Obrigado, Dom Mário Sivieri

Jerônimo Peixoto


No último dia 03, deixou-nos, para entrar no Paraíso, Dom MÁRIO RINO SIVIERI, bispo emérito de Propriá. Em rápida cerimônia, bispos e padres se despediram dele, em nome dos sergipanos que, devido à COVID-19, não puderam se fazer presentes ao velório ou ao sepultamento, senão tão somente pela mídia social.


Dom Mário foi um grande homem e merece o reconhecimento de todos os sergipanos, mesmo discordando de suas ideias pessoais ou de sua metodologia de trabalho. Em primeiro, ele, sendo italiano, muito novo, aos 28 anos, desejou ser missionário no Brasil, quando veio diretamente para a Diocese de Estância. As dificuldades com a língua, com a cultura local, com o jeito sergipano de ser o fizeram sofrer bastante, no início. Certa feita, me confidenciou que chegava a ser chocante o modo de vida das pessoas pobres, tão humilhadas, se comparadas ao que era vivido na Europa de há cinquenta anos.


Cuidou, quando padre em Lagarto, de se enfronhar no meio educacional, marcando fortemente as instituições de ensino na Região Centro-Sul do Estado. Sempre cuidou de manter intensa ação social, com o fito de minorar a dor e o sofrimento das famílias mais excluídas. Aliás esse era um costume dos missionários europeus que se compadeciam com a população imersa em tantas situações de miséria.


Mas foi com a criação da Fazenda da Esperança que ele se tornou uma referência, não só para Sergipe, mas para todo o Brasil, pois, por meio daquela instituição, ajudou a inúmeras famílias do País inteiro a recuperar o sorriso, o sossego e paz. Certamente, ouviu de muitos pais e mães um clamor pela libertação de integrantes familiares das drogas lícitas e ilícitas.


O frade franciscano, alemão, Hans Stapel trouxe o primeiro exemplar da fazenda da esperança para Guaratinguetá, interior de São Paulo. Como ele integrava o Movimento dos Focolares, o padre Mário Sivieri se encantou pelo Movimento e pela Obra de recuperação de dependentes químicos, e não tardou em trazer uma unidade dessa instituição estupenda para Lagarto, fundando, assim, a segunda fazenda da esperança no Brasil, que em poucos anos, ficou repleta de pessoas.


A marca de que se serve a Fazenda no trabalho junto aos internos é o triple: trabalho, vivencia familiar e espiritualidade. O trabalho é meio pedagógico, ocupacional, entretendo a mente das pessoas no que estão fazendo; a vivência familiar faz resgatar o diálogo e a cidadania na família; já a espiritualidade dá sentido à existência, de modo que as pessoas recobram a alegria de viver com dignidade, como filha ou filho de Deus, mesmo não sendo cristão.


Com o tempo, depois que já havia assumido a Diocese de Propriá, Dom Mário entendeu que era preciso criar mais uma unidade da fazenda naquela diocese, pois o número de necessitados dos cuidados ali recebidos era enorme. Assim, o Município de Gararu, no alto Sertão sergipano hospedou mais uma casa de recuperação. Dom Mário se desdobrou, então, com a mão estendida a Deus e aos homens e às mulheres para manter as unidades de terapia para quem ali se achegava suplicando por uma ajuda.


Não tive o cuidado de buscar os números, de forma precisa, mas desde de 1983 até nossos dias, a Fazenda da Esperança vem cumprindo sua missão de recuperar grande percentual dos que passam por lá. Assim, temos grande número jovens, famílias que dão testemunho da mudança de vida que o carisma vivenciado na Fazenda da Esperança lhes proporcionou, com a recuperação de tantas pessoas e com a reinserção na sociedade. Isso é gratificante. Somente quem conhece de perto a situação de se conviver com uma pessoa dependente de narcóticos tem a exata dimensão do que significa se libertar das drogas. Eu pessoalmente já encaminhei muitos jovens àquela casa, e os resultados foram satisfatórios para a maioria.


Dom Mário amava tanto a Fazenda da Esperança que, após se tornar emérito, deixou Propriá e foi residir nas duas fazendas da Esperança em Sergipe, pois passava o tempo todo dedicando-se às duas casas, até o dia em que não pode mais, por ter de se internar para tratamento de saúde.


Dom Mário amou Sergipe e o Brasil; doou-se aos jovens que se refugiaram nas drogas e alcançou um enorme resultado. Como não houve participação do povo nos funerais do prelado, as pessoas que passaram pela experiência na Fazenda da Esperança, não apenas como beneficiárias, mas voluntárias e colaboradoras, não tiveram a chance de lhe dizer obrigado. É que faço afora, em nome de todos os sergipanos, nordestinos e brasileiros que se serviram da espiritualidade São Francisco de Assis e de Chiara Lubich para recobrar a esperança de viver em sociedade, sem a necessidade das drogas, graças ao intenso esforço do terceiro bispo de Propriá. Obrigado, Dom Mário! O Céu seja sua recompensa por tudo o que fez aos dependentes químicos, restituindo-lhes a alegria do convívio familiar.

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