alves).