Olhar para o Céu e viver como Maria



A Igreja, ao celebrar a gloriosa Assunção da Bem-Aventurada Virgem Santíssima ao Céu, não deseja somente incutir nos seus fiéis a reflexão acerca do fim luminoso de existência de Maria sobre esta terra, mas, sobretudo, contempla este fato como coroamento de toda uma vida virtuosa de fazer cumprir, em tudo, a vontade de Deus, tal como ela explicitou na conclusão do seu diálogo com o Arcanjo São Gabriel, quando da anunciação e encarnação, no seu seio virginal, do Verbo eterno, Jesus Cristo, nosso Salvador: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).


Neste sentido, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, sobre a Assunção de Nossa Senhora, o Santo Padre Pio XII, definindo o dogma de que a Santíssima Virgem foi elevada em corpo e alma ao céu, retrata este nosso pensamento: “Os fiéis, guiados e instruídos pelos Pastores, souberam por meio da Sagrada Escritura que a Virgem Maria, durante a Sua peregrinação terrestre, levou vida cheia de cuidados, angústias e sofrimentos” (n. 14). Por estas palavras pronunciadas pelo Romano Pontífice, vemos que Maria, como todo homem, - e, mesmo sendo cheia de graça e imaculada já em sua conceição, não tendo o pecado original e nem o habitual - teve de conviver com diversos contratempos que a experimentavam na fé, e faziam-na responder a seu Deus e Filho de maneira positiva por uma santidade singular, que não independia do seu esforço constante.


Celebrar a Assunção de Maria é refletir naquilo que o homem é chamado a ser, não apenas enquanto a glória que o espera, mas, de antemão, com a prática das virtudes a que é chamado. E estes são os grandes frutos da devoção mariana: observando a valentia da vida de fé de Maria, tornarmo-nos desejosos de imitá-la. O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, exortará: “Os fiéis lembrem-se de que a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e a imitar as suas virtudes” (n. 66). Sendo devoto de Nossa Senhora, primordialmente pelo cultivo de uma vida santa, conformamo-nos “mais plenamente com seu Filho, Senhor dos senhores (cf. Ap 19,16) e vencedor do pecado e da morte” (LG 59).


São Luís Maria Grignion de Montfort, no seu consagrado Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, inspirando aos devotos a justa prática da devoção a Maria, também nos adverte sobre os perigos de um dissimulado amor para com ela. Assim, se exprime: “O demônio, como um moedeiro falso e um enganador fino e experimentado, tem já enganado e perdido inúmeras almas, inculcando uma falsa devoção à Santíssima Virgem, e todos os dias vale-se de sua experiência diabólica para lançar outras mais à eterna condenação, divertindo-as e acalentando-as no pecado, sob o pretexto de algumas orações malrecitadas e de algumas práticas exteriores que lhes inspira” (n. 90).


E o santo francês diz mais, elencando os sete tipos de falsas devoções: “Cuidemos, portanto, de não pertencermos ao número dos devotos críticos que em coisa alguma creem e de tudo criticam; dos devotos escrupulosos que receiam ser demasiadamente devotos da Santíssima Virgem, por respeito a Jesus Cristo; dos devotos exteriores que fazem consistir toda a sua devoção em práticas exteriores; dos devotos presunçosos, que, sob o pretexto da falsa devoção, continuam marasmados em seus pecados; dos devotos inconstantes que, por leviandade, variam suas práticas de devoção, ou as abandonam completamente à menor tentação; dos devotos hipócritas que se metem em confrarias e ostentam as insígnias da Santíssima Virgem a fim de ser passar por bons; e, enfim, dos devotos interesseiros, que só recorrem à Santíssima Virgem para se livrarem dos males do corpo ou obter bens temporais” (Ibidem, 104).


Imitando Maria em todo o nosso proceder, Deus nos coroará com a Sua infinita glória como coroou a Sua Mãe e nossa. Imitar Maria é estar atentos às coisas do Alto, buscando-as (cf. Cl 3,1), como prova de que, antecipadamente, pela vivência da graça, ressuscitamos com Cristo, esperando a plenitude desta mesma ressurreição a nós reservada. E, vendo-nos na Gloriosa e Imaculada Mãe como protótipo do que seremos, não nos esqueceremos, tampouco descuidaremos, de coroarmos a nossa vida com as virtudes para sermos laureados com a incorruptível coroa da justiça (cf. 1Cor 9,25; 2Tm 4,8), concedida pelo justo Juiz, quando do nosso trânsito para às sumas alturas, onde resplandece, para nós, a Virgem. E que venha para nós o Reino de Cristo, que é Reino de Maria. Amém.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)