O Silêncio do Senhor



Diante de um mundo tão ruidoso, barulhento e de informações instantâneas, onde aquele que é ávido "não leva desaforo para casa", onde tendemos a dar respostas com palavras - e quem sabe até como se a nossa fala fosse a definitiva e a correta -, temos a grande lição de silêncio e compenetração do Cristo, apresentada em Sua Paixão pelos evangelhos.


"Inocente, Jesus quis sofrer pelos pecadores. Santíssimo, quis ser condenado a morrer pelos criminosos" (Prefácio: A Paixão do Senhor). Nas Suas inocência e santidade, nos Seus sofrimentos e condenação, o Senhor não abriu a boca. Cristo é o Verbo, a Palavra de Deus, mas, naquele momento crudelíssimo da Cruz, não pronuncia vocábulo algum; Aquele que convence à fé pelo Evangelho, cuja palavra curou e ressuscitou vidas e corações. Entretanto, o silêncio eloquente de Jesus não é estéril; antes, produz muito fruto, o máximo fruto que se pode avaliar.


"O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida" (Is 50,4). Este silêncio ensurdecedor de Cristo fala ao coração de tantos sofredores do corpo ou do espírito; fala-nos nestes dias tão difíceis que se misturam - ou melhor: se harmonizam - com a profundidade da Semana Santa. O silêncio de Jesus é destreza para apaziguar-nos com Deus e conosco mesmos.


A quietude de Jesus inquire-nos. Diante dos sofrimentos, é ensinamento a encará-los de frente, paciente e heroicamente: "O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas" (Is 50,6). Mas, longe de ser um masoquismo, um comprazer-se com a dor, com o sofrimento, é uma oportunidade irrecusável de viver a confiança e a esperança em Deus, porque "ele é o meu auxiliador, por isso não deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado" (Is 50,7). Para nutrir tais sentimentos, tais virtudes, é preciso escutar, atentamente, Deus, com o ouvido de discípulo. Cristo fala no Seu silêncio, porque fala o que viu junto do Pai (cf. Jo 8,38). A nossa discreta e silenciosa, porém verdadeira convicção em Deus, só nos será possível se aquietarmos o coração para escutá-Lo atentamente, e, mediante esta audição, nascerão em nós as virtudes que farão frente ao sofrimento.


Santo Tomás de Aquino, falando-nos de como a Paixão do Senhor nos serve de exemplo, dirá: "Se buscamos um exemplo de paciência, na cruz encontramos o melhor de todos. A paciência verdadeira se mostra de duas maneiras. Ou quando alguém sofre grandes males pacientemente, ou quando sofre males que poderia evitar, mas não evita. Ora, Cristo na cruz sofrera grandes males. [...] E os sofreu pacientemente, pois Ele, 'ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje' (1Pd 2,23), mas como um 'cordeiro que se conduz ao matadouro', Ele estava como 'uma ovelha muda nas mãos do tosquiador' (Is 53,7)" (Expositio in Symbolum Apostolorum, a. 4).


O silêncio de Cristo é edificante à humanidade e é máxima expressão de louvor a Deus, porque, silencioso, humilhou-Se, obedientemente, até a morte de cruz (cf. Fl 2,7). É por isso que os evangelhos demonstram, ao lado do Seu silêncio, a oração de Jesus nas famigeradas “Sete Palavras”, que abre a boca não para maldizer, reclamar ou castigar, mas para salmodiar, cantar a Deus. Um canto estrondoso que abala estruturas, após um silêncio perturbador. E, na melodia harmoniosa de silêncio e louvor, o Cristo abala os corações daqueles que O assistiam em Sua Paixão, a tal ponto de, nalguns deles, gerar a fé e testificarem: "Ele era mesmo Filho de Deus" (Mt 27,54).


A meditação sempre nos aconteça diante da nossa participação ativa e frutuosa nos sofrimentos de Cristo, para que muitos se convertam pelo nosso testemunho de silêncio e resignação aos planos misteriosos e salvíficos de Deus.


Padre Everson Fontes Fonseca, presbítero da Arquidiocese de Aracaju.