O sopro de Deus



Quando da Sua Ascensão, o Senhor Jesus prometeu a Sua constante presença na Igreja “[...] eis que Eu estarei convosco até o final dos tempos” (Mt 28,19); ou, ainda, podemos recordar-nos da mesma promessa em outros termos: “Eu enviarei Aquele que meu Pai prometeu” (Lc 24,49). E, desta maneira, para não nos deixar desassistidos, em Pentecostes, o Senhor Jesus Cristo cumpriu o Seu juramento em união com o Pai, enviando o Espírito Santo, Pessoa divina que procede do Pai e do Filho.


As Sagradas Escrituras apresentam duas versões deste mesmo evento. E, antes mesmo de pensarmos qual anula a outra em verdade, digo-lhes que ambas se complementam, já que há um mesmo Espírito (cf. 1Cor 12,4.13). Os Atos dos Apóstolos oferecem-nos o Pentecostes cronológico, ou seja, como, temporal e espacialmente, o Espírito Santo foi derramado (cf. At 2,1-11). Já no Evangelho de João, temos o Pentecostes teológico, acontecido em dois momentos como numa só realidade. Detenhamo-nos, para esta nossa pequena reflexão, à versão teológica trazida pelo evangelho joanino, que alude ao sopro de Jesus.


São João é bastante claro quando diz que, no madeiro, “Jesus entregou o Espírito” (Jo 19,30). Dando muito mais do que um último suspiro, o Senhor nos concedeu, pelo Espírito Santo, a vida divina. Na Sua ressurreição, o Senhor, soprando, ordena aos Apóstolos e, neles, à Igreja: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Assim, da Cruz à ressurreição, e da manhã de Páscoa à de Pentecostes, um só é o sopro, o hálito divino que repercute em toda a vida da Igreja e dos cristãos como coroamento, plenitude dos mistérios pascais.


Depois de entregar o Espírito à Igreja, os discípulos receberam do Senhor a informação do poder que “têm”, outorgado pelo Espírito do Ressuscitado, soprado ao coração desta mesma Igreja. Este poder é força de Deus, que visa dar vida nova, a da graça, aos que a desejam, buscando-a nos sacramentos: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados” (Jo 20,23). E, com a imagem do perdão divino como representativo desta vida do Espírito em nós, evidencia-se a figura do Espírito Santo como dedo da “direita do Pai” (cf. Hino das I e II Vésperas de Pentecostes), que toca, reanima e vivifica ao que é tocado.


Pelo poder Daquele que é o amor entre o Pai e o Filho, o Espírito Divino, a Igreja é governada numa sincronia perfeitamente harmônica, tal como um corpo saudável, cujos membros, todas as classes de fiéis, se coordenam por aquele que é a Cabeça, o próprio Deus. A Igreja, como um barco à vela, singra os mares do mundo levada pelo sopro de Deus, o Espírito Santo. Conduzindo a nossa vida particular pelos influxos e inspirações do Espírito Criador, por nossa vida na graça, a “Senhora Católica” é conduzida à perfeição de Cristo, que a presenteia com a Sua presença, não deixando minguar a Sua mais dileta obra; antes, ampara, sustenta, assiste, afervora e faz crescer na santidade, sempre pelo mesmo Paráclito, aquela a quem ornou de benefícios, fazendo-lhe Sua Esposa sempre bela e renovada.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da Paróquia São João Batista (Conj. João Alves)